sexta-feira, setembro 15, 2017

Coluna - Admiráveis Bibliotecas Comunitárias: o senso-crítico dos líderes comunitários. Por Sidnei Rodrigues de Andrade.



Biblioteca Comunitária BECEI Paraisópolis – Abril/2017 (*)

Saudações, Profissionais da Informação!

E aqui está mais uma Biblioteca Comunitária, vamos conhecer e aprender sobre esta Unidade de Informação Social que faz a diferença neste contexto contemporâneo.
A segunda reportagem deste ano é sobre uma Unidade de Informação Social que é muito conhecida no bairro do Morumbi e Paraisópolis na Zona Sul da Cidade de São Paulo: Biblioteca Comunitária BECEI Paraisópolis.  Fiz a visita presencial no dia 22 de Abril (Dia do Descobrimento do Brasil, há muitos assuntos que devemos relembrar e refletir sobre esta data comemorativa) – Sábado às 13h00, para conversar com seus principais articuladores e gestores.

Para àqueles que não conheciam esta coluna, a entrevista contém perguntas-temáticas e as respostas com as interpretações parafraseadas pelo autor da coluna, com base nas reflexões e senso-crítico dos articuladores e gestores da biblioteca comunitária visitada.
Segue a entrevista feita com o gestor e fundador da Biblioteca Comunitária BECEI Paraisópolis Alle Cabral:


1-) O que é a Biblioteca Comunitária BECEI Paraisópolis?

É uma instituição sem fins lucrativos com característica social que foi transformada em um ponto de cultura na comunidade. O significado da sigla BECEI é Biblioteca, Crescimento, Educação, Infantil. Somos um grupo de representantes da comunidade, cuja maior preocupação é compartilhar nossa experiência educacional e emocional. 

 

Biblioteca Comunitária BECEI Paraisópolis.


2-) Contextualize esta Biblioteca Comunitária?

Sou morador da comunidade e sempre gostei de ler, percebi que não havia nenhuma biblioteca no bairro, então em 3 de Setembro de 1995 tive a iniciativa de implantar uma Biblioteca Comunitária. A primeira parte desta Unidade de Informação Social foi em minha casa, com um acervo de 15 livros num espaço de 16 m quadrados, o que era muito pequeno. A partir deste ato de compartilhar conhecimento, apareceram 30 pessoas da comunidade para se utilizarem dos livros.
O primeiro nome desta Biblioteca Comunitária foi: Biblioteca Escola, Crescimento, Educação e Infantil.


Biblioteca Comunitária BECEI Paraisópolis.

Minha mãe trabalha como empregada doméstica e sua patroa leciona em algumas escolas. Ganhei um carimbo da minha mãe, por meio de sua patroa, e neste carimbo continha as iniciais BECEI, então batizamos a biblioteca de Biblioteca Comunitária BECEI de Paraisópolis.  


A comunidade se interessou por nossa iniciativa de compartilhar livros, e então algumas pessoas tiveram a atitude de doar livros também. Com 1 ano de funcionamento, chegamos a ter 300 livros aproximadamente e alcançamos o reconhecimento através do jornal O Estado de São Paulo na coluna Zap, com a divulgação da reportagem sobre uma biblioteca em favela na cidade de São Paulo.

A jornalista-repórter observou que era um local muito simples e humilde, mas admirou a organização dos livros nas estantes.
 

Biblioteca Comunitária BECEI Paraisópolis.


 Em 1996, esta reportagem foi divulgada para toda a sociedade civil brasileira e chamou à atenção da emissora de televisão SBT em seu programa jornalístico, apresentado pelo jornalista Boris Casoy, que fez uma entrevista comigo.


