sexta-feira, setembro 06, 2013

Bibliotecário em ação política: Rodolfo Targino



Rodolfo Targino

Rodolfo Targino, bibliotecário formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO) é editor adjunto da revista Biblioo e um dos nomes mais atuantes da área. Polivalente, tem um curriculum sólido, e como mestrando da Universidade Federal Fluminense (UFF) movimenta ainda mais o cenário brasileiro de profissionais da informação. Nesta entrevista gentilmente cedida por email, a MC explora um pouco de sua visão humanista e dinâmica:








MC: Um breve histórico da sua formação e trajetória profissional.

RODOLFO TARGINO: Minha vida acadêmica se inicia no pré-vestibular comunitário, Oficina do Saber, da Universidade Federal Fluminense (UFF) no ano de 2006, quando fiz a preparação para prestar o vestibular. Em 2007, inicio o bacharelado em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). 

Durante a graduação tive a oportunidade de participar de projetos de monitoria (“Organização do Conhecimento”, com a professora Ludmila Guimarães) e de iniciação científica (no projeto de pesquisa “Bibliotecas como prática de Responsabilidade Social”, com a professora Elisa Machado). Ambos os projetos são do Departamento de Estudos e Processos Biblioteconômicos da Escola de Biblioteconomia da UNIRIO e contribuíram muito para a minha formação. 

Rodolfo Targino em visita à Estação da Luz, em SP
Tive a oportunidade de estagiar em duas instituições públicas. O primeiro foi na biblioteca do Centro de Educação e Humanidades da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), campus São Gonçalo, onde estagiei aproximadamente oito meses. O segundo estágio foi na Divisão de Música e Arquivo Sonoro da Fundação Biblioteca Nacional, onde estagiei por dois anos. Como cursei teoria musical e estudei violão clássico desde pequeno, consegui aplicar o conhecimento em música e aprender na prática as teorias da Biblioteconomia. Esse estágio contribuiu muito para minha formação.

Também participei de forma efetiva do movimento estudantil de Biblioteconomia. Participando da gestão 2008-2009 do diretório acadêmico Mário Ferreira da Luz da UNIRIO e da gestão 2009-2010 da Executiva Nacional dos estudantes de Biblioteconomia. 

Sempre participei dos encontros estudantis da área em diversas universidades do país, com apresentação de trabalhos e relatos de experiência. Além de organizar eventos estudantis, dentre eles o XXII Encontro Nacional de Estudantes de Biblioteconomia, Documentação, Ciência da Informação e Gestão da Informação (ENEBD) e a III Semana de Integração Acadêmica dos Estudantes de Biblioteconomia da UNIRIO.

Em 2011 conclui a graduação e em 2013 fui aprovado na seleção do Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da UFF.

MC: Como você começou seu trabalho com a Revista Biblioo?

RODOLFO TARGINO: A ideia de criar a Revista Biblioo surgiu no final do ano de 2010 por um grupo de estudantes de Biblioteconomia da UNIRIO, mas só se materializou em 2011, quando foi publicada a primeira edição. No formato inicial da revista eu era responsável pela coluna “atitude” que explorava relatar iniciativas e projetos sociais voltados para a questão da leitura. No formato atual sou editor-adjunto da revista. 

MC: Qual a curadoria editorial da revista? Quais os objetivos?

RODOLFO TARGINO: Atualmente a Revista Biblioo é formada pela seguinte configuração: Chico de Paula (editor-chefe), Emilia Sandrinelli (Editora-executiva), Hanna Gleydz (Editora de Criação) e Rodolfo Targino (Editor-Adjunto). Temos ainda duas revisoras, a Isis Brum e a Vanessa Souza, os colaboradores fixos Thiago Cirne e Adriano da Silva, os colunistas Anthony Lessa (Agulha), Claudio Rodrigues, Jonathas Carvalho, Soraia Magalhães, Moreno Barros e o chargista Aldo Henrique. 

