quarta-feira, fevereiro 13, 2013

O tablet vai aposentar o livro. O que o bibliotecário tem a dizer sobre isso?


 Parece que o domínio dos livreiros e editores nos acalorados debates sobre a invasão de tablets e e-readers têm colocado os bibliotecários de lado para expressarem seus pontos de vista. Alardeados como a panaceia para diversos problemas estruturais da educação e da cultura brasileira e mundial, estes pequenos computadores vêm se misturando aos livros e cadernos de alunos e professores, mas ainda não transformou não-leitores em leitores.

  O governo acabou de comprar 600 mil tablets para professores da rede pública no momento em que foi divulgada uma pesquisa*(1) que revela que 34% professores da rede pública que responderam ao questionário socioeconomico da Prova Brasil 2011 nunca, ou quase nunca, leem.
   A diretora executiva do movimento Todos pela educação, Priscilla Cruz,  afirma que o livro digital pode ser, sim, uma alternativa para que se motive mais a leitura. Ora, sabemos que o livro digital pode ser acessado por sites como o domíniopublico.com, com disponibilização gratuita, comprado para e-readers ou tablets, ou baixado em formato pdf. O suporte, portanto, vai desde o computador já existente no laboratório da escola a uma escolha de aquisição de um produto eletrônico-portátil.

Estas notícias, mais uma vez, trazem à tona a pergunta que muitos querem alimentar: o tablet vai aposentar o livro de papel?

Carlo Carrenho e Sérgio Herz
    Esta discussão incansável foi retomada na versão Brasil da Campus Party em fevereiro deste ano. A Monitoria assistiu ao streaming (de qualidade muito ruim, diga-se de passagem) disponível no canal do evento no You Tube*(2) na vã esperança de enriquecer este debate. O que se pode observar de consenso é que a leitura no meio digital é mais lenta e menos confortável que a leitura em papel e o custo e a capacitação são empeditivos para a difusão destes pequenos milagres eletrônico-portáteis. Na #CPBR6, cada representante de um poder econômico puxou a sardinha para o seu lado: livrarias, para os e-books; editores, para os tablets.  Na mesa de discussão, Diogo Sponchiato, editor da Revista Galileu, mediou o embate entre outros peixes grandes: Sergio Herz (CEO da Livraria Cultura), Professor Hubert Alquerés (vice-presidente de Comunicação da Câmara Brasileira do Livro), Carlo Carrenho (profissional do mercado editorial, com 18 anos de experiência). Também participou da mesa o diretor da Biblioteca on-line Nuvem de Livros e Diretor de Relações Institucionais do Grupo Gol, Roberto Bahiense. 
Falas de marketeiros à parte, o empenho do publicitário Roberto Bahiense em fazer uso de bandeiras caras ao incentivo à leitura para vender o serviço pago de “biblioteca na nuvem” foi, no mínimo, constrangedor. A ideia de um serviço de “biblioteca” pago pode ser polêmica, e revestido de “tecnológico”, fica ainda mais grave. Não que ele não deva existir, pois a biblioteca do British Council, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, cobra anuidade para retirada de seus livros há anos. Uma política europeia.

 É bom que se faça o adendo: a Nuvem de Livros é uma iniciativa da companhia Vivo Telecomunicações para seus clientes e lançou o serviço em agosto de 2012, com acesso gratuito.  A partir de outubro, o acesso passou a ser cobrado: R$ 1,99 por mês,  e hoje o publicitário nos conta que o acesso é ilimitado para ler os “clássicos” e os “novíssimos” e isso a torna “ um efetivo instrumento de democratização de acesso ao conhecimento”.  Bahiense bateu forte na tecla da  preocupação da Nuvem de Livros com a “disseminação do conhecimento”. Para quem tem estômago forte para troca de gentilezas na área comercial, vale a pena assistir à mesa da Campus Party. (acesse em http://www.youtube.com/watch?v=DOGSQBmYU0c)

E qual é o papel da biblioteca e da ciência da informação neste embate? Pois, se agora um serviço pago é um “efetivo”, e este adjetivo deve ser frisado,  “instrumento de democratização de acesso ao conhecimento”, a biblioteca, especialmente a pública, abandonada e vilipendiada,  deve compartilhar esta sua função histórica com tubarões do poder econômico? 



Para conhecer uma opinião especializada, recomendamos o livro do linguista italiano Umberto Eco “Não contem com o fim do livro”. Junto com o roteirista francês Jean Claude-Carriére, o pensador apresenta uma bem embasada discussão sobre o fim do livro de papel, passando, como seria de se esperar dos livros de Umberto Eco, por um panorama histórico sobre o seu surgimento e produção.
 

Rose utiliza seu tablet durante as aulas
Tablet aparece cada vez mais pelas salas de aula da FESPSP

A aluna do 3º semestre noturno, Roselene Medeiros, usuária de um tablet Samsung, acredita que ele representa um complemento de estímulo à leitura, entretanto, jamais substiuirá o livro, pois este é uma experiência única que aguça todos os sentidos: “a posse, a capa, tocar nas páginas, ver e sentí-las... o cheiro até dá água na boca, pois muitos até molham os dedos para  passar as páginas, na verdade, saboreando-as, degustando, até devorá-lo totalmente!". Por outro lado, Rose pondera que “o tablet tem uma tecnologia dinâmica que acompanha o ritmo da sociedade atual para a leitura rápida e informações objetivas, mas o livro ainda proporciona algo mais rico, uma troca que remete às lembranças do sensorial.”


