terça-feira, setembro 24, 2013

Bibliotecas digitais em debate



No 6º Colóquio de Bibliotecas Digitais que aconteceu na semana passada no Sesc Vila Mariana, mais uma rodada de apresentações de plataformas para oferta de conteúdos digitais. Nesta edição, foram apresentadas dois novos lançamentos no Brasil: a francesa Culturethèque e a plataforma alemã Online





A iniciativa, fruto de uma parceria França-Alemanha através do Fundos Elyseos, se concretizou com o trabalho da Embaixada da França no Brasil e o Goethe-Institut São Paulo. Como o tema “O acesso à biblioteca no clique de um mouse – a midiateca digital”, o tom foi de uma certa reverência às tecnologias de informação e comunicação de hoje, especialmente no que diz respeito à curadoria e ao armazenamento.
Anne Pasquignon e Professora Marcia Rosseto

Anne Pasquignon, diretora adjunta de coleções da Biblioteca Nacional da França, fez um panorama da situação da instituição, com mediação da professora Márcia Rosseto.  Com números vultosos: um acervo de 36 milhões de objetos (maquetes, cenários, etc