“Os nossos objetivos estão pautados em uma visão humanista com a missão de possibilitar uma troca de experiências e o compartilhamento de informações gerado para além do espaço acadêmico, especialmente aqueles envolvidos com a Cultura Informacional, com destaque para as experiências que estejam ligadas à prática da leitura e às bibliotecas enquanto espaço de resistência.”
 
MC: Ela preenche um nicho carente: informação sobre a área, sem ter um caráter acadêmico. Qual a repercussão, em geral, dos artigos entre os profissionais da informação?

RODOLFO TARGINO: A repercussão é bastante positiva. Estamos recebendo uma demanda significativa de artigos de profissionais da informação de diversas regiões do país para a publicação na revista. Acredito que o formato da publicação, com uma linguagem mais solta e com um padrão mais flexível acaba tendo uma aceitação maior pelos profissionais. Porque, de certa forma, abarca com mais facilidade assuntos e questões que envolvem as atividades cotidianas dos profissionais da informação. 

Para quem tiver interesse em publicar algo na Revista Biblioo, fique atento as nossas diretrizes de publicação (http://biblioo.info/participe/). Temos também o nosso boletim informativo, basta assinar para receber as novidades diretamente por e-mail. 

Temos notícias que os textos publicados pela Biblioo estão sendo utilizados em sala de aula para deflagrar discussões. Isso é muito bom, pois como a maioria dos textos são opinativos, eles acabam dando brecha para o embate de ideias. O que nós queremos é a discussão. Por outro lado, esses textos podem ensejar perseguições, como foi o caso do editor Chico de Paula, que sofreu um processo disciplinar por parte do CRB7 em virtude de um editorial, de autoria dele, e de uma charge, nas quais os conselheiros enxergaram ofensas à classe. Quando da citação, o Chico argumentou pelos visíveis erros do processo, uma vez que ele estava sendo processado como bibliotecário, sendo que a função dele é de editor. Além disso, ele apontou em seu argumento a questão da liberdade de expressão, que está consagrada em nossa Constituição. Os Conselheiros se mostraram insensíveis aos apelos e acabaram o processando por unanimidade. Nesse momento, o processo se encontra na fase de recurso junto ao CFB em Brasília e temos esperança de que o quadro seja revertido. Mas advertimos que se isso não acontecer, apelaremos para a justiça comum, que é para onde o caso originalmente deveria ter sido remetido. O bom de toda essa situação é que contribuímos para uma discussão, o qual a classe não estava disposta a fazer. Além disso, angariamos a simpatia da classe para com o nosso trabalho, além de algumas desavenças, é claro.

MC: Como você avalia a formação desse profissional hoje, nos cursos de graduação?

RODOLFO TARGINO: A educação brasileira de uma maneira em geral sofre com os cortes em seus orçamentos ao longo da história. As universidades públicas, os professores e alunos estão dentro dessa lógica e sentem o reflexo dessas medidas. Atualmente, vejo que a formação dos bibliotecários está mais voltada para atender as demandas do mercado e dos concursos públicos. Mesmo com as recentes mudanças nos projetos político-pedagógico de alguns cursos de Biblioteconomia no Brasil, percebo a ausência de disciplinas com um cunho mais humanista e social no currículo das graduações. Em alguns casos, essas disciplinas, quando aparecem nas matrizes curriculares dos cursos de graduação, estão soltas e desconectadas, ou então colocadas como disciplinas optativas. 

Sinto a necessidade de termos de forma mais efetiva na grade curricular disciplinas que venham abarcar de forma mais completa a história das bibliotecas públicas no Brasil, possibilitando ao graduando visualizar e refletir a respeito de como as bibliotecas públicas estão inseridas no contexto histórico brasileiro. No meu entendimento, questões como bibliotecas escolares, públicas e comunitárias não podem continuar desconectadas e jogadas a um segundo plano na formação.

Evidentemente que uma formação não deve contemplar somente os pontos supracitados, mas no meu ponto de vista deve existir um equilíbrio para que a matriz curricular não fique atendendo somente a certos modismos e apagando o objeto principal da área, que é a cultura e acesso a todos.

MC: Na sua trajetória, o que você fez que poderia ter sido evitado ou feito diferente, caso tivesse tido o conhecimento necessário na época?

RODOLFO TARGINO: Talvez algumas decisões em relação à atuação no movimento estudantil em Biblioteconomia poderiam ter sido contornadas de forma mais simples.

MC: O seu engajamento político é inspirador. Você sente o eco de sua fala política entre seus colegas?

RODOLFO TARGINO: Considero a área de Biblioteconomia bastante conservadora em relação à discussão de alguns assuntos, principalmente à questões que envolvem a representatividade de classe. Ultimamente, as discussões estão cristalizadas e os assuntos abordados são sempre os mesmos: cobranças de taxas e anuidades. Os órgãos de representatividade agregam e divulgam suas ações para a classe de forma muito tímida ainda. 

“Você entra na universidade e só vai saber o que é um Conselho ou um Sindicato depois que você se formar ou quando chega na sua caixa de correio a cobrança de anuidade. A conscientização de classe precisa ser reforçada, os conselhos e sindicatos precisam dialogar com os futuros profissionais e nem estão fazendo o trabalho de base. “

Sinto o eco da minha fala e consigo ter um diálogo em iniciativas individuais na área. Tenho uma discussão mais sólida com os amigos que trabalham comigo na Revista Biblioo e com movimentos sociais na qual participo. Acredito que a consciência de classe na nossa área está surgindo através de iniciativas individuais ou de pequenos grupos, como é o caso do Movimento Abre Biblioteca em Manaus/AM. Também tenho muitas expectativas e esperanças com a recente criação da Associação Brasileira de Profissionais da Informação (ABRAINFO), sendo uma força para somar e contribuir de forma significativa para os assuntos que envolvem os profissionais da informação. 

MC: Suas perspectivas para a área de Ciência da Informação x público leigo. Com se dará essa relação em 5 anos?

RODOLFO TARGINO: Existem muitas discussões a respeito da falta de conhecimento e reconhecimento dos profissionais da informação por parte da sociedade. Na área de Biblioteconomia não é diferente, a figura do bibliotecário ainda é desconhecida por parte da sociedade brasileira. Evidente que essa invisibilidade envolve diversos fatores que nem sempre estão ao alcance dos profissionais. Acredito que a relação com o público leigo e com a sociedade de uma forma em geral pode mudar a partir do momento que a classe começar a ocupar alguns espaços de forma mais crítica e efetiva, como por exemplo, as políticas públicas para bibliotecas, os programas e verbas de leitura, acesso à informação, educação e cultura, entre outros. Atualmente a figura dos bibliotecários nesses espaços ainda é tímida. Falar sobre o futuro é sempre um pouco complicado, mas acredito que nos próximos cinco anos algumas iniciativas podem potencializar a relação com o público leigo. A Lei da Biblioteca Escolar (12.244/10), apesar de muito pouco ter sido feito por parte do poder público nesses três anos, pode contribuir para ter a figura do bibliotecário no início da vida escolar e como parte do processo educacional. Apesar de não possuir a quantidade de profissionais necessários para atender às demandas de escolas do país, o diálogo e até mesmo a cooperação dos professores são importantes. Assim como a regulamentação de técnicos em Biblioteconomia como uma força a mais, mesmo que essa discussão ainda esteja pautada de forma equivocada na reserva de mercado. Acredito que a atuação profissional da nova geração de bibliotecários também é um diferencial, temos belos exemplos de iniciativas dessa nova leva de profissionais.


 As opiniões dos entrevistados da Monitoria Científica não refletem necessariamente a posição da instituição.

2 comentários:

  1. Parabéns ao Rodolfo pelas belas palavras e parabéns para a equipe da Monitoria Científica pela iniciativa de construir mais este espaço de discussão. Me parece que se desenha um amadurecimento entre os bibliotecários...

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    1. Muito obrigada pela participação, professor Francisco, este é um canal de aprendizagem e compartilhamento de ideais e práticas na nossa área e áreas correlatas.

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