domingo, março 06, 2016

Coluna: Música e Livros, por Bruno Carvalho

Música e Livros é uma coluna escrita por Bruno Carvalho, ex-aluno de Biblioteconomia da FESPSP, que fala a respeito de bandas e o que elas leem, mostrando como música e livros tem tudo a ver!
O entrevistado da vez é Di Castro, vocalista e idealizador da banda Sangue da Cidade.

Di Castro

Bruno Carvalho: Di Castro, quando você decidiu ser músico?

Di Castro: Tinha 12 anos, morava no centro da cidade. Havia uns garotos que arranhavam uma guitarra e me falaram que tinha um instrumento chamado “contrabaixo eletrônico”! Eu imaginei uma guitarra com umas luzes piscando no braço do instrumento e isso me despertou o primeiro encantamento. Um deles fez uma guitarra e eu tentei pagá-lo pra fazer uma pra mim, mas o garoto ficou com a minha grana e não fez a guitarra, aí eu resolvi fazer uma guitarra solo, uma guitarra ritmo e um contrabaixo, para ter os instrumentos para toda a banda! Um dia fui na TV Rio, canal 13 e de repente a apresentadora me entrevistou. Fui pego de surpresa porque estava escondido lá no fundo, mas gostei muito quando fui reconhecido! 

B.C: Tocou em outras bandas antes de fazer parte do Sangue da Cidade?

D.C: Eu sempre tive a vontade de ter um projeto meu, nunca quis tocar em uma banda de outros, principalmente porque as propostas que eu recebia não eram tão interessantes. O que eu não sabia é que isso iria aumentar a minha rede de relacionamento profissional e que cada pessoa com quem trabalhamos deixa um conhecimento valioso. Se eu voltasse no tempo, faria tudo diferente!
Claro, mesmo assim, eu toquei e trabalhei em várias funções com muita gente. Várias pessoas tocam e cantam músicas minhas, trabalhei de técnico e dono de PA, técnico de estúdio, guitarrista, baixista, compositor, letrista, cinegrafista, editor de vídeo, arranjador, cantor, etc.
Todas essas habilidades foram desenvolvidas "para o rock"! Para poder fazer a minha música. Assim poderia fazer o meu site, compor as minhas músicas, fazer os meus clips, o cartaz do show etc.

B.C: De onde surgiu a ideia de chamar a banda Sangue da Cidade?

D.C: Um dos primeiros rocks que fiz se chamava "Sangue da Cidade". O nome vem dessa letra que fiz quando tinha 16 anos!
"Somos o sangue de uma cidade e só o rock nos deixa a vontade o meu negocio é tocar rock in roll, estou tocando rock in roll agora entre para o time que curte o rock in roll". Eu anteriormente já havia usado outros nomes. O último que usei antes de "Sangue da Cidade" foi "A Banda do Inferno".
Na época, acho que era 1979, eu fazia um show no "Teatro Opinião" e, um dia, no meio do show eu falei: "Hoje nós estamos acabando com "A Banda do Inferno" e faremos uma nova banda chamada "Sangue da Cidade" com os mesmos músicos". A platéia riu e nós seguimos o show!
Antes da minha mãe ter me aconselhado a trocar de nome, eu havia tocado com um gringo, que era gente finíssima e tocava com Billy Paul, e ele também falou: "Inferrrrnoooo??? Inferno não uma coisa boa! Você uma boa pessoa, porque vai botar esse nome?" Acho que ele era evangélico também, como minha mãe!

B.C: Para escrever as canções vocês se inspira em livros? Quais?

D.C: Na maioria das vezes eu me inspiro no dia a dia, primeiro eu penso na sinopse e depois é que escrevo a letra!
A minha música mais executada, "Brilhar a Minha Estrela", mais conhecida como "Dá Mais Um", foi inspirada num trecho do livro "A erva do diabo" de Carlos Castaneda.
A única pessoa que reconheceu o texto foi o Caetano Veloso que olhou pra mim e disse: “Gostei muito da sua música! Tem a ver com o Castaneda?” Foi assim que comecei a entender que artistas como ele tem uma capacidade intelectual diferenciada e que eles passam a vida lendo.

B.C: Tem alguma música sua que fala de algum livro? Ou alguma música que tem trecho de livros?

D.C: O que uso para me inspirar são os grandes letristas como Chico Buarque, Caetano, Beatles, Roberto Carlos, etc.

B.C: Como era o convívio com as bandas nacionais nos anos 70 e 80? Comente um pouco sobre o rock na época, as apresentações das bandas, os lugares que tocavam, etc.

D.C: Nos anos 70 eu era apenas um fã e gostava de assistir os poucos grupos que haviam na época: Mutantes, A Bolha, O Terço etc. Era tudo muito rústico. As bandas eram muito cruas, principalmente nas composições.
Comecei mesmo a tocar em 1975, mas só em 1979 é que comecei a tocar em teatros, aí parei um pouco e em 1981 voltei a fazer shows com a nova formação que incluía o Vid!
Em 1982 entramos no projeto chamado "Rock Voador" que incluía vários artistas como Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens e o meu arqui-inimigo Celso Blues Boy.
Eu sempre tive grandes amigos e grandes inimigos!!!
Nos anos 70, aqui no Rio, o must era o Teatro Tereza Rachel, era lá onde se apresentava as grandes atrações como Mutantes, Terço, Secos e Molhados, Caetano Veloso, Gal Costa... Também havia, na mesma galeria, o Teatro Opinião, onde se apresentavam os artistas alternativos. Fizemos algumas apresentações lá, em 1979, mas quem fazia grande sucesso era o Jorge Mautner, sempre acompanhado por Nelson Jacobina e seu violino maldito! O Opinião era um teatro de arena e quando o show esquentava o público ficava dançando junto com a banda. Sempre gostei dos palcos italianos, mas lá eu aprendi gostar das arenas! Em 1981 começamos a tocar no Western. A casa estava mal das pernas, mas quando nós tocávamos ela sempre enchia e aos poucos eu consegui transformar uma casa estilo Saloon em uma casa de rock. Por lá passaram grande parte das bandas de rock dos anos 80! Ao mesmo tempo, junto com o Barão Vermelho, estreamos o Circo Voador no Arpoador! Em 1982, o Circo foi pra Lapa, onde está até hoje!

B.C: Quais livros costuma ler? 

D.C: O que mais costumo ler são manuais de equipamentos. Não falo inglês, mas se for um manual de equipamento eu vejo o texto em inglês e leio traduzindo para o português direto!

B.C: A banda ainda está em atividade? Como está a agenda de shows? 

D.C: Quando eu saio na noite sempre me chamam para dar uma canja, mas me apresento raramente com o meu projeto, que é o Sangue da Cidade. Quando não estamos na mídia não vale à pena fazer um show porque as condições não são boas. Não tenho mais vinte anos e, como não temos uma boa estrutura, eu prefiro ficar em casa curtindo meu estúdio!

B.C: Fique à vontade para deixar uma mensagem aos leitores do blog, indicar livros, falar sobre a banda...

D.C: Eu criei um site para o Sangue da Cidade, tem as músicas, os vídeos e as letras. Deem uma olhada: http://sanguedacidade.com.br/
Agradeço a todos que apoiam nosso projeto e um agradecimento especial a você Bruno de Carvalho Trindade! Obrigado pelo convite e pela oportunidade!

Logo da banda

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