sexta-feira, setembro 20, 2013

Gestão do Conhecimento na prática, com a professora Maria Rosa Crespo



Professora Maria Rosa Crespo

Como efetivamente criar e gerir conhecimento na empresa? O que é, afinal, a Gestão do Conhecimento? A professora Maria Rosa Crespo, pesquisadora do tema, conversou com a MC sobre os benefícios de se integrar uma empresa sob esta abordagem, com exemplos reais. Sob a Gestão do Conhecimento, é possível fazer com que “os colaboradores conversem entre si, desmanchem barreiras, derrubem preconceitos”, afirma a professora. Leia na entrevista a seguir:




“Os fundadores dessa filosofia, vamos dizer assim, dessa proposta, que são dois japoneses,  Ikujiiro Nonaka e Hirotaka Takeuchi, falam em espirais do conhecimento, usam essa metáfora. A espiral começaria no indivíduo e ela faz aquele movimento de espiral em que vai abranger mais pessoas, até que ela abrange toda a empresa. Se eu fizer um movimento de aumentar o meu raio de extensão, de participação na empresa, e você aumentar o seu, e o outro aumentar o dele, todos os nossos raios vão se encontrar. Então, a empresa inteira vai estar imersa em uma proposta, em uma filosofia voltada para o desenvolvimento do conhecimento. Estamos falando de competências, daquilo que as pessoas sabem. Porém, existem as competências técnicas, mas existem competências sociais também. Por exemplo: hoje chegou para mim lá na empresa (ARCADIS/Logos) a Harvard Business Review e na edição deste mês eles estão falando das mulheres líderes, da carreira feminina, da ascensão das mulheres no mercado de trabalho. (Na reportagem) há coisas que eu mesma já tinha lido em outros lugares sobre a mulher boicotar a ela mesma no mercado de trabalho em função de ser muito emotiva. Ela não desenvolveu determinadas habilidades sociais. Quando ela acha que ela está desenvolvendo determinadas competências sociais, ela tende a ser cínica e hipócrita, então ela ainda não conseguiu encontrar o meio-termo. Tem as questões da afetividade, as questões da paixões, em que os homens são mais comedidos e as mulheres não, elas são mais exacerbadas. Isso acaba atrapalhando a carreira da mulher. Mesmo essas questões pessoais fazem parte de um trabalho de gestão do conhecimento. Eu levei essa revista para a nossa diretora de Recursos Humanos, uma mulher. Ela achou que seria um gancho muito bom para fazermos alguns encontros com as mulheres que nós temos em coordenação de departamento. O que ela vai fazer? Ela vai levantar os principais artigos da revista, fazer umas apresentações e tratar desse assunto com diálogos, através das mulheres que trabalham na empresa. Isso é uma ação de gestão do conhecimento!”

“Dentro dessa espiral, o Takeushi e o Nonaki dividem a empresa em quatro partes: tem uma parte da criação do conhecimento, que está focado mais em laboratório, pesquisa e desenvolvimento, e tecnologia, quando se criam novos produtos e novos processos. É o momento da criação, em que o colaborador desenvolve uma coisa nova, de dentro de si para fora. Esse é o momento inicial,  “ e se a gente fizesse desse jeito?” Essa área de pesquisa e desenvolvimento precisa fomentar conhecimento na medida em que ela dá condições para o colaborador (tempo, condições estratégicas, condições de laboratório, tecnológicas) de criar conhecimento.”
  

“Depois, tem uma área que precisa socializar esse conhecimento: a área de comunicação da empresa. Ela vai fazer com que os colaboradores conversem entre si, desmanchem barreiras, derrubem preconceitos, troquem informação e conhecimento, falem dos processos, desmanchem mal-entendidos. Tudo isso faz parte da gestão do conhecimento por que vai abrir o dique para o conhecimento fluir. Gente nova que chega na empresa (pode propor): “ lá onde eu trabalhava, a gente fazia isso aqui de outra forma”. Se você tem gestores que são travados (e replicam): “Ah, não me interessa como você fazia na sua empresa, aqui a gente faz assim e vai continuar fazendo assim”, isso é uma das maiores barreiras para o desenvolvimento de processos: pessoas que são resistentes à mudança. Elas precisam ser sensibilizadas quanto à necessidade de competição, de se transformar em uma empresa competitiva, em mercado globalizado. Isso tudo se faz com ações, com conversas, com oportunidades. Por exemplo, na empresa onde eu trabalho temos um filme por mês, um filme que está passando no cinema, que aborda questões corporativas ou questões de comportamento. Vai todo mundo para uma sala, a gente ganha um almoço, assiste ao filme e depois debate. O último filme a que nós assistimos foi “A hora mais escura” (horrível, tem umas cenas de tortura que são terríveis).”

