terça-feira, novembro 01, 2016

Coluna: Admiráveis Bibliotecas Comunitárias: o senso-crítico dos lideres comunitários

Biblioteca Comunitária Milton José Assumpção – Setembro/2016.

por Sidnei Rodrigues de Andrade.

Saudações, Profissionais da Informação!

Mais uma vez quero agradecer por todos vocês que estão lendo essa coluna sobre Biblioteca Comunitária, a reportagem desta vez, sobre uma unidade de informação social que está localizada na Zona Leste da Cidade de São Paulo, Biblioteca Comunitária Milton José Assumpção do Instituto Pombas Urbanas no bairro da Cidade Tiradentes, fiz uma visita presencial no dia 10 de Setembro, Sábado às 15h00, para conversar com os principais responsáveis pela biblioteca.

  Só para não perder o hábito, as perguntas que estão em fonte azul são aquelas perguntas-temáticas que havia anunciado na apresentação dessa série de reportagem. As respostas que estão [ ] entre colchetes são interpretações que escrevi e parafraseei das reflexões e do senso-crítico dos articuladores e gestores da biblioteca comunitária nesta entrevista.

1-) O que é a Biblioteca Comunitária Milton José Assumpção?

[A Biblioteca Comunitária Milton José Assumpção é um grande sonho que está sendo realizado, porque sua idealização parte do desejo da comunidade aliada ao Instituto Pombas Urbanas em construir um espaço de busca pelo conhecimento de forma humana e afetiva.
O desenvolvimento do acervo foi feito pela própria comunidade, o grupo teatral parceiros e colaboradores ativos. Temos cadastrado aproximadamente 3.000 usuários-leitores e nosso acervo é composto por 10.200 livros. O segredo dessa Biblioteca Comunitária é a participação da comunidade, onde compartilhamos aprendizado, conscientização e flexibilidade num ato de cooperação entre todos nós]. (Figura 1)

Figura 1 .Fonte:  Blog Biblioteca Comunitária Milton José Assumpção.

2-) Contextualize esta Biblioteca Comunitária?

[A Biblioteca foi criada pelo Instituto Pombas Urbanas que desde 2004 atua em Cidade Tiradentes no galpão onde anteriormente era um supermercado da região, que ficou abandonado por quase uma década e onde o instituto iniciou um intenso processo de revitalização física e formação de público.
A partir do contato com a comunidade, dezenas de crianças e jovens começaram a participar e acompanhar a nossa proposta de ação. Os pais das crianças e jovens em sua maioria trabalhavam no centro da Cidade de São Paulo, por isso houve uma enorme procura pelo galpão. (Figura 2)

Figura 2. Fonte: Google. 

Observando este cenário, onde oferecíamos oficinas de teatro e circo para as crianças e os jovens, percebemos havia dificuldades de aprendizagem de leitura e escrita.
Vários parceiros e colaboradores começaram a trazer suas “bibliotecas particulares” para nossa instituição, fazendo doações para que as crianças e os jovens tivessem um espaço e o hábito da leitura. O resultado dessa excelente iniciativa foi surpreendente, em poucos meses estava implantada a nossa biblioteca comunitária no bairro da Cidade Tiradentes. Foram tantas doações que as prateleiras improvisadas não agüentavam o peso do desenvolvimento do acervo.
Em 2006, os colaboradores responsáveis do Instituto Pombas Urbanas ganharam um edital cultural PROAC (Incentivo à Leitura da Secretaria de Estado da Cultura São Paulo) para melhoria do desenvolvimento da biblioteca comunitária, que até então não tinha um nome oficial, e em sua inauguração oficial em Abril/2007 é chamada: Biblioteca Comunitária Milton José Assumpção. Seu Milton (1927-2011) era morador do bairro Cidade Tiradentes. Foi dos uns percussores em artes cênicas na comunidade: ator, palhaço, ponto teatral e escreveu inúmeras peças teatrais que estão em nosso acervo da biblioteca comunitária. Foi nosso primeiro vizinho, parceiro e amigo do Instituto Pombas Urbanas, quando chamamos Seu Milton para ver pessoalmente a inauguração da biblioteca ficou muito feliz e realizado, além de fazer uma grande doação de livros do seu acervo pessoal. Sempre dizia que  (Figura 3): “Num lugar onde há cultura, não há espaço para a violência”].