A partir desta matéria que foi vinculada pelos meios de comunicação tendo a intervenção da televisão, outras emissoras (até internacionais), vieram falar comigo sobre a biblioteca comunitária, por exemplo, para saber como é uma biblioteca comunitária em uma favela. A primeira emissora de televisão internacional foi a CNN e queriam saber sobre esta atitude social e educacional, nesta oportunidade ganhamos nosso primeiro prêmio de reconhecimento pela Fundação Nestlé por incentivo à leitura, fomos ao Rio de Janeiro para recebê-lo na Fundação Biblioteca Nacional.

O acervo da biblioteca estava em desenvolvimento num espaço de 16 m quadrados, para realizar os empréstimos dos livros, tínhamos apenas uma máquina de escrever, sendo assim, precisávamos de equipamentos mais modernos para melhorar o atendimento à comunidade. Apareceu entre os freqüentadores da biblioteca comunitária, uma senhora representante de uma instituição de comunicação, não quis se identificar e apresentou-se apenas pelo primeiro nome e disse que queria conhecer nossa biblioteca. Perguntou-me o que estava precisando naquele momento, e eu lhe disse que necessitava de dois microcomputadores, pelo nosso diálogo e sua observação das estantes de livros, doou os dois computadores e ainda uma quantia financeira. 

Alguns indivíduos da periferia têm um preconceito em aceitar ajuda das pessoas, por que não houve uma formação educacional e afetiva totalmente sólida, isso faz muita falta em algumas famílias brasileiras na contemporaneidade

Todas as emissoras de televisão sabiam desta biblioteca comunitária, apenas uma renomada na sociedade civil brasileira, não tinha conhecimento sobre este trabalho.

Também surgiram grandes personalidades da Literatura Brasileira, por exemplo, Gilberto Dimenstein e Ignácio de Loyola Brandão que visitaram nossa biblioteca. Ignácio escreveu um texto em homenagem à biblioteca e Gilberto ficou emocionado em ver uma criança lendo seu livro naquele local. Fomos premiados com 18 troféus de reconhecimento por esta atitude de incentivo à leitura por várias ONGs e Instituições Culturais do Brasil e Internacionais. 


Fonte: Banco de Imagens do Google.


 Em 1997, o gestor municipal da época me convidou para um jantar e na conversa, perguntou se aceitava mudar a nossa biblioteca comunitária de local, disse naquele momento que não, preferia ficar com minha comunidade. Alguns representantes da política brasileira não gostam de pobre por que quando temos acesso à educação e ao conhecimento, temos uma percepção diferente sobre o que estão fazendo realmente por todos nós.


Algumas escolas particulares do bairro vieram conhecer a biblioteca, o objetivo desta visita era unir as crianças bem financeiramente com outras crianças menos favorecidas, por meio do hábito da leitura. Em um determinado momento, por problemas financeiros, teríamos que fechar a biblioteca comunitária, entretanto os representantes das instituições escolares privadas através das crianças fizeram uma campanha de arrecadação, a chamada“vaquinha”.

Em 1998, passamos novamente por dificuldades financeiras, mas tivemos ajuda de pessoas que admiravam muito este trabalho de incentivo à leitura e a educação. Fizemos uma festa de reinauguração e como a mídia brasileira sempre acompanhou nosso trabalho, somos conhecidos por todos da sociedade.


3-) Quais foram as maiores dificuldades da Biblioteca Comunitária BECEI Paraisópolis?

Considero como a mais difícil aquela que todas as instituições e organizações brasileiras e mundiais enfrentam todos os dias, que é a financeira. Chegamos a uma época que não tínhamos condições para continuar a gestão-administrativa da biblioteca comunitária. As dívidas foram aumentando, pensei várias vezes em fechar completamente. Fiz então uma campanha de divulgação no Facebook para arrecadar fundos, e por meio deste simples ato, em pouco tempo foram surgindo pessoas com doações. 

Em 2013, participei de um programa de televisão que tinha um quadro que realizava os sonhos das pessoas, nesta oportunidade uma grande empreendedora social assistiu e soube da campanha no Facebook, a Lucia Helena Trajano, proprietária do Magazine Luiza, que nos ajudou muito com a infraestrutura da biblioteca.

