quinta-feira, agosto 17, 2017

Coluna: Música e Livros. Por Bruno de Carvalho.


Confiram mais uma matéria da coluna: Música e Livros, em que o ex-aluno e monitor voluntário Bruno de Carvalho traz a entrevista com o vocalista João Vicente da Banda 5 Generais de Brasília, nessa coluna que mescla a relação das bandas de rock com o universo dos livros.


João ( vocalista) e Mozart ( baixista)


1) Quando você decidiu ser músico? Tocou em outras bandas antes do 5 Generais? Porque se mudou para Brasília? 
Nasci com a revolução, em 1964 (por isso meu nome, homenagem ao filho de Jango). Vim pra Brasília em 1969.  Filho de funcionário do Ministério da Fazenda e neto do inspetor de saúde do Aeroporto de Brasília desde sua inauguração, acabamos nos mudando definitivamente em 1969. Me considero candango, apesar de nascido no Rio.
Nunca pensei em ser músico. Trabalhava no Serpro quando um rapaz entrou no meu setor. Era o Marco, um dos produtores do histórico teatro Rolla Pedra, onde Plebe e Legião deram seus primeiros passos. Ele tinha recém dissolvido sua banda Espaçonave Guerrilha e estava montando outra e me chamou, sabe-se lá porque, para cantar nela. Aceitei o desafio e montamos a banda em 1985.
  
2) De onde veio a ideia do nome da banda , 5 Generais? 
Já ensaiávamos com músicas herdadas do Espaçonave Guerrilha, mudando bastante o arranjo, para algo menos punk.
O nome é uma referência aos 5 Generais da ditadura militar.  Eu havia sido preso (no grupo que ficou conhecido como os "últimos presos da ditadura"), na época da luta pelas Diretas Já. Iniciamos como uma banda punk/New Wave.. mas aos poucos fomos migrando para uma coisa mais lenta, filosófica, não voltada para o momento político, mas para os problemas e alegrias existenciais de um jovem da década de 1980. 

3) Qual a influência literária nas letras da banda 5 Generais? Quando a banda começou?
No começo, eu não escrevia nada. As letras eram punks mesmo, sem referências, a não ser na vontade de protestar contra tudo. Letras como "Levante da cadeira e desligue este botão" ou "Andando pelas ruas da cidade como que procurando uma identidade" eram baseadas mais no movimento punk e na cidade de Brasília, ampla, sem nada para fazer, cidade ainda pequena. Com a mudança de postura da banda, buscávamos um som mais gótico, influenciado por bandas como Cure e Siouxsie e em músicos clássicos como Bach e Albinoni. As letras passaram a refletir essa busca por problemas existenciais da juventude local, tristeza, solidão, brigas com as namoradas, mágoas. Comecei também a escrever letras como as de Pássaros Negros (que fala da juventude que se vestia de preto e frequentava o famoso centro comercial Gilbertinho, em Brasília. Povo de bandas, de teatro, fotógrafos, cineastas, ...) ou A Última Gota (sobre ejaculação precoce: "e não chega até você a minha última gota") ou Ouça-me, uma crítica a deus.
Tínhamos alguns colaboradores letristas que nos emprestavam suas letras que tinham tema similar. Bernardo Mueller (Escola de Escândalo) nos presenteou com Nas Linhas ("cada linha do teu rosto conta uma história triste") e Paulo Kauim, poeta da cidade com Naufrágio. A banda fez seu primeiro show no final de 1985. Eu fiquei nela até 1987, mas a banda durou ainda mais uns 10 meses com outro vocalista.

4) Há uma música sua que fala de algum livro? Ou alguma música que tem trecho de livros?
Eu era viciado em livros. Ainda sou. Muitos me influenciaram como pessoa, especialmente os autores latino americanos, notadamente Gabriel Garcia Marques, Eduardo Galeano e Vargas Llosa. Mas um autor que marcou demais essa nossa mudança de rumo foi Caio Fernando Abreu. Após ler Morangos Mofados e especialmente Triângulo das Águas tomei a decisão de passar a ser o letrista da banda. Se você visse meu livro Triângulo das Águas, veria dezenas de frases sublinhadas, uma grande inspiração. Seguramente copiei algum trecho em alguma música, mas não vou conseguir lembrar agora qual trecho.
Paulo Kauim, letrista de Naufrágio, dizia que lia muito Rimbaud, Baudelaire e Poe quando escreveu essa letra. 

5) Como era o seu convívio com o pessoal das outras bandas de Brasília nos anos 80? (Capital Inicial, Plebe Rude e Legião Urbana), Renato Russo, Dinho Ouro Preto, etc..., viu shows dessas bandas? Do Aborto Elétrico e Blitx 64 também?
Eu já sou da segunda geração desse rock pós punk de Brasília. Frequentava shows de longe, tímido que era. Ao entrar pra banda 5 Generais, passei a fazer parte dessa turma, mas Legião, Plebe e Capital já estavam fora de Brasília gravando. Assisti ainda a alguns shows pequenos dessas bandas antes do boom delas. Mas as bandas que a gente compartilhava shows eram já dessa segunda geração ou bandas que não haviam saído de Brasília: Finis Africae, Escola de Escândalo, Detrito Federal, Elite Sofisticada, Falange do Medo ou Arte no Escuro, da Marielle Loyola que gravou comigo Outro Trago, maior sucesso dos 5 Generais, para o disco Rumores 2.

6) Quais as melhores lembranças dessa época? 
Só tenho "melhores" lembranças dessa época. Os amigos, as meninas lindas de cabelinhos curtos, os encontros semanais no Gilbertinho e no Rádio Center (edifício onde a maioria das bandas ensaiavam) e os bate papos que viravam a noite com gente que guardo enorme respeito. A busca por conhecimento, especialmente de bandas inglesas (lembrem que não existia internet e qualquer informação levava meses para chegar, e quando chegava algo, corríamos para compartilhar em fitas K7 ou mostrando revistas importadas por alguém que chegara da Europa).
Além disso, há que se lembrar de que vivíamos o final do regime ditatorial e, não dá pra esquecer de citar as lutas em campo aberto contra a cavalaria e bombas do general Newton Cruz. Fiquei um dia preso na UnB encurralado dentro do restaurante universitário e depois preso na Polícia Federal por "buzinar o carro em frente usando adesivo do PT no peito". Coisas impensáveis hoje em dia. 

7- Ainda toca em banda atualmente? 
Depois que saí da banda, comecei uma longa carreira amadora de dj. Recentemente, com esses revivals dos anos 80, surgiram muitos convites para shows e cantei duas vezes com o 5 Generais e uma com o Escola de Escândalo em 2016. Entre 2005 e 2007 fui vocalista também de duas divertidíssimas bandas que faziam covers dos anos 80 (Banda Oitenta) e dos anos 90 (Tecnotronicos). Tocávamos em casas noturnas da cidade. 

8- Deixe uma mensagem, para os leitores do blog, fale o que quiser...
Bom, basicamente agradeço pelo convite de relembrar um pouco da época de ouro do rock de Brasília. Comento que, se querem conhecer mais da cidade e da noite, festas, casas de shows, bandas e djs da cidade, entrem no grupo que administro no Facebook: facebook.com/groups/bsbnight/
Quanto à leitura, tenho há vários anos me dedicado a livros históricos ou biográficos. A vida real tem histórias geniais e o Brasil produziu grandes biógrafos como Fernando Moraes ou Ruy Castro. Agora vou tomar um tempo para ler todo este blog que tem também histórias deliciosas sobre o rock no Brasil. Obrigado. 



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