Notas:

*(1)Pesquisa  feita pelo Qedu: Aprendizado em Foco, baseado nas respostas dadas aos questionários socioeconômicos da Prova Brasil 2011, aplicados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), e divulgados em agosto de 2012, o levantamento do QEdu mostra que dos 225.348 professores que responderam à questão, 101.933 (45%) leem sempre ou quase sempre, 46.748 (21%) o fazem eventualmente e 76.667 (34%), nunca ou quase nunca.(

fonte: http://noticias.br.msn.com/verde/menos-da-metade-dos-professores-de-escolas-p%C3%BAblicas-leem-no-tempo-livre-1. Acesso em 10 de fev. de 2013)

*(2)Principais falas dos participantes da mesa “E-books à brasileira” na Campus Party Brasil 2013 no dia 30 de janeiro.

Roberto Bahiense se posicionou contra a disseminação do livro digital através dos e-readers, ação das grandes livrarias por que, a partir desta primeira venda, elas certamente vão fidelizar seu público com outros produtos muito mais caros com tvs de plasma, motorhome, e outros que tais. E isso não forma leitores, mas reforça o perfil consumista. Ao contrário, Bahiense acredita que a Nuvem de Livros forma, sim, leitores. Ele defende a oferta de livros na nuvem, ou seja, no terreno cibernético, à disposição do leitor, como a Netflix faz com seus filmes. Além de ser mais barato, ele mira o novo mercado consumidor brasileiro, a nova classe C.
A versatilidade do tablet pode fazer com que o Brasil dê um salto tecnológico indo direto para este device por que ele permite acessar livros, emails, fotografar, etc, é multifuncional.
As grandes livrarias, por sua vez, legitimamente, lutam em campo aberto pelos e-readers.

O CEO da Livraria Cultura, Sergio Herz, defendeu a portabilidade dos e-readers como seu maior benefício, pois com eles pode-se levar uma biblioteca de até 1000 livros.

O professor Hubert colocou que os leitores dedicados (e-readers) foram rapidamente adquiridos por leitores pesados, mas que não são atraentes para o leitor típico brasileiro que lê, em média, 2 livros por ano. Para estes, o tablet, por motivos econômicos, será um melhor investimento. Porém, as livrarias podem (e fazem) uso de marketing dos e-readers em suas lojas para atrair o consumidor familiar com estas plataformas. Ele também acredita que, ao invés de e-books e tablets, o que é determinante para o Brasil se tornar um país leitor (respondendo à pergunta de uma ouvinte na plateia)  é a presença de pai e mãe. “O que é mais determinante para criar um país de leitores é pai e mães. Quem gosta de ler é filho de quem gosta de ler”. Ele pontua que tem um papel social da educação e do governo e um papel familiar, além de ser uma questão de cultura também.

Carlo Carrenho apontou que o o que ainda não está bem resolvido é a questão do livro didático digital e a capacitação dos professores. E com razão: o livro didático representa hoje metade do mercado editorial brasileiro. Esta fascinante tecnologia é muito nova e traz consigo o problema econômico da aquisição.




Texto: Magali Machado

Imagem da aluna Roselene: Magali Machado

Imagem da discussão na Campus Party:http://i3.ytimg.com/vi/DOGSQBmYU0c/hqdefault.jpg

3 comentários:

  1. Vi o Bahiense falar no congresso Sibi 30 anos ano passado. Numa mesa que contou com palestras bastante interessantes de Jean-Claude Guedón falando da sociologia do texto e a evolução dos suportes e de Brandon Butler sobre a lei dos direitos autorais nos EUA, Fiar Use e Oppen Access, Bahiense pareceu estar lá apenas para mostrar a plataforma e "vender seu peixe".

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  2. Luiza, o Bahiense pareceu se comportar como o legítimo garoto propaganda da Nuvem de Livros. O ponto de discussão que podemos levantar é que ele emprestou conceitos comumente típicos da fala da biblioteca pública para vender esse projeto da VIVO. O que sobrará para a biblioteca pública se até o seu discurso está sendo lhe subtraído?
    Obrigada pela sua mensagem, continue participando.

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  3. Excelente relato! Deixaremos de emprestar livros uns aos outros? Deixaremos de dar livros de presente? Eu náo tenho dúvidas sobre o fim do livro físico no médio/longo prazo. Basta olharmos para trás. Difícil de aceitar, mas não difícil de imaginar.
    Mais dois ou 3 anos, nosso mercado editorial será completamente diferente. As editoras pequenas sumirão ou serão compradas e as livrarias não terão mais tantos espaços para prateleiras e sim estaçoes de leituras para tablets..esses evoluirão e se tornarão muito agradáveis e quem sabe até com cheiro de livro...rs
    Os editores estão desesperados, pois a absurda margem de lucro desaparecerá e o preço do ebook caíra muito (Amazon já está no Brasil e é pioneira nesse modelo de negócio digital ) e os leitores aumentarão muito, pois o acesso ao conteúdo vai com ele onde quer que ele vá....leiam a Cauda longa de Chris Anderson para entender como se dará essa disseminaçao da leitura. http://books.google.com.br/books/about/A_Cauda_Longa.html?hl=pt-BR&id=Azimn30tFbUC

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