Fonte: Banco de Imagens Google.


Já em 2015, não tínhamos dinheiro em caixa, pensei novamente em fechamento, mas procurei algumas emissoras de televisão para fazer a campanha de divulgação da biblioteca, houve muita ajuda da sociedade civil ainda mais por conta da novela que estava sendo produzida aqui na comunidade.



4-) Como está a Educação Continuada dos gestores da Biblioteca Comunitária?

A Educação Continuada dos colaboradores está assim: Alle Cabral– Diretor-Fundador, graduando em Comunicação Social; Marcia Aguiar graduanda em Psicologia e Assessoria de Impressa; Marcio Aguiar – Diretor-Presidente do Instituto e graduando em Jornalismo; Marcelo Rodrigues Romão – Conselho Fiscal e Diretor; Bruno Antônio da Silva – Coordenador de Voluntários; Marta Silva – Contadora de Histórias e graduanda em Pedagogia; João Pedro Simpons – Auxiliar de Biblioteca e Estudante do Ensino Médio; Breno Sena – Auxiliar de Biblioteca e Estudante do Ensino Médio e Vinicius de Moraes – Colaborador Voluntário e Estudante do Ensino Médio.
  
Fonte Banco de Imagens do Google. Ale Cabral– Diretor-Fundador.


5-) Qual é a observação dos líderes comunitários sobre a Biblioteconomia (Biblioteca Escolar, Biblioteca Pública e a Biblioteca Comunitária) na Sociedade Brasileira Contemporânea?


Em algumas instituições escolares públicas há ausência de Bibliotecas Escolares e de bibliotecários, por que são apenas Salas de Leitura, que foge totalmente de sua característica de Unidades de Informação Escolares. Entretanto, as Instituições Escolares Privadas, têm excelentes Profissionais da Informação que trabalham em conjunto com todos os colaboradores, autores sociais e a comunidade, em prol de sua demanda social e educacional.

Já as Bibliotecas Públicas em parcela bem menor, observamos que há um grave problema de gestão-administrativa, isto é uma herança burocrática da contextualização social-econômico da sociedade civil. Porém, há outras Unidades de Informação Públicas que fazem um trabalho de disseminação seletiva dos itens informacionais, perfeito e espetacular.

A Biblioteca Comunitária tem um viés diferente, por exemplo, vamos mencionar duas: Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura e a Biblioteca Comunitária de Heliópolis, que vêm da comunidade local, há uma identificação com as histórias de vida dos moradores. Sempre há uma preocupação em planejar eventos culturais para as crianças e os jovens, no final do ano, por exemplo, realizamos um Café na Manhã de Natal.


 
Fonte: Banco de Imagens do Google.

Esta Unidade de Informação Social é um espaço de convivência humana e afetiva, onde qualquer usuário pode ter acesso à Educação e ao Conhecimento por meio da leitura. Isto é um cala boca aos representantes da política contemporânea brasileira. Sabemos que esta gestão não vai dar oportunidade ao povo, embora algumas livrarias importantes estivessem indo embora do Brasil, a pergunta que não quer calar: como fica a cultura desta nação?


A resposta aplicável para essa provocação cultural-educacional é esta: um interno da Fundação Casa por um incentivo da palestra que fiz, montou uma biblioteca em sua comunidade e conseguiu a aprovação da Lei Rouanet, e uma leitora da biblioteca comunitária sempre estudando aqui conosco, se formou pela USP em Letras.


6-) Qual a “imagem” que vocês têm do Bibliotecário?

Aqueles que não me conhecem muito bem pensam que sou um “Bibliotecário”, mas me considero um Bibliófilo. Participei de um evento organizado pelo empresário brasileiro Antônio Ermínio de Moraes e conheci pessoalmente um grande ser humano apaixonado pelos livros: José Mindlin (Figura 7) que fez questão de me cumprimentar por esta atitude.


