quarta-feira, abril 18, 2018

Coluna: Era Uma Vez... - Por Gabriel Justino.

O novo conto do Gabriel está um arraso! Vem dar uma olhada!


Conto 14 - Significados

Fonte: Bibliomundi.com


Quando ele se olhou no espelho, não se reconhecia mais. O que acontecera? Se perguntava. Antes tão seguro de si, agora indeciso e buscando resposta nos olhos castanho-claro que o encaravam de volta no espelho.

Edu sempre fora uma criança enérgica, falante que se enturmava fácil com os colegas numa festa de aniversário de um de seus amigos, corria e brincava instantes depois de chegar com as outras crianças, nem parecia que conhecia só o aniversariante.

A infância traz lembranças agradáveis para este jovem menino, que ainda não decidiu sobre o seu futuro, acha que seus 25 anos estão distantes, mesmo faltando pouco mais de 14 anos para chegar a essa idade. Incertezas se abatem sobre o garoto, pequenos fatos que acontecem, o deixam introspectivo, da criança falante à criança calada, e cada vez mais o jovem Edu vai se perdendo num mar de dúvidas e questionamentos que o cercam.


Sexta Feira, 2 de março de 2001 (Aquele dia)

Hoje o meu dia foi muito difícil, eu gostava da Milena, apesar de ser bem diferente de mim. Gostaria de conversar mais com ela, ficar mais próximo dela e quem sabe trocar alguns bilhetes. Tenho que treinar minha escrita também, e por quê não enviando bilhetinhos para a garota que eu gosto? É estranho, ela sempre foi legal comigo, achei que ela pudesse gostar de mim também, por isso, me iludi tão depressa, só que quando revelei que eu gostava dela, ela me dispensou, me via só como um amigo e quando me dei conta já estávamos afastados há quase um ano. Éramos de salas diferentes, mas descobri que ela tinha educação física, então pedi para a professora deixar eu ir ao banheiro, quando desci as escadas e cheguei ao pátio principal, ela estava lá sentada, mexendo em seu celular.

 — Oi, tudo bem com você Mi?
— Oi Eduardo. Tudo sim. – me respondeu ela, sem tirar os olhos do celular.
— Sei que não estamos nos falando muito, mas, gostaria de te perguntar, por que não tem falado comigo e me evitado?
— Olha não tenho tempo para isso. Você é um bobo, chato e idiota. Vê se não me incomoda mais tá bom?!

Eu poderia ter respondido, mas fiquei em choque e de vez ter falado algo, me retirei como um covarde. Virei as costas para ela, com a melhor cara de ofendido e corri de volta para a aula de matemática. Literalmente corri. Que dia ruim, e ao menos nem sei o porquê ela me tratou assim. Acho que foi a primeira vez que entendi o significado da palavra decepção e mágoa.


Segunda-Feira, 26 de março de 2001 (Ainda sinto)

Faz algumas semanas, desde aquele dia que travei, mas vou vivendo um dia após o outro. Afinal, tenho meus amigos para me distrair. Uma nota mental que fiz, nunca me apaixonar sem ser correspondido, mas isso que é o ruim, não mandamos ou controlamos os nossos sentimentos. E ainda, gosto daquela menina, talvez eu tente chamar a atenção dela. Mas como? Comprar roupas novas? Péssima ideia, tenho que ir de uniforme. Talvez posso mudar o penteado, acho que isso daria certo. Vou esperar as férias de verão para mudar, não uma mudança radical, começarei a planejar isso e como farei, mas com certeza valerá a pena. Tenho lá minhas dúvidas, mas no fundo acredito que pode dar certo.


Quinta-Feira, 31 de janeiro de 2002 (Let’s Go)

Sabe o que é engraçado? É que sempre pensamos, na verdade não pensamos, somos induzidos a acreditar que as férias vão fazer certos milagres e que você irá voltar para a escola como o mais descolado dos alunos. Eu acreditava que uma transformação poderia acontecer nas férias de verão e que eu voltaria mudado, a ponto da Milena reparar em mim. Onde eu errei? Exatamente no ponto de ficar apaixonado por ela, esse é o erro. Vida que segue, bola para frente. Voltei com um novo corte de cabelo, coloquei até uma corrente maneira no pescoço, e... nada. Nem um olhar, nem uma palavra, nem um risinho bobo. Acho que na aula de português, poderíamos estudar a palavra frustrado. Porque sinceramente, esse era o meu sentimento naquela volta as aulas, toda uma preparação: vou ao cabelereiro nas férias e mudo o corte de sempre, peço para minha mãe comprar uma corrente, só para quebrar o padrão do uniforme, desisto das calças de moletom e tento me convencer a gostar do jeans e tudo o mais, para simplesmente, ser ignorado. 

E a volta as aulas se sucederam dessa forma, sem novidades, nem mesmo meus amigos repararam nessas pequenas mudanças. Acho que acreditei que minha vida era como aqueles filmes, que a pessoa nerd, volta toda diferente e começa a se tornar popular na escola, mas minha vida não é um filme e tenho que ficar aqui sentado nessa carteira, aprendendo os conceitos de números naturais, sistema de numeração decimal e números racionais. HELP! Mas vamos lá néh, vida que segue. O sinal tocou, hora de ir para casa fazer esses benditos exercícios. 

Os números nos outros anos pareciam ser tão fáceis, por que vieram com esses monstros de pergunta problema? Para tirar nossa paz? Só pode, a pergunta era mais ou menos assim: “Uma pessoa tem 44 anos e a outra, 20 anos. Há quantos a idade da mais velha foi o triplo da idade da mais nova? ”, o que eu entendi: “Uma pessoa tem 44 anos e a outra, 20 anos. Calcule a idade dos pais de Mariana”. Loucura é o que o exercício pede e o que entendemos, mas vida que segue, ainda faltam alguns anos para terminar meus estudos e aguentar todas essas coisas de ensino fundamental e também do médio. Acho que a palavra do dia é dificuldade, porque era isso que estava tendo com a matéria e para me entrosar com meus colegas.


Quarta-feira, 21 de agosto de 2002 (Sem voz)

Precisávamos ler trechos de um livro na frente da sala, tínhamos que ficar de pé, era normal fazer isso, mas quando a voz dos outros começa a mudar, e só a sua não, é complicado. O problema aqui não era a leitura, até porque, modéstia à parte, eu sempre lia bem. Mas algo mudou a partir desta quarta, assim que pronunciei as primeiras palavras, ouvi as risadinhas e a forma como caçoavam de mim, isso tudo, porque ainda não tinha desenvolvido um tom grave de voz. Creio que a parte difícil hoje, foi ter que lidar com isso, eu não sabia como aguentar aquelas gozações, era difícil e o que eu poderia fazer? Jurei para mim mesmo, que a partir de hoje, evitarei ao máximo ler ou me manifestar sobre algum assunto. É melhor assim, pois dessa maneira, não serei tachado de algo que não sou. As palavras que poderíamos aprender na aula de hoje seriam duas: cruel e empatia.

Cruel porque as pessoas são assim, gostam de causar dor aos outros, por simplesmente se sentirem bem ou se sentirem superiores aos outros, ao contrário da empatia, porque aqueles que são empáticos, conseguem se colocar no lugar do outro, entendendo-o da melhor maneira possível, compreendendo o sofrimento que pode causar ao outro...

Pobre menino, sou uma mera espectadora do seu sofrimento e de como uma doce e falante criança, começou a se trancar em seu próprio mundo e foi perdendo o brilho da vida, sendo erroneamente induzido a se fechar em si mesmo. Por que o Homem tem que ser tão cruel com seus próprios semelhantes? Por que falamos de paz enquanto criamos a guerra? Por que queremos amor se desprezamos ao próximo? Por que queremos ser livres de julgamentos quando adoramos representar o papel de juiz? Talvez o Edu, encontre a si mesmo um dia, as vezes fico refletindo tudo que ele passou com tão pouca idade, mas a vida é assim, não é? Não deveria, mas infelizmente é assim. Espero que nos próximos capítulos, eu possa ler que ele se tornou um adulto maravilhoso, que conseguiu sobreviver a essas agressões e finalmente se permitiu falar com os outros sem temer os julgamentos que viriam.

Abraços fraternos de uma mera narradora que espera te encontrar e contar a sua história um dia.
Com amor T.


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