“(Depois disso), vai para uma área que se chama Registro, Guarda e Recuperação, onde entra o bibliotecário e o gestor da informação. Tudo aquilo que foi pensado, socializado, dividido, analisado, tem que ser registrado em algum suporte: gravação de áudio, foto, filme, escrita, análise, relatório, e tudo isso precisa ser guardado em algum lugar, com uma óptica de quem está fazendo gestão da informação estratégica. Aí entra o bibliotecário especificamente, dentro de um sistema, disponibiliza (a informação) no portal da empresa, faz modelos, assim o outro não precisa ficar lá quebrando a cabeça “como se faz isso?, (faz) “jurisprudência corporativa”, ou seja, estudos de caso, lições aprendidas. Ele coloca a informação em um formato consumível de acordo com o perfil de cada usuário.”

(E na última porção) vai para a área da educação corporativa, que é a área da transmissão do conhecimento, que vai mandar esse funcionário da Pesquisa e Desenvolvimento para estudar em uma universidades, (oferecer) subsídio de faculdade, cursos e treinamentos internos, pessoas mais experiente ensinando quem sabe menos, programas de menor aprendiz, tudo isso é área de gestão do conhecimento. É uma área muito ampla e que precisa ser dividida dentro das empresas para que ela possa ser feita da melhor forma possível. Ou, você tem uma área do conhecimento com uma equipe multidisciplinar que vai dar conta de tudo isso, com bibliotecário, gestor, gente de comunicação e marketing, de pesquisa e desenvolvimento, finanças, pedagógica...A Petrobrás tem uma área enorme de Gestão do Conhecimento e tem um portal que se chama Inove que tem uma série de conteúdos já formatados em aulas. As pessoas que prestam serviços para a Petrobrás podem registrar seus funcionários para fazerem as aulas à distância e pagam uma quantia mínima. Mas, isso tudo é resultado de investimentos de anos a fio em Gestão do Conhecimento. Tem aulas de ética, de finanças, como fazer uma nota fiscal, o que é cadeia de valor, o que é a ISO 9001, o que é sustentabilidade, direção defensiva, segurança no trabalho, uso de EPIs, alimentação saudável, tem de tudo no portal. ( a própria empresa produz o conteúdo que lhe interessa, ou contrata terceiros para produzir).”

Na Arcades/Logos, estamos na parte de Registro, Guarda e Recuperação da Informação.  Tem o pessoal da área de Treinamento, de Recursos Humanos, e de Comunicação, cada um fazendo a sua parte. (está funcionando?) Olha, a gente imagina que esteja, a gente não vê os resultados assim, não tem como mensurar. (Não tem sinais de que está funcionando?) Você vê sinais no dia em que você encontra alguém no elevador e a pessoa fala: “Aquilo que você me mandou serviu muito por que me ajudou em tal coisa... você vê nas pessoas o resultado, não tem como mensurar. Nenhuma empresa vai poder dizer “Mensuramos os resultados da nossa gestão do conhecimento” (é um resultado intangível mesmo). Você vê a empresa, sente a empresa, o ambiente, um colaborador ajudando o outro, trocando informação. Eu recebo muito email de funcionários que dizem: “Olha, Maria Rosa, eu falei com o fulano sobre isso e aquilo e ele falou que você pode me ajudar.” As pessoas se falam."

"(dicas de leitura). Básicos: Nonaki e Takeushi, Peter Druker, e o site da Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento (SBGC). Eles têm muitos eventos, têm muitos artigos publicados, fazem eventos internacionais, é muito interessante o site deles. Tem a KM (Knowledge Management Internacional), que também faz eventos de quatro em quatro anos muito interessantes. (outras empresas que usam a gestão do conhecimento?) A Oderbrecht, a Petrobrás, o McDonalds, o Senac, a 3M, tem muitas empresa adotando as ideias principais.


Pós-graduação em Sócio Psicologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em andamento. Pós-graduação em Psicopedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie-SP. Graduação em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Docente da FaBCI e da ADM ambas da FESPSP. Experiência na área de Ciência da Informação, com ênfase em Gestão do Conhecimento, atuando principalmente nos seguintes temas: gestão de serviços de informação, gestão do conhecimento, educação corporativa. Acesse aqui o curriculum lattes.


Saiba mais:


 

3 comentários:

  1. Adorei a entrevista e adoro a Profa. Maria Rosa :)

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  2. Fabio, a professora Maria Rosa é, sem dúvida, muito querida entre os nossos professores e conversar com ela é irresistível, sempre muito atenta a tudo e pronta para ajudar.

    Continue participando do nosso blog, obrigada pela mensagem!

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  3. Entrevista enriquecedora e estimulante para os interessados na área, como eu! Muito bacana termos acesso a como pensam e trabalham, na prática, os profissionais da área.

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