domingo, agosto 17, 2014

Coluna Música e Livros por Bruno Carvalho

Música e Livros é uma coluna escrita por Bruno Carvalho, ex-aluno de Biblioteconomia da FESPSP, que fala a respeito de bandas e o que elas leem, mostrando que musica e livros podem ter tudo a ver!

 Entrevista com Carlos Finho Telhada, músico, escritor e artista plástico. Foi vocalista da frente da banda 365, MMDC, atualmente segue carreira solo. Em 2011 lançou o livro Poemas de combate.

1)      Carlos Finho, quando você decidiu ser músico? Tocou em outras bandas antes do 365, MMDC?

Meu pai e meus irmãos são músicos na igreja, somos evangélicos. Isso criou uma contradição em mim; sempre soube que seria músico, mas não consigo ver isso como profissão. Toco em grupos desde os 12 anos (início de 1976). Toquei em outras bandas como OSS, Steps, Libra... Minhas primeiras aparições tocando músicas próprias (1978) foram em festivais escolares com banda de apoio fixa, onde só mudava o intérprete. Os festivais escolares mantinham o modelo dos festivais da canção dos anos 60, mas sem a mesma produção é claro, pois sempre estudei em escola pública.

2)      Qual a influência literária nas letras dessas bandas?

Era muito difícil convencer o resto da banda de que uma letra tinha algum significado, pois os músicos, assim como o povo brasileiro em geral, não têm cultura literária. Em “Pamela”, por exemplo, faço uma citação da primeira das Elegia de Duíno, de Rilke (quem me ouviria se eu gritasse...). Digo isso sempre que toco a música, mas ninguém nunca perguntou quem é Rilke. Quando fiz São Paulo, eu pensei em fazer como alguns dadaístas que colocavam palavras ou frases num saco e depois iam tirando aleatoriamente e anotando, mas alguns reagiram achando que era desleixo ou falta de respeito com a letra. A música, talvez por ter características muito particulares, permite que um intérprete ou mesmo um compositor, acredite ser possível trabalhar só com emoção, não levando em conta aspectos importantes como cultivo da leitura. É uma pena!

3)      Tem alguma música sua que fala de algum livro? Ou alguma música que tem trecho de livros?

É impossível ser apaixonado por literatura e não citar ou fazer alusões nas letras. De Baudelaire à Paulo de Tarso, minhas letras estão crivadas de carga literária. Em “Fúria”, por exemplo, na passagem “minha fúria é o meu espinho”, há uma óbvia alusão à passagem Paulina (2ª. Carta aos Coríntios, 12, 07). Em “Futuro” eu misturo visões de “20.000 Léguas Submarinas” - Julio Verne - visões apocalípticas e livros de mística sobre o Graal.
4)      Como era o convívio com as outras bandas punks de São Paulo na década de 80? Ainda tem contato com pessoal da época?

Sou amigo dos integrantes de todas as bandas antigas. Cólera, Inocentes, Garotos Podres, Fogo Cruzado, DZK, Ratos De Porão, Restos De Nada, Lixomania e muitas outras que ainda estão na ativa, punks ou não, tão ou mais antigas quanto. Claro que tem gente que você tem mais afinidade, mas estamos todos em contato e nos respeitamos. Sou nascido e criado na Freguesia do Ó, berço das primeiras e mais aguerridas bandas. Isso facilita nosso contato.

5)      Como vê a cena punk de São Paulo atualmente?

Sinceramente, não me preocupo com isso. Acho que se é algo com raiz anárquica, não pode ser “organizada”. Algumas pessoas têm dificuldade de entender que não se pode criar sem espontaneidade. Ficam armando eventos onde o que mais sobressai é a vontade de se mostrar pra mídia. Existe algo que é a mistura explosiva de imprevisto + espontaneidade + juventude cujo nome é DIVERSÃO! Sem isso, a única coisa que resta, é fazer pose pra câmera, seja num quebra-quebra, seja numa convenção sobre tatuagem. Dispenso “posers” e “fakes” em geral.

6)      Quando decidiu seguir carreira solo?

Como disse acima, comecei me apresentando em festivais que tinham suas próprias bandas de apoio, portanto eu já tocava só. É preciso que eu diga que todos aqueles que eram músicos quando o “Movimento” chegou ao Brasil já tinham seu próprio som e não conheciam ou pelo menos não se encaixavam como punks. Muita gente aderiu ao punk ou simplesmente agiu de maneira oportunista. Não condeno! O que vale é a qualidade do trabalho feito. O 365 é parte da minha carreira, embora eu tenha moldado a banda de acordo com meu gosto, tendo em vista o fato de eu compor e dar entrevistas em nome da banda por quase 30 anos.

7)      Como surgiu a ideia de escrever o livro Poemas de Combate e a editora Naturales11a?

“Poemas de Combate” é uma coletânea que eu decidi montar no final dos anos 90. Num primeiro momento, eu queria colocar algumas letras e explicar a razão delas serem como são a temática, etc. As pessoas me perguntavam como e por que eu fazia letras de um jeito e não de outro. Depois, quando montei a primeira edição em 2011, percebi que deveria fazer uma coletânea de poemas meus e acrescentar algumas letras na última parte do livro. Coloquei trinta e poucas letras de músicas que compus entre 1977 e 2011, sem explicar nada, pois achei que cada um deveria achar sua própria explicação pras letras.