 

Fonte: Banco de Imagens do Google.
  
Alguns “profissionais da informação” passam a imagem de que se encontram apenas atrás do balcão de atendimento. Talvez esta percepção ao longo do tempo, possa desaparecer por meio do acesso aos itens informacionais, todos os atores sociais e a comunidade, precisam se preocupar com a Educação deste país.

 
7-) Como está a Educação no Brasil neste Século XXI?

Não temos uma Educação Brasileira em construção orgânica para todos, por que os alunos que vão à escola estão mais preocupados em ter a presença, o corpo docente das instituições escolares públicas está totalmente desmotivado para lecionar e alguns têm uma excelente renumeração. A aprovação automática é um atraso para o desenvolvimento da comunidade em aspectos emocionais e sociais. Restam apenas as instituições escolares privadas que fazem um trabalho excelente de planejamento pedagógico para seus estudantes e comunidade.

As crianças e os jovens não têm hábito da pesquisa, desconhecem determinados conteúdos informacionais que possam ser a realização pessoal e profissional, sua maior preocupação é passar para o próximo ano letivo sem ao menos saber escrever e ler direito. Não há disciplina com horários e prazo de entrega de trabalhos escolares, por isso que não entram no competitivo Mercado de Trabalho. O “Assistencialismo” atrapalha muito o desenvolvimento desta sociedade civil, temos que ser pessoas engajadas e politizadas em prol de todos, sem um monopólio de ideologia em assuntos econômicos, culturais e educacionais.

A formação familiar brasileira está em fragmentos, em sua maioria por meio da liderança apenas das mulheres, que incentivam os seus filhos a estudar.
O indivíduo sempre tem o costume de colocar a culpa em alguém, não podemos esquecer que somos um povo acomodado demais, somos NÓS os culpados, por este sistema político e educacional está horrível para todos.
Este é o altíssimo preço que pagamos por uma formação educacional sem ter a importância humana e afetiva.


8-) O que os líderes da Biblioteca Comunitária pensam sobre o futuro das crianças e os jovens no Brasil?

Vamos continuar acolhendo cada vez mais a nossa comunidade, por que os jovens estão afastando-se do contexto educacional e social. A partir disso a juventude brasileira contemporânea está perdida, ou seja, não sabem qual caminho seguir na Escola da Vida.
Minha responsabilidade como um dos principais representantes da Biblioteca Comunitária BECEI é apresentar uma proposta educacional e afetiva para as crianças e jovens. Este espaço é excelente para que todos possamos aprender e compartilhar experiências de engajamento e afeto para quaisquer demandas culturais e sociais, assim aplicamos um diálogo universal, onde entram em cena dois conceitos: o senso-crítico e a empatia.


Fonte: Banco de Imagens do Google.


 Para maiores informações, acessem estes links:


Entrevista com Gestor Alle Cabral da Biblioteca Comunitária BECEI Paraisópolis no YouTube:


Página Oficial da Biblioteca Comunitária BECEI Paraisópolis no Facebook:


Página Oficial do Instituto BECEI no Facebook:


As duas Bibliotecas Comunitárias que foram citadas pelo criador e gestor Alle Cabral, estão assim: a Biblioteca Caminhos da Leitura já possui uma reportagem aqui na Monitoria Científica, para conferir acessem este link:


A Biblioteca Comunitária de Heliópolis posteriormente pretendemos fazer uma visita presencial, muitos BiblioAmigos já me indicaram, em breve teremos esta reportagem, aguardem mais novidades!

Queria agradecer novamente ao Alle Cabral pela recepção e por compartilhar sua história de vida que foi sensacional. Por meio desta entrevista aprendi que Afeto e Educação sempre andam juntos. Agradeço por TODOS vocês que estão lendo está coluna.
Até a próxima reportagem, Abraços e Muito Obrigado.


(*) A matéria apresenta a opinião das pessoas envolvidas.


 

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