sexta-feira, dezembro 01, 2017

Série: Era Uma Vez... Por Gabriel Justino de Souza.



E pra quem gosta de drama, investigação policial e ação, fiquem com mais um conto do Gabriel Justino (6° Semestre/Noturno) que vai mostrar a todos a importância dos arquivos que nunca devem ser chamados de mortos.



Fonte: Localbox blog


JUSTIÇA

— Alô, emergência?!
— Emergência! No que posso ajudar?
— Preciso de ajuda, minha irmã... minha irmã...
— Senhor, peço que me relate o que está acontecendo para que eu possa enviar uma equipe para ajudá-lo.

— Minha irmã está debruçada na cama, tem muito sangue... eu... eu... eu não sei o que fazer, não sei nem se ela está respirando... ahhh meu Deus... as roupas dela estão todas rasgadas... tem muita fumaça aqui... por favor me ajudem... ajudem minha irmãzinha...
— A ajuda já está a caminho...

Recebemos milhares de ligações como essa na central de emergências e é desesperador tentar acalmar o familiar, o amigo que está do outro lado da linha.  Faz uns 10 anos que recebi o inquérito a respeito dessa ligação, e ainda lembro bem deste caso, uma jovem de 20 anos foi encontrada pelo irmão em cima da cama, com as roupas todas rasgadas e ao que tudo indicava parecia uma cena de estupro, só que a cena ficava mais estranha, pois tinha muita fumaça no local, o que nos levava a hipótese de que o assassino e possível estuprador tentou apagar a cena do crime causando um incêndio, o que não deu certo, pois, o irmão usou água para apagar o foco de incêndio que ali se iniciava, à medida que investigávamos o caso, descobrimos manchas de sangue na cozinha e marcas de que a vítima fora arrastada escada acima até o quarto e deixada de bruços sobre a cama com marcas de violência por todo o corpo, o que leva a crer que a vítima foi espancada até a morte.

Sou Helena D’Ângelo, investigadora dos casos de homicídios no Departamento de Investigação de Assassinatos, o DAI, este caso nunca foi esclarecido, pois nunca achamos o verdadeiro culpado por cometer tamanha brutalidade. Chegamos até a prender um suspeito, mas após algum tempo provou que era inocente. Meu trabalho junto com meu parceiro Bruno Ávila, é descobrir o mistério dos casos que foram arquivados sem solução, e assim, conseguir o esclarecimento de muitos casos que não obtiveram um desfecho e ficaram sem solução.

As circunstâncias mudam, pessoas que não testemunharam, podem demonstrar algum interesse em falar sobre o caso, o que viram, o que ouviram e o que testemunharam e que por algum motivo fizesse com que se calassem por tanto tempo. Em um dia em que iria atender a um chamado, meu chefe me ligou para dizer que alguém queria falar com a investigadora de homicídios.

— Helena, tem uma senhora que gostaria de falar com você, ela está esperando na sala 111.
Quando cheguei, a senhora estava sentada em um dos sofás disponíveis naquela sala, que funcionava como uma sala de visitas, com alguns sofás dispostos no ambiente, e uma pequena mesa de centro, no qual estavam servidas algumas garrafas de café e chá.
— Senhora Márcia? Detetive Helena D’Ângelo em que posso ajudá-la?
— Muito prazer detetive, gostaria de falar com alguém da homicídios, você é deste departamento?
— Sim! Eu cuido dos casos de assassinatos.

Ela respirou fundo para contar algo em alguns sussurros.

— Sei que faz muito tempo, mas no dia em que aconteceu o assassinato daquela moça que foi morta em casa, e não sei porque me mantive tanto tempo calada. No dia em que os investigadores da Guarda bateram na minha porta, disse que não havia ouvido ou visto nada, mas eu menti porque estava com muito medo, do que tinha ouvido. Na madrugada daquele dia, antes do irmão da moça a encontrar, eu despertei com alguns gritos que rapidamente foram abafados, fui até a janela do meu quarto e abri um pouco para ver o que estava acontecendo. Vi um homem, saindo da casa dela, me parecia o namorado, mas ainda faltavam algumas horas para amanhecer, ele estava transtornado e muito nervoso, ele olhou para minha janela e me escondi. Por isso me calei durante todo esse tempo, já que ele poderia fazer mal para mim ou minha família.

Após aquela revelação, seria necessário reabrir o caso para investigar a veracidade daquelas novas informações, a fim de elucidar, tudo aquilo que a testemunha havia dito. Desci até nossa “biblioteca de evidências”, local no qual ficavam armazenadas todas as provas de crimes em algumas caixas, local que encontraríamos as evidências recolhidas e os relatórios dos investigadores, o que nos ajudaria a montar um quadro de análise daquele caso.
 



Achei o arquivo, e nele estavam algumas fotos da vítima o laudo da autópsia, as pessoas que foram ouvidas e seus depoimentos transcritos. Observando o laudo, foi constatado que Bia Arantes foi morta por espancamento e que algumas das pancadas foram na cabeça, lesionando o cérebro, causando um traumatismo, foram encontradas evidências de um estupro, ao que parece tentaram encobrir o crime para que não pensássemos que ela havia sido estuprada. O principal suspeito, era Thomaz James Rocha, o namorado dela, mas apresentou um álibi que foi comprovado, com isso os investigadores da época voltaram à estaca zero e decidiram encerrar o caso. 

Com o depoimento da testemunha, eu e meu parceiro Ávila, precisaríamos convocar o namorado da vítima e verificar o álibi novamente, afinal se for verdadeiro ele continuará irrefutável mesmo depois de anos.

— Aqui no relatório, diz que você estava numa balada e que chegou por volta das 10 da manhã, e encontrou o irmão da vítima em estado de choque, tem mais alguma coisa que queira acrescentar ao seu depoimento?
— Só quero meu advogado, não sei porque reabriam o caso, eu já disse tudo que sabia e acrescento que eu amava minha namorada e que isso tudo me causa muita dor ter que remexer neste assunto novamente.

— Sei que fazem dez anos Thomaz, mas novas evidências apareceram e nós gostaríamos que o responsável pelo assassinato de sua namorada fosse preso!
Algo ali não estava se encaixando, como o namorado não queria que o caso fosse reaberto, algo ali me dizia que ele sabia muito mais do que estava nos contando. Por isso, falei com o nosso legista que reexaminou os laudos escritos na época.

— Agente D’Ângelo, pelo que li nos relatórios, tudo indicava que foi algum ladrão que invadiu a casa. Mas algo me chamou a atenção, justamente a forma como o corpo foi encontrado e as marcas pela casa. Não sei se o legista da época deixou isso passar, mas a verdade é que o crime foi passional e a nossa vitima conhecia o assassino.

Depois desta revelação, eu e meu parceiro Bruno, verificamos alguns dos suspeitos, entre os quais um que até chegou a ser preso por ter conhecimento da rotina da vítima, agredi-la e ter passagens por estupro, mas ele ficou preso só por dois anos, quando provou que era inocente.

Algo estava muito estranho, parecia que a cena toda havia sido montada para incriminá-lo, eu e meu parceiro estávamos deixando algo passar, quando li novamente o relatório me chamou a atenção, o horário de morte da vítima ocorreu entre as 3 e 4 da manhã, exatamente o horário que a testemunha ocular vira o namorado da vítima transtornado. As peças começaram a se encaixar, mas agora bastava saber o porquê ele fizera tamanha crueldade com a própria namorada. Ele foi intimado novamente, pois eu sabia que as evidências apontavam para ele, mas precisava de uma confissão, se não esse desgraçado sairia impune novamente.

— Thomas, sabemos que você estava na casa da sua namorada na madrugada do crime. Tem algo que queira nos contar?
Ele já havia contratado um advogado que o orientou a ficar em silêncio, então precisava fazer algo, para que falasse.

— Me diz Thomas, qual foi a sensação? De exercer o poder sobre sua namorada e assassiná-la do jeito que fez? Era tudo para se mostrar superior? Que ela não valia nada? Eu sei das suas brigas com ela e que ela já tinha te expulsado da casa dela alguns dias antes e acabado o relacionamento com você.

Ele já estava ficando vermelho de raiva, estava fisgando a isca direitinho para falar tudo, quando abruptamente se levantou para vir para cima de mim.

— O que foi Thomas? Te irrito, jogando na sua cara o quão desprezível você é, por estuprar a sua namorada e depois matá-la a sangue frio com socos e pontapés e depois largando-a lá, com as roupas rasgadas e tentando encobrir o que você fez?
Ele parecia que ia explodir de tanta raiva quando começou a berrar comigo, como se fosse uma criança que foi pega em suas travessuras.

— VOCÊ NÃO SABE DE NADA! EU AMAVA ELA! A-M-A-V-A! E AQUELA VADIA NÃO QUERIA MAIS NADA COMIGO! TRAIU A MINHA CONFIANÇA! EU PRECISAVA FAZER ALGUMA COISA!

— Belo amor que você sentia, amor esse que levou ela para a morte.
Ele ficou um pouco mais calmo me fitou nos olhos, que estavam carregados de um misto de sentimentos: culpa, rejeição, tristeza, frieza e mágoa, mas em nenhum momento vi arrependimento naquele olhar.

— Eu saí da balada por volta das 2 da madrugada e cheguei na casa dela, uns trinta minutos depois, ela estava dormindo e eu não queria ter que ir embora. Então fui me deitar ao lado dela para fazer um carinho e mostrar o quanto eu a amava, mas assim que ela acordou e me viu deitado ao lado dela, me mandou ir embora, que não queria mais ficar comigo e que as coisas não precisavam terminar assim, foi quando dei o primeiro tapa nela, foi quando correu para cozinha pegar o telefone para chamar o irmão ou a polícia, eu já estava fora de mim, não consegui raciocinar, simplesmente saí correndo atrás dela, determinado a fazer com que ela calasse a boca. 

Quando cheguei a cozinha agarrei ela e bati muito nela, a ponto dela começar a sangrar e perder a consciência, foi quando a arrastei escada acima em direção ao quarto, em determinado momento da subida, ela retomou a consciência e agarrou algumas coisas no caminho em vão tentando escapar das minhas mãos, foi quando consegui chegar ao quarto e joguei-a sobre a cama e comecei a rasgar as roupas dela, e dei mais um soco para que ela ficasse quieta, foi quando eu fiz o que fiz, depois de terminar, não podia deixar que ela me denunciasse, então comecei a soca-la até que ver o último suspiro se esvair. 

Deixei o corpo dela em cima da cama e precisava limpar os indícios que estavam na casa. Eram cinco da manhã quando tive a ideia de limpar o sangue da cozinha e colocar fogo em alguns papéis próximos ao lixo, que depois de algum tempo viraria um incêndio e encobriria meus rastros. Saí de lá a poucas horas de amanhecer. Se não fosse aquele idiota do irmão dela chegar lá tão cedo, meu plano teria dado certo.

Finalmente tinha conseguido uma confissão completa daquele assassino, ele contou tudo com tanta frieza, que me deu vontade de jogá-lo no cárcere e esquecer ele lá, mas não podia fazer isso. Ele saiu de lá algemado e depois de alguns meses foi condenado por homicídio doloso triplamente qualificado, pegando 40 anos de prisão sem direito a condicional. Esse trabalho não é fácil e saber que uma jovem com tantos sonhos e uma vida inteira pela frente foi interrompida daquele jeito.

— Agente D’Ângelo, temos um novo caso para você e queremos saber se você aceitará essa pedreira.
— E que caso é esse?
— É de um garoto que foi encontrado morto em uma situação bem complicada, com as mãos amarradas e um tiro no peito, o nome do rapaz era Daniel Silva. Ninguém quer pegar o caso porque já faz um tempo que foi arquivado e parece que as suspeitas recaem sobre a Guarda.

— O caso é meu pode deixar. Investigarei esse caso com afinco a fim de achar os culpados por essa brutalidade.
— Gostaria de te perguntar algo... você se dedica muito a esses casos, por que você se importa tanto?

— Eu acredito na justiça agente. Aqueles que fazem algo contra seres semelhantes, não podem sair impunes das injustiças que cometem. Além do mais, pessoas não devem ser esquecidas.

E com isso comecei a investigar aquele caso que se mostrava um emaranhado de informações desencontradas e testemunhas que se calaram com a possibilidade de represálias. Mas eu iria descobrir os culpados por aquilo, ninguém deveria tirar a vida de ninguém por bel prazer. Iria descobrir, nem que para isso prendesse agentes da minha própria corporação.

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