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A biblioteca no filme Asas do Desejo, de Wim Wenders

 



Uma colega sugeriu que eu escrevesse sobre a biblioteca nesse filme muito famoso, de 1987. É uma história que se passa na Berlim ainda dividida pelo muro, marcada pelo trauma coletivo e pela devastação do pós-guerra, mesmo que tenha se passado tanto tempo. Trata de anjos que circulam entre as pessoas ouvindo seus pensamentos - em alemão, em francês, em inglês, em japonês, em turco. Eles ouvem os pensamentos das pessoas nos vagões de trem, na rua, em suas casas; às vezes são pensamentos felizes, mas na maioria delas, não; claro, há também os artistas e os poetas - esses têm pensamentos diferentes dos outros. São criaturas distintas. Um deles é um velhinho que aparece durante o filme - ele é um narrador das histórias da humanidade, a memória, a reelaboração do trauma. Como o albatroz de Coleridge, é uma criatura estranha na terra, feia, atrapalhada. Se só, como esses anjos, pudéssemos ouvi-lo pensar, saberíamos que ser extraordinário ele é, como voa alto.

A biblioteca, nesse filme, se contrapóe à imagem da Gedächtniskirche, a célebre “igreja da memória”; é na biblioteca que se amontoam os anjos, mesmo depois que fecha. Como eles ouvem o que as pessoas pensam, de lugar silencioso, a biblioteca se torna um verdadeiro templo do pensamento: do pensamento organizado, da palavra silenciosa, do trabalho mental, invisível, precioso. Se o jovem que se atira do prédio tem o pensamento truncado e desorganizado, além das possibilidades de salvação, ali na biblioteca estão as pessoas preferidas desses seres espirituais de capote pesado, que não são os verdadeiros protagonistas do filme: não é a personagem de Bruno Ganz o protagonista, mas a prória Humanidade, constituída justamente através da linguagem e do pensamento, que esse anjo inveja, ama e deseja.

Achei o link para o filme completo no Youtube, com legendas. Para quem não pode ainda assisti-lo, fica a recomendação de um filme muito sensível, dedicado a outros grandes diretores de cinema: Yasujiro Ozu, François Truffaut e Andrej Tarkovski.

 

https://www.youtube.com/watch?v=0mhf_SHiOgU&ab_channel=OsvaldoFernandes

 

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