sexta-feira, maio 31, 2013

Em conferência, FHC afirma que Ciências Sociais podem responder ao desafio da globalização



O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nos 80 anos da FESPSP




O ponto alto da abertura das comemorações dos 80 anos da FESPSP foi, sem dúvida, a conferência do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) na manhã do dia 27 de maio, na qualidade de ex-aluno e membro do conselho diretivo da instituição.






Assim que iniciou sua fala, confirmou todo o seu domínio de oratória e também de empatia com o ouvinte, ao brincar com a plateia dizendo que estava muito satisfeito por estar comemorando os 80 anos da escola, primeiro por que ela é um pouco mais moça que eu”, disse, arrancando risos logo de saída. “E o segundo motivo de eu estar aqui”, continuo FHC, “ é que o desenvolvimento da sociologia em São Paulo deve muito a esta escola”. FHC lembrou do objetivo da Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP) na época de sua fundação: na São Paulo recém-derrotada na revolução de 32, “havia um sentimento de que os paulistas deveriam conhecer melhor” seu estado e para isso era preciso criar uma instituição que fosse capaz de formar as pessoas e os quadros dirigentes brasileiros com uma visão mais ampla”, afirmou. O ex-presidente mencionou a importância da pesquisa do professor Samuel H. Lowrie, um dos quadros da Universidade de Colúmbia, que foi convidado para integrar o corpo docente da escola. Sua pesquisa de campo envolvendo os lixeiros de São Paulo (1936), segundo FHC, foi catapultada à fonte de informação para, posteriormente, o governo de Getúlio Vargas definir as categorias de salário mínimo. Ironias da história, o mesmo Getúlio contra quem os paulistas tinham se insuflado anos antes, e perdido a revolução.

No panorama histórico que desenhou, o ex-presidente lembrou-se da pujança do pensamento da Escola de Chicago, que veio a se combinar com o pensamento de Lowrie por meio de outra personalidade acadêmica americana: o professor Donald Pierson aportou na ELSP nos anos 40, trazendo toda a dinâmica de uma sociologia de pura práxis. “A escola de Chicago nos EUA teve um papel importantíssimo na redefinição da sociologia americana por que eles tomaram a cidade como se fosse um laboratório”, explicou FHC. “Muito antes dos economistas de Chicago serem conhecidos, havia uma escola de Chicago de sociólogos, e que marcou época”.

FHC examina placa comemorativa que recebeu no evento
FHC explicou que a influência de Pierson se deu principalmente na técnica de estudo de comunidade empregada pelo professor americano. De início, foi desacreditada, mas nesse estudo de comunidade iniciou também o estudo de relações raciais. “Sendo ele americano, encontrou a situação do negro no Brasil diferente da americana, e firmou um ponto de vista, exagero eu um pouco agora, que o preconceito aqui era mais de classe que de raça. Isso deu pano prá manga, por que deu uma polêmica enorme”, pontuou Cardoso.

Do seio da nata acadêmica de Ciências Sociais, FHC citou com naturalidade várias figuras-chave históricas que foram seus professores. Um deles foi Florestan Fernandes, sociólogo pela ELSP, que também se dedicou a discutir a questão de negros e de raça e classe no Brasil, tema ao qual o próprio FHC também se dedicou anos mais tarde, nos anos 1950. Gioconda Mussolini foi sua professora de antropologia, além de Egon Schaden, ambos formados na ELSP.


Fundada no ano seguinte à FESPSP, em 1934, a USP se beneficiaria da exuberância intelectual da moderna escola livre recém-criada, especialmente a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCHL), por anos. “A influência da ELSP sobre a Faculdade de Filosofia e Ciências e Letras da USP, onde eu estudei, foi muito grande”, afirmou FHC. “Por que o Florestan fez mestrado aqui, aqui havia mestrado, novidade na época. O mestrado foi criado na USP muito mais tarde. Eu mesmo nunca tive título de Mestre, tive título de especialista, e daí se passava para Doutor”, revelou.


“O número de pessoas que marcaram o desenvolvimento cultural de São Paulo e que foram formados nesta escola é realmente muito impressionante.”



E quem teve o privilégio de conviver com tais personalidades contribuiu para firmar a importância da ELSP. Alinhada com o que de melhor se produzia em Ciências Sociais, a instituição atraía nomes substanciais de pesquisa, conforme FHC relembra:“Pouca gente sabe, mas um dos maiores antropólogos contemporâneos daquela época deu aula aqui: Radcliffe-Brown. Ele só foi embora por que brigou com Pierson. O Radcliffe-Brown marcou a antropologia moderna, juntamente com Malinowski.”

