segunda-feira, maio 02, 2016

Coluna: Música e Livros, por Bruno de Carvalho

Música e Livros é uma coluna escrita por Bruno Carvalho, ex-aluno de Biblioteconomia da FESPSP, que fala a respeito de bandas e o que elas leem, mostrando como música e livros tem tudo a ver!

Nos anos 80, Virginie Boutaud foi a queridinha do Brasil. Vocalista da Metrô, banda que emplacou sucessos como “Beat Acelerado”, “Tudo Pode Mudar” e “Ti Ti Ti”, também conta uma passagem pela banda Fruto Proibido.

Banda Metrô, nos anos 1980.

1) Quando você decidiu seguir a carreira musical? Com quantos anos veio para o Brasil?
Foi acontecendo, sabe? Eu nasci em São Paulo, poucos meses depois de meus pais franceses terem chegado do Marrocos, aonde moravam, com minha irmã e meu irmão pequenininhos. Sempre adoramos cantar e brincar de fazer shows. Minha mãe, Line, cantava muito bem e bastante, dançava, o toca discos era o coração da casa. Era uma linguagem e um lazer compartido. A TV chegou em casa com seus festivais, Tony Tornado, Maria Alcina e Jackson Five. Aprendi uns acordes de violão com amiguinhas, e assim foi indo. Adolescente, entrei na A Gota Suspensa, grupo mutante de onde saiu o núcleo que viria a ser o Metrô. Aos poucos, a força das filipetas e os shows em que íamos em 4 mais a bateria dentro de um Gordini foram nos popularizando e o que era apenas lazer se tornou um trabalho a tempo integral.

2) Na época da banda Metro, para escrever as canções vocês se inspiravam livros? Quais?
O Nome a Gota Suspensa foi inspirado de pintura, Salvador Dali. Melodix com certeza é uma citação da Gaule de Astérix! Tavinho Paes, autor da letra de Sândalo de Dândi é poeta, perguntei a ele, e aí está sua resposta: o Sândalo foi por conta de um incenso . E o Dândi tem a ver com os personagens do Spleen de Paris, de Charles Baudelaire. Toda a letra foi inspirada em partes deste clássico. É a montagem de um personagem que vai aprendendo com a vida.

3) Tem alguma música sua que fala de algum livro? Ou alguma música que tem trecho de livros?
Muito provavelmente de forma indireta, nas marcas que livros lidos deixam. Porém eu penso mais em pessoas e vivências quando escrevo textos ou pinta uma melodia. O dicionário é um parceiro que abre perspectivas e me ajuda a encontrar palavras mais precisas. Em Déjà vu, com Metrô, que saiu em 2002, gravamos a linda Mensagem de amor de Herbert Viana, nela os livros na estante já não têm mais, tanta importância, do muito que eu li, do pouco que eu sei, nada me resta, a não ser a vontade de te encontrar.

4) Como era o convívio com as bandas nos anos 80?
Antes do grande boom íamos bastante ver shows entre nós, curiosos, apoiando uns aos outros. O Tecladista da Blitz, Billy, foi nosso padrinho no Rio, nos apresentando pessoas importantes da indústria da música. Me lembro da emoção e timidez ao ir assistir a um ensaio deles em um estúdio maravilhoso (acho que era Odeon). Nos ainda ensaiávamos em lugares meio improvisados na casa de um ou de outro. São Paulo tinha muitos lugares legais para tocar para um público que adorava dançar, vestia a camisa e as cores da estética proposta por bandas de linguagens muito variadas, era divertido, tínhamos tempo. Depois, com o sucesso e as viagens, pegamos muita estrada com Radio Taxi, pois tínhamos o mesmo empresário durante uma época. Encontrávamos com as bandas mais em bastidores de TV, ou hotéis pelo Brasil, mas ai já não tínhamos muito tempo e eu pessoalmente procurava descansar mais quando podia. Eu gostava de encontrar Leo Jaime, Tavinho Paes e Joe também no Rio.

5) Quais livros costuma ler?
Gosto de livros que ensinam coisas da vida, biografias de pessoas que foram atrás de seus sonhos e convicções, livros de poesia, livros de letras, um ou outro romance. Às vezes me imponho leituras mais difíceis, como um desafio para tentar fazer crescer o cocuruto. Existem muitas bibliotecas incríveis por aqui, cheias de tentações das mais diversas. Ao chegar na França e em Saint Orens, procurei ler sobre a história dos lugares aonde nasceram meus pais, sobre os Pyreneus e suas belezas, sobre cidades, regiões, populações, costumes, culinária, arte, para ver aonde me encaixo neste espaço tempo, para compreender melhor valores e códigos. Estou lendo um que resume a história da música e seus instrumentos na historia da humanidade, belas viagens. Como se falam em instrumentos e sons dá vontade de procurar em internet e nas bibliotecas sonoras que existem. Leio livros sobre meditação procurando técnicas para ter bastante paz e coragem, do in, culinária para encontrar dicas. Nas escolas, no tempo livre, degusto livros maravilhosos sobre arte e vida animal, álbuns para crianças, com ilustrações incríveis, dicionários. Gosto também de estórias em quadrinhos bem-humoradas e álbuns de tiras como Le chat de Philippe Geluck. Livros de arte, de fotos... Me identifiquei com Sting que disse em uma entrevista que lê até bula de remédio. Gostaria de dedicar mais tempo à leitura.

6) Como está a expectativa para essa volta da banda? Planos futuros…
Estamos preparando com a Sony o lançamento da edição comemorativa dos trinta anos de Olhar que deve sair em breve. Ele será o fruto de um garimpo intenso nos baús e containers. Será um álbum duplo com gravações inéditas, fotos, remix … Acho que vai fazer a festa das pessoas que nos seguem e nos incentivam nesta volta. Em todo caso vai fazer nossa alegria! A ideia é o Metrô sair dando voltas tocando, festejando e criando. Estamos os cinco juntos de novo, com saúde e ideias e muita vontade de seguir o fluxo do tempo. Vamos nos divertir de novo com nosso público e, espero, com cada vez mais parceiros.

7) E a banda na época do Lycée Pasteur como era? Chegaram a tocar lá?
Nos encontrávamos nos fins de semana, e tocávamos, tocávamos e tocávamos mais e mais antes de assaltar as geladeiras. Os ensaios eram na casa de um ou outro, principalmente as mais próximas da escola, até que os pais pedissem arrego e fossemos para outro lado. Não chegamos a tocar no Lycée, na época, pois não havia realmente espaço para bandas. Em compensação tocamos no Graded, no St Pauls, no Objetivo, escolas mais abertas à expressão musical e expressão dos jovens, de maneira geral.

8) Fique à vontade para deixar uma mensagem aos leitores do blog, indicar livros, falar sobre a banda, etc...
Opa, bem obrigada pelo convite, e parabéns pela ideia e investimento pessoal em promover a leitura. Adorei ler as outras entrevistas, sempre apetece saber de que leitores se deliciaram.
Bem sei que é redundância, pois quem está lendo esta entrevista neste blog provavelmente é leitor, porém, fica meu desejo que a leitura continue proporcionando belas viagens e descobertas a cada vez mais pessoas. Espero que bibliotecas e pontos de acesso se multipliquem na proporção que as dificuldades de leitura recuem graças a melhores condições gerais de educação. Livros físicos são bons de se pegar, apesar da concorrência de internet e suas mensagens capsulas. Aliás, isto me lembra como me fascinava uma biblioteca que existia na Sena Madureira, na Vila Mariana, bairro de minha infância e que oferecia livros em braile.
Aliás me fascina até hoje isto de ler com a ponta dos dedos, e que tudo se passe na imaginação de quem talvez nunca tenha enxergado. Aqui na França, desde as classes de maternal as crianças já são muito incentivadas a ler e têm sempre livros acessíveis. Acho genial que existam e se vulgarizem livros lidos em voz alta, para quem não consegue ler. A escolha é imensa na net e em vários suportes, aliás isto é uma coisa que eu gostaria de fazer um dia, pois adoro ler em voz alta.
Entre os livros que me marcaram muito está o Pequeno Príncipe, meu lado Miss. Falando sério, é lindo e poético o Pequeno Príncipe de Saint Exupéry, esta ideia , esta criança, essas aquarelas. Tai uma biografia que deve ser interessante de se ler vou procurar. Adolescente fui chocada por livros como Germinal, de Zola, Le hussard sur le toit, de Giono, os livros de Pagnol. Les animaux dénaturés de Vercors, não sei se já foi traduzido para o português, que é um imenso questionamento sobre o que seria ser humano, misturando ciências, filosofia, direito... Mais recentemente viajei e aprendi muito com livros de um magnifico homem falecido em dezembro de 2015, Jean-Marie Pelt. Ele era biólogo, botanista e ecólogo, presidente do instituto europeu de biologia e seus livros me ensinaram de maneira agradável muito sobre a interação de todos os ecossistemas, a importância crucial da biodiversidade e o lugar da humanidade neste planeta. Adoro reler os Asterix, reencontrando com meus olhos de habitante local agora que moro em Toulouse, características tão bem sacadas dos gauleses. Peynet, e seus desenhos poéticos ensinando a amar outras características dos mesmos gauleses. Os livros de Quino, tão agudos e humanos. Do Brasil, entre os livros que me comoveram e marcaram estão Vidas secas, o obrigatório apreciado de Graciliano Ramos, e Capitães da Areia, de Jorge Amado. Leio regularmente com prazer trechos do livro Brasil uma história, de Eduardo Bueno, que Dany me deu para meus 40 anos, quando veio ao Moçambique.


Banda Metrô atualmente.

Bem para ter notícias nossas vocês poderão ir nos faces  Metrô e Virginie Boutaud Metrô. Nosso email de contato é grupo.metro.contato@gmail.com

Um comentário: