quarta-feira, outubro 17, 2018

Entrevista: A Arte de Ser Bibliotecário e Professor na Biblioteconomia – Por: Sidnei Rodrigues de Andrade

O dia dos professores já passou, mas a Monitoria não podia deixar em branco. O nosso Monitor Voluntário já egresso da FaBCI Sidnei Rodrigues de Andrade preparou uma entrevista super especial com as professoras Adriana Maria de Souza e Maria Cristina Palhares
Venha prestigiar aqueles que nos formam!


Entrevista: A Arte de Ser Bibliotecário e Professor na Biblioteconomia – um aprendizado com o afeto e o conhecimento.


por Sidnei Rodrigues de Andrade.

Saudações Profissionais da Informação!

Neste mês de outubro, comemoramos uma data especial a este profissional da educação que se dedica sua vida em compartilhar e demonstrar quais os caminhos que podemos traçar para alcançar nossos sonhos e objetivos neste cenário contemporâneo: os professores.
Todos nós fomos educados pelos professores, então tive a liberdade de fazer esta entrevista-homenagem, com o seguinte tema: Como é a arte de serem Professores e Bibliotecários na Biblioteconomia?

Fonte: Banco de imagens do Google

Há muito tempo, queria realizar esta entrevista especial exclusiva para o blog da Monitoria Cientifica FaBCI – FESPSP. Em nossa sociedade brasileira civil, há uma forte hegemonia na desvalorização dos professores, por isso convidei para realização desta reportagem especial, duas profissionais da informação e educadoras conhecidas pela comunidade acadêmica.
As duas convidadas que aceitaram este convite são: Adriana Maria de Sousz da FaBCI – FESPSP e Maria Cristina Palhares da UNIFAI. Antes de iniciamos esta reportagem especial, vamos fazer uma breve apresentação dos currículos profissionais das duas entrevistadas,  e em seguida, acompanhem suas reflexões, apontamentos e contribuições sobre a Educação no Brasil

Fonte: Facebook - Monitoria Voluntária 2017

Bibliotecária e Professora Adriana Maria de Souza da FaBCI -FESPSP


Mestre em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo (ECA-USP). Especialista em Gerência de Sistemas e Serviços de Informação pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Bacharel em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação (FaBCI) da FESPSP. Docente nos cursos de graduação e pós-graduação da FESPSP. Consultora e Coach em Serviços de Informação nas áreas de Tratamento da Informação: organização e representação; Serviços de Referência: qualidade no atendimento ao cliente e coachingCoaching para liderança e carreira do bibliotecário. Design Thinking para bibliotecas.

Bibliotecária e Professora Maria Cristina Palhares da UNIFAI



Bacharel em Biblioteconomia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) pela FaBCi (Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação), em 1997; Especialista em Língua, Literatura e Semiótica pela Universidade São Judas Tadeu (USJT), em 2002; Mestra, em 2005. Desde 2008, atua no Centro Universitário Assunção (UNIFAI), ministra as disciplinas: Fontes I, Tecnologias da Informação, Planejamento e Elaboração de Bases de Dados e Automação de Unidades de Informação; integra o Núcleo Docente Estruturante (NDE). Em 2018, integra a Comissão Brasileira de Bibliotecas Prisionais (CBBP), da Federação Brasileira de Associações Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições.


  
1) Porque você leciona no curso Biblioteconomia e Ciência da Informação?
Adriana: Antes de responder essa pergunta, preciso voltar ao tempo e dizer que aos 16 anos escolhi a da ciência como opção de carreira. Fiz magistério no Ensino Médio e desde cedo entendi o poder transformador da educação e do conhecimento no desenvolvimento das pessoas. Despertei o interesse pela Biblioteconomia, assim que soube dessa área profissional, também nessa idade, fruto de uma pesquisa e numa enciclopédia que havia em casa sobre profissões, mas só pude viabilizar meu  tento, bem mais tarde, aos 21 anos.
Logo que me formei fui convidada a fazer parte do quadro de docentes da Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação (FaBCI) da FESPSP, como assistente de classe, assim, comecei minha carreira docente no Ensino Superior, o que foi um grande desafio para mim, pois era recém-formada e muito jovem, com experiência no ensino fundamental somente.
A vivência com a docência superior, como eu previa, foi se encaixando em meus interesses e ideais, uma vez que buscava responder às questões que eu tinha como discente, nos tempos de curso, ou seja, aquilo que eu buscava como aluna, busquei transferir para a prática de ensino e uma das coisas mais importantes pra mim era e é a didática. Como tornar o conteúdo das aulas mais próximo da realidade de trabalho dos alunos? Já que sentia essa lacuna durante a minha formação e assim tenho tentado manter essa proposta até hoje. 

Fonte: Banco de imagens do Google

Leciono no curso por que sou entusista do processo de ensino-aprendizagem, na provisão de agregar teoria e prática, apresentando uma Biblioteconomia e CI com todas as suas potencialidades, vertentes e possibilidades, com foco no humano, essência primeira e última de todo o ato de mediação da informação e do conhecimento. É nas relações sociais, humanas que transcendemos e nos tornamos pessoas melhores tanto pessoal como coletivamente.
 Maria Cristina: Porque acredito no papel social do bibliotecário, na contribuição que ele pode dar à sociedade em todos os segmentos: culturais, educacionais e humanistas.

2) Quais são as maiores dificuldades e conquistas para ser um Bibliotecário e Professor no curso Biblioteconomia e Ciência da Informação?

Adriana: Na contemporaneidade temos muitos desafios a serem transpostos, tanto na condição de bibliotecários como na de docentes: nos aspectos geracionais decorrentes das mudanças da sociedade; nas incertezas no mundo do trabalho, com novas formas de atuação: espaços tradicionais x espaços inovativos; no que se refere a falta de identidade e pertencimento do aluno/profissional quanto à sua formação, uma vez que a área de informação não é uma exclusividade da Biblioteconomia e CI; na conscientização do nosso ofício frente às desigualdades sociais e econômicas que assolam o nosso país, e que refletem em nossas práticas de trabalho e ensino.
Em contrapartida, temos muitas conquistas, principalmente no aspecto tecnológico e de inovação, com as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), bem como com as novas práticas metodológicas, atualmente usadas nos âmbitos acadêmico e profissional, chamadas de ágeis, ativas, disruptivas, por colocar o ser humano (aluno ou profissional) no centro do processo de aprendizagem, de construção de sentido no que se pretende realizar, construir, bem diferente do papel passivo que, muitas vezes se vivencia nas atividades praticadas, seja em sala de aula ou em ambientes de trabalho mais tradicionais.

Fonte: Banco de imagens do Google
Maria Cristina: As maiores dificuldades estão na falta de apoio e condições financeiras para custear uma graduação e a pós-graduação. No entanto, as maiores conquistas estão no aproveitamento das oportunidades que se teve, transformando-as na realização de projetos essenciais e significativos para si e para a sociedade, seja nos âmbitos mercadológicos ou acadêmico-científicos.

3) Segundo Paulo Freire, “lecionar é uma prática que vai além das instituições escolares, há um diálogo orgânico, onde todos participam ativamente”. Então, ensinar e lecionar é uma atitude homogênea do afeto e do conhecimento?
Adriana: Concordo totalmente com a afirmação, é um diálogo orgânico que acontece o tempo todo, dentro e fora da sala de aula, numa perspectiva constante de interação, de troca, de compartilhamento, de significados entre instituição x aluno; aluno x educador; aluno x aluno. Lecionar é aprender simultaneamente, não é um processo neutro, no qual um indivíduo transfere seus conhecimentos a outro indivíduo, mas sim de interlocução ativa e geradora de transformação.
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É um ato de amor, de paixão, de entrega, Rubem Alves discorre sobre isso em seu livro Conversas com quem gosta de ensinar. Pra mim representa vocação e missão. Devem os aprender com as pessoas questão a nossa volta, aprender sobre sua condição humana: suas dores, suas conquistas, seus ideais para sermos melhores educadores.
Maria Cristina: Compreendo a prática freiriana como àquela que orienta para a construção do conhecimento formativo de um indivíduo a partir das práticas internas e externas, ou seja, aulas teóricas-reflexivas e práticas laboratoriais institucionais e práticas in loco, nas unidades informacionais, culturais, espaços públicos abertos, como parques, ruas e estações de transportes urbanos, entre outros.

4) Temos acesso há itens informacionais desde suporte de papel até digital, existe uma diferença entre o Aluno-Cliente e o Estudante-Leitor?
Adriana: Pois pra mim são duas coisas distintas: acesso à informação e a condição de aluno x estudante. Antes de qualquer coisa, vejo pessoas buscando conquistar espaços, evolução, mudança, melhores condições de vida, de satisfação e, acima de tudo, sempre a aprender, dessa forma, gostaria devê-los sempre como estudantes, responsáveis pelo seu próprio processo de aprendizagem, como protagonistas de todo o aprendizado a ser conquistado, o que implica no entendimento do ato de estudar como forma de apropriação de saberes de forma ativa, participativa, investigativa, no qual se modifica e se torna alguém novo, transmutado. Em alguns casos, o aluno é mero telespectador que está apenas a espera da transferência de conhecimentos do docente.
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Maria Cristina: O aluno-cliente é aquele que paga por um serviço e o leva consigo. Já o estudante-leitor é o indivíduo que se sente comprometido consigo e exige uma formação crítica-reflexiva a partir da orientação/mediação do professor, que neste papel deve apontar e fornecer as condições de acesso ao conteúdo desejado, ao qual o aluno tem direito, não apenas do ponto de vista constitucional como do ponto de vista humano.

5) Existem dois conceitos conhecidos por especialistas em Educação: o Construtivismo e a Meritocracia. Há uma desigualdade educacional destes dois conceitos na prática educacional em contexto contemporâneo?

Adriana: Essa questão me remeteu às aulas do magistério e à minha prática profissional como bibliotecária em uma instituição britânica. Na verdade, entendo esses conceitos como método é das linhas pedagógicas, embora eu houvesse estudado em escolas tradicionais, públicas, eu sempre me interessei pelas linhas construtivista, antroposófica e montessoriana.
Quando eu atuava como bibliotecária, tinha como atividade de trabalho o aconselhamento e o auxílio aos estudantes brasileiros que tinham interesse em estudar no Reino Unido, além de ministrar palestras sobre uma bolsa de estudos chamada, Chevening Awards, em que consistia no conceito de Meritocracia, não como forma de exclusão ou de desigualdade social como preconizado por muitas ideologias, mas como o caminho de evolução, ou seja, o estudante para conquistar a bolsa, precisava apresentar uma trajetória acadêmica e profissional de dedicação, empenho e esforço individuais, além de um projeto de pesquisa que validas se tudo isso: a escolha acadêmica em consonância com a área de atuação profissional, bem como a condição de vida da pessoa (não podia apresenta ruma situação financeira favorável), integrados a isso, para conquistar a bolsa ele teria que apresentar argumentos plausíveis para retornar ao seu país de origem e ser um multiplicador de sua pesquisa aos menos a fortunados.
Sim, penso que há muita desigualdade, pois a inda temos diversas realidade sem se tratando de educação, em diversas regiões do nosso país. Ainda convivemos com uma educação precária, sem acesso ao básico, quiça ao construtivismo. Há que se fazer uma educação para o futuro sem distâncias e que todos sejam incluídos, mas não é a realidade que vemos. Há muito trabalho a ser feito, a Agenda 2030 das Nações Unidas, com seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) nos convida para ações concretas de inclusão, de responsabilidade, de partilha, principalmente, e mar e as como a Educação, a Saúde, o Bem estar, o Meio Ambiente entre outros.
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Maria Cristina: Do ponto de vista construtivista, o acesso à educação é inclusivo, é de acordo com as oportunidades oferecidas pelos órgãos governamentais responsáveis pela educação formal; por instituições privadas, por meio de ações sociais que oferecem bolsas de estudos e a permanência está vinculada ao desempenho do aluno; por institutos e organizações não-governamentais, que vincula a permanência do aluno ao desempenho ou capacitação profissional do aluno; e, também, existem as situações em que o indivíduo, por meio de ações autônomas, busca e constrói a própria formação durante sua vida.
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No entanto, na meritocracia, a educação é exclusiva, é acessível ao indivíduo com todas as condições e garantias de qualidade e quantidade, por pertencer a grupos sociais, bem amparados financeiramente, cientes de seus direitos legais, que lhe garantam a formação de suas competências e habilidades. Entretanto, a ponte entre os dois é visivelmente injusta e desumana, na maioria das vezes, no que se refere às disputas por processos seletivos nos âmbitos profissionais e acadêmicos.
  
6) Qual é o verdadeiro papel da Educação?
Adriana: Transformar e desenvolver pessoas. Tornando-as cidadãos críticos, atuantes, protagonistas e multiplicadores de um bem estar comum a todos.

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Maria Cristina: Prefiro chamar de Ensino, embora no contexto de formação o docente acaba sendo educador na maior parte do tempo, auxiliando na formação de alguns valores mínimos para a convivência social. Desta forma, compreendo Educação como os valores que o indivíduo carrega consigo desde o nascimento, que são valores culturais, religiosos, éticos e morais. Já o Ensino tem o dever de  fornecer as bases para que ele possa lidar com as suas habilidades e competências, percebidas e construídas, no contexto social, cultural e profissional.


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7) Como você observa a Educação Brasileira no Século XXI?

Adriana: Adoecendo, estamos vivenciando tempos muito difíceis, há falta de políticas públicas em todos os âmbitos da sociedade e não há tempo a perder esperando por uma solução mágica. É preciso acreditar que o nosso papel consiste em propiciar acesso à informação, ao conhecimento, para que juntos possamos cooperar na transformação da educação do nosso país, com novas práticas de atuação, criando espaços criativos, laboratórios de construção do conhecimento, buscando novas formas de aprendizagem, atuando na sociedade de maneira efetiva e as bibliotecas fazem parte de tudo isso, pois são ambientes que conjugam todos os saberes, sendo participantes ativos nesse processo de mudança da sociedade.

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Maria Cristina: Embora seja uma educadora, não me sinto completamente habilitada a responder esta pergunta de forma sucinta, pois a contemporaneidade nos impõe muitos desafios no campo da educação. No entanto, ao abordá-la no contexto brasileiro atual, é necessário retomar a perspectiva da formação sociocultural, de Gilberto Freyre, Paulo Freire, Milton Santos entre outros pensadores que nos levam a compreender, ou tentar compreender, como se deu a construção da nossa base estrutural enquanto sociedade brasileira, que reflete no percurso de implantação do ensino formal, e que podemos observar que muitos conceitos e práticas foram adotados inicialmente e seguidos de forma equivocada, como acontece até hoje.

Um exemplo disso é a descrição de métodos pedagógicos de algumas escolas de ensino infantil e fundamental I, que se intitulam construtivistas. Entretanto na prática não vemos a construção do aprendizado, a começar pelo material didático utilizado, que é por meio de apostilas. No ensino superior, muitas instituições vendem facilidades, com metodologias engessadas, apostiladas, onde o docente não tem a liberdade de utilizar bases metodológicas e teóricas de acordo com os múltiplos aspectos encontrados, que são peculiares a cada grupo de alunos, a cada curso, período de estudo, entre outros.  

8) Qual é a contribuição e/ou mensagem de Educador Brasileiro, sendo um Bibliotecário e Professor que você gostaria de dizer aos ex-alunos e a sociedade brasileira?

Adriana: Acreditar sempre: em si mesmo, em suas escolhas acadêmicas e profissionais, em dias melhores. Lutar pela igualdade de direitos a todas as pessoas, indiscriminadamente. Respeitar e honrar o seu país. Não aceitar injustiças de qualquer natureza e sob qualquer aspecto. E citando Mahatma Gandhi: “Seja você a mudança que quer ver no mundo”.
Maria Cristina: Ao se depararem com a dúvida sobre algo, investiguem a realidade, não tenha receio de argumentar o que enxergou a partir da análise, sempre amparada em fatos e dados reais. O posicionamento crítico é necessário para uma sociedade mais justa e igualitária.

Fonte: Banco de imagens do Google.

Quero agradecer as Professoras e Bibliotecárias: Adriana Maria de Sousa e Maria Cristina Palhares, por aceitarem este convite para a realização desta entrevista-homenagem ao Dia dos Professores. Fiquei muito satisfeito e honrado em ouvir estas duas excelentes profissionais da informação e educadoras.

Esta é uma homenagem a todos os Professores do Brasil, que devemos um agradecimento: Muito Obrigado Professores por sermos Seres Humanos! Agradeço por todos vocês que leram esta reportagem. Abraços e muito obrigado.
  
A opinião dos colunistas e dos relatos publicados não representam necessariamente a posição da FaBCI da FESPSP, ou de sua Monitoria Científica. A responsabilidade total é do(a) autor(a)do texto.

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