O ex-presidente apontou outros fatos históricos importantes, explicando o contexto dos anos 1930: “Naquela época não havia muita distinção entre sociologia, antropologia e nem mesmo economia, e psicologia social. Na verdade, nós estávamos interessados na formação em Ciências Sociais. Havia uma paixão: a paixão pela sociologia como saber científico. Pode parecer ridículo isso hoje, mas na época era assim. E por que? A grande tradição brasileira era das interpretações do Brasil, que eram baseadas muito mais em intuições, em ensaios. Por que os anos 30, precisamente, nos deram o que tinham de melhor: Caio Prado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, todos eles escreveram na década de 30, foi uma década gloriosa. E aqui faço uma pequena interpretação do porquê. Nós estávamos nos anos 30 em grande crise mundial, por que de alguma maneira tivemos um processo forçado de substituição de importações, por que tudo paralisou por lá, as guerras já haviam feito isso, e havia uma política de valorização do café e houve o começo de um ímpeto industrializador muito forte aqui. Então, não é por acaso que as elites brasileiras começaram a tentar entender esse Brasil que estava se modificando. E aí essa série de trabalhos do Gilberto Freire, Caio Prado e Sergio Buarque, e outros trabalhos  mais empíricos, de maior rigor científico e de alguma maneira se orientaram mais por processos micro que processos macro”, afirmou.

“No início dessa escola, a ideia era formar pessoas capazes de grandes interpretações”



FHC explicou que sua formação pela FFCHL-USP foi de uma geração posterior a esse, com menor ênfase às técnicas de pesquisa, mas graças ao intercâmbio entre as duas escolas, principalmente na figura de Florestan Fernandes, os alunos da USP também foram obrigados a aprender técnicas de pesquisa. Relembrou da precariedade dos recursos de pesquisa nos anos 1950, com os grandes computadores da época que emitiam os cartões perfurados para processar os dados.

No confronto com a realidade hoje, FHC destaca a necessidade de se entender os processos sociais: “Nós olhamos o desafio de hoje com o desafio do passado, e de alguma maneira permanece uma necessidade de entender os processos sociais, mas existem melhores recursos para se entender esses processos. O avanço imenso que se deu nas Ciências Sociais, na especialização em várias áreas do conhecimento, baseado em informações que são reguladas, é notável. Não sei se acompanhado com a mesma capacidade que tiveram os grandes ensaístas dos anos 30, para formar análises mais globais sobre o que acontece no país. E, em geral, o desafio que países como os nossos têm para se situar e as pessoas têm para entenderem o mecanismo da sociedade estão ligados a processos que são mais globais. No passado, podíamos ter ainda a ilusão que, estudando isoladamente a nossa região, o nosso país, o nosso estado, nós fôssemos capazes de entender o conjunto. Mas hoje em dia isso é muito mais difícil, é muito pouco provável que assim seja”, disse.


O ex-presidente deixou claro que o caráter global é determinante na organização dos processos produtivos e na visão de mundo das pessoas: “Como é que nós vamos nos situar e entender o mundo que se globaliza? pergunta, explicando que isto é algo também bem diferente de tudo aquilo que se pensava nos anos 70, quando a tônica era a discussão do desenvolvimento e subdesenvolvimento. “O nosso modelo era ainda da  possibilidade de manter os traços autárquicos da formação do Brasil, na economia brasileira”, disse. “Hoje ninguém pensaria nisso”por que a pauta é para “integrações produtivas.“Imaginar que essa globalização vai se homogeneizar é não entender nada”, concluiu.

E colocou a questão para o Brasil: “Como é que vamos readaptar as nossas instituições, as nossas políticas, as nossas práticas à nova situação na qual não há mais opção de ficar fora?”.  Esperançoso de que há como absorver deste cenário um benefício para o povo e para o interesse nacional, está ciente, por outro lado, que a tarefa não é fácil. “Isso tem incidência na política.”
Para o sociólogo, “as pessoas têm muita dificuldade em entender que estão vivendo um novo momento”, acredita ele.


“Eu gosto da brincadeira que, se o Lênin fosse vivo, ele escreveria um novo trabalho: em vez de “O imperialismo: fase superior do capitalismo”, seria “O pós-imperialismo”.


Estamos vivendo uma época pós-imperialista, ou seja, o processo econômico se integrou e integrou, através do processo produtivo, dispensando, em larga medida, a ação dos Estados; por consequência, das forças armadas; e por consequência, a guerra, que deixou de ser, no horizonte, o fator  decisivo para manter predominância. Lateralmente, existe, sobretudo, as questões religiosas, mas as questões centrais, os grandes embates, não se dão mais com a visão e a imposição armada  de uns poucos sobre os outros,  nem com a necessidade do uso da força para garantir matéria prima, o abastecimento. É pós-imperialismo. E custa às pessoas entenderem isso, muitas vezes raciocinam como se estivéssemos ainda antes dos anos 70, quando começou o fim da União Soviética. Então este é o desafio maior de todas aqueles que querem pensar. E não pode ser um desafio que se resolva, simplesmente, como estou fazendo aqui, falando vagamente. É preciso que seja um desafio que seja entendido através da capacidade, que já existe, das ciências sociais, de um conhecimento mais objetivo, mais documentado, mais específico, mais determinado”, ressaltou.

Ao final, FHC agradeceu o convite e a referência de que foi presidente do conselho da FESPSP e afirmou que “se hoje nós podemos falar com mais segurança sobre muitos temas é por que aqui se começou a ensinar como é possível lidar com temas macro, com um conhecimento e uma competência que nos permita evitar o devaneio e construir, realmente, arcabouços sólidos do conhecimento.”

Veja mais fotos do evento aqui.
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