8)      Pretende lançar mais algum livro futuramente?
Em setembro próximo, farei uma exposição de quadros que pintei nos últimos 10 anos numa livraria localizada num shopping de São Paulo. Estarei lançando meu disco “PARAMITA” no mesmo evento. Trata-se de uma comemoração aos meus 51 anos de vida e 38 de carreira. Estou me esforçando pra poder coroar tudo isso com mais um livro, esse, de caráter autobiográfico, mas sem abrir mão da ficção, que é o que dá sentido ao que nos cerca.

9)      A música São Paulo (banda 365) é uma referência a Cidade de São Paulo, como surgiu a inspiração para a música?

Eu pretendia fazer todo o primeiro disco do 365 falando da cidade e do estado de São Paulo; é algo que me fascina desde criança. Falei com a banda, mostrei exemplos de artistas que haviam feito isso (trabalhos conceituais), mas não fui compreendido. Um dia, fomos à uma apresentação de banda num cine-clube e uma banda de fora, com um super equipamento, fez uma porcaria de apresentação. Depois, subiu uma banda paulista e quebrou tudo! Eu virei pros caras e falei “é disso que eu quero falar!”.O guitarrista ficou de pensar. Tempos depois ele apareceu com um arranjo de 3 ou 4 notas onde eu pus a melodia e a letra!

10)  Uma das grandes características suas, e expressas em suas letras é a paixão pelo estado de São Paulo, de onde surgiu essa temática em suas letras?

A fixação que tenho por São Paulo, vem da observação do povo nas ruas, da mistura, do sofrimento e da superação. Desde o “descobrimento”, fomos deixados à própria sorte e isso pode ser comprovado na distribuição das capitanias hereditárias e nos posteriores acertos políticos feitos entre a metrópole e as regiões da colônia que estavam mais próximas da Europa. Mesmo hoje em dia, ainda é possível perceber o efeito nocivo dessa mentalidade na estrutura política do nordeste, por exemplo. Para mim, a civilização brasileira é um vislumbre paulista de um mundo ideal!

11)   O que está lendo atualmente?
Sempre leio mais de um livro ao mesmo tempo, pois acredito que, em diferentes horas do dia, temos diferentes impulsos ou interesses. Estou lendo uma biografia de Husserl, relendo Sonetos a Orfeu (Rilke) e uma biografia de João Nogueira (grande músico carioca).
12)   Qual foi a sensação de interpretar poemas do seu livro Poemas de Combate na Biblioteca Alceu Amoroso Lima?

Foi em 28 de julho de 2012. Infelizmente, fiquei a minha própria sorte. A única funcionária que se dispôs a ajudar chegou atrasada e parecia completamente perdida. Pra ajudar, um “fiscal” da Ordem dos Músicos apareceu pra saber se eu tinha carteira da ordem. Felizmente, só fiquei sabendo disso, depois, pelo segurança. Ou seja, tudo normal! O desrespeito de sempre, principalmente quando se trata de um artista paulistano.

13)   Como está a carreira solo? O lançamento do novo disco Paramita, agenda de shows?

O disco está criando vida própria, exatamente como deve ser! Como haverá o lançamento de um novo livro, mais o início da exposição dos meus trabalhos na área de artes plásticas, eu gosto de pensar que o disco fará um contra-ponto com essas outras formas de expressão. Farei o circuito dos Sesc da cidade e do interior, mas as datas só se confirmam quando o disco sai do forno.

14)    Carlos Finho, fique à vontade para indicar alguns livros aos leitores do blog, deixar uma mensagem.


Mario de Andrade é o maior intelectual brasileiro de todos os tempos. Macunaíma, O turista aprendiz... tudo que esse homem fez está borbulhando de genialidade e erudição! Ninguém tem a mínima capacidade de articulação se não conhecer, pelo menos, uma centena de bons autores de épocas e países diferentes. Há livros como a Bíblia, o Corão, Don Quixote, entre outros, que não podem ser deixados pra lá! Fico muito preocupado quando vejo certos “especialistas” falando em autores “do subúrbio”, “autores marginais” e outras besteiras. É a prova do preconceito que envolve a atividade artística no Brasil. A elite brasileira (não é elite coisa nenhuma, mas não há outro nome pra chamar essa coisa disforme) ainda vê a arte como algo que está acima do povo, incompreensível. O artista, se for “pobre”, deve falar/escrever errado e pertencer a alguma minoria (é assim que eles chamam a maioria do povo brasileiro). Como hoje em dia, ser homossexual virou carne de vaca e ser comunista está fora da moda, parece que estamos à espera de um novo salvador das artes. Até lá, teremos que aguentar as mediocridades que nos são exibidas. Aliás, por isso mesmo, montei minha própria editora. Sejam felizes!


Foto: Rui Mendes . Local: Moinho, inverno de 1986. Frente esquerda ( Finho);  direita- (Mingau) Fundo- esquerda. (Ari)  Direita- (Miro). Foto enviada por Carlos Finho.

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