Figura 3. Fonte: Blog Biblioteca Comunitária Milton José Assumpção.

3-) Quais foram as maiores dificuldades da Biblioteca Comunitária Milton José Assumpção?

[Umas das maiores dificuldades que passamos é a financeira. A primeira parte do desenvolvimento do acervo na parte guarda dos livros, ficavam em armário de guarda roupa, com a aprovação dos editais culturais, conseguimos melhorar essa biblioteca comunitária. Atualmente temos 22 estantes que contém 10 mil livros que têm a Classificação Decimal Dewey [CDD] estão divido em subcategorias (000 à 900).
O empréstimo de livros era feito por um livro em atas e atendimento por telefone, todos os colaboradores do Instituto Pombas Urbanas foram treinados pelo atendimento da biblioteca. Instalamos um software livre PHL 8.1 para melhorar a localização dos livros, isso é feito para ambiente interno da instituição cultural, já os leitores conseguem ter acesso ao acervo e localizar os livros por meio da etiqueta colorida.  A comunidade tem tanta confiança em todos nós que sempre entregam os livros em prazo estabelecido, isso é chamado de afeiçoamento de dois conceitos: afeto e conscientização]. (Figura 4)

Figura 4. Fonte: Blog Biblioteca Comunitária Milton José Assumpção.

4-) Como está a educação continuada dos gestores da Biblioteca Comunitária?

[Cleidionéia Oliveira (Figura 5), moradora do bairro e uma das responsáveis por nossa biblioteca comunitária já participou do evento: Teia Nacional da Diversidade na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, idealizado pelo SNBP (Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas).
Em 2015 fomos convidados para participar do VIII Encuentro de Bibliotecas “Bibliotecas Conectando Bibliotecas” em Medellín, Colômbia, compartilhamos a importância sobre “o que é cultura viva?”
Não podemos ficar apenas dependente dos editais culturais, nossa maior preocupação é o desenvolvimento dos seres humanos por que este é o bem mais precioso que fortalece nosso trabalho. Também estamos aprendendo a linguagem de sinais: Libras para atender essa demanda inclusiva social].


Figura 5. Fonte: Blog da Biblioteca Comunitária Milton José Assumpção.

5-) Qual é a observação dos lideres comunitários sobre a Biblioteconomia (Biblioteca Escolar, Biblioteca Pública e a Biblioteca Comunitária) na Sociedade Brasileira Contemporânea?

[A unidade de informação escolar a percepção que temos é que o atendimento muitas vezes é frio não suprindo a necessidade de informação dos alunos.  Percebemos que aos poucos essa realidade vem se transformando a partir de projetos de incentivo a leitura desenvolvidos por educadores interessados em romper essas barreiras. A ETEC da Cidade Tiradentes que foi inaugurada há algum tempo, não tinha um Bibliotecário responsável, mais tarde contrataram o Bibliotecário Paulo Ricardo que foi também um importante parceiro e colaborador no desenvolvimento do acervo da nossa biblioteca.
Em relação às bibliotecas públicas, uma biblioteca da zona norte chamou nossa atenção,  com  um grande acervo de livros em braile. Algumas unidades de informação pública que estão espalhadas pela Cidade de São Paulo. A sensação que temos como usuário-leitor, é que ainda não há uma humanização do atendimento que muitas vezes ainda se trava em burocracias para garantir a segurança do acervo sendo que o que realmente precisamos é de mais trabalhos de conscientização e incentivo.
Uma das primeiras bibliotecas comunitárias que conhecemos ficava no bairro de bairro de São Miguel Paulista, em outra instituição social.  Isto é um ganho ao bem comum, para quaisquer comunidades sempre é bem-vinda. Algumas instituições escolares não têm essa unidade de informação escolar em seu ambiente ou muitas vezes ainda depende apenas dos parceiros-voluntários para continuar a gestão-cultural da biblioteca. Todos usuários-leitores fazem pesquisa, têm opção de lazer e convivência. Não há um “fantasma” que impede ou limita o acesso ao conhecimento, muito pelo contrário estamos sempre aproximados do cidadão. Isso é uma resposta objetiva para os representantes da política brasileira contemporânea, estamos ouvindo as vozes da necessidade informacional da nossa comunidade local].

6-) Qual é a sua “imagem” que vocês têm do Bibliotecário?

[A observação é que muitas vezes de alguns “profissionais da informação” tem uma relação fria com as necessidades informacionais do usuário-leitor. Sabemos que isso não culpa desse profissional da informação [Bibliotecário, Arquivista e Museólogo] são reféns e escravos do sistema do Estado. Não há liberdade de pensamento e expressão com sua demanda, sua percepção e as atitudes ficam presas nas correntes do conservadorismo e alienação econômica e social.
Quando vamos visitar uma biblioteca pública, somos punidos pela multa, isso é uma forma de “afastar” as pessoas que não conhecem essa unidade de informação. Ao mesmo tempo, existem profissionais que criam formas de “driblar” as burocracias deste sistema. Citamos mais uma vez o Bibliotecário Paulo Ricardo que foi nosso parceiro, colaborador-voluntário temos muita admiração e respeito pelos trabalhos que vem desenvolvendo em bibliotecas públicas onde aplica jogos para incentivar o acesso a informação.
A Bibliotecária Charlene da Galeria Olido têm uma visão humana da comunidade, entende qual é a necessidade informacional das demandas. Sempre importante e fundamental que os profissionais da informação que não estejam engessados fazendo seu papel social para sua demanda local].

7-) Como está a Educação no Brasil neste Século XXI?

[A Educação no Brasil, principalmente nos níveis fundamentais ainda sofre indiretamente uma negligência do Estado. Os alunos são aprovados sem absorver conhecimentos básicos, este processo de aprendizagem é um atraso para toda sociedade. Precisamos pensar em caminhos que compreendam o aprendizado de forma integral, considerando a formação de valores e de um pensamento crítico].

Figura 6. Fonte: Google

8-) O que os líderes da Biblioteca Comunitária pensam sobre o futuro das crianças e os jovens no Brasil?

[Acreditamos que este momento é crucial para lutarmos contra o retrocesso dos nossos direitos e construirmos uma sociedade mais justa. Esta construção deve ter entre suas principais bandeiras de engajamento: EDUCAÇÃO.
É fundamental a participação e dedicação neste processo. O avanço é possível pois temos um cenário de gente que acredita e se mobiliza para fazer a transformação. Sabemos que será um processo árduo onde é necessário se posicionar por reformas políticas e pela desconstrução dos monopólios de comunicação].

Mais informações, acessem estes links:


Descobrir essa espetacular biblioteca comunitária por indicação de uma grande parceira e amiga que foi a Monitoria Científica FaBCI – FESPSP em 2015: Isabel Figueiredo.  Não poderia deixar mencionar e agradecer os principais colaboradores pelo Instituto Pombas Urbanas e a Biblioteca Comunitária: Cleidionéia Oliveira, Marcos Caju e Cinthia - Assessora de Comunicação do Instituto Pombas Urbanas por compartilhar suas histórias de vida e grato por realizar esta entrevista sensacional.  Se vocês souberam de alguma Biblioteca Comunitária que vocês conhecem, compartilhem comigo, enviem para este endereço de e-mail: sidsapiens@hotmail.com.  Esta série de reportagem continua em 2017, com mais Bibliotecas Comunitárias para visitar, quero agradecer mais por vocês, lerem essas unidades de informação social que fazem a diferença neste contexto contemporâneo, abraços e muito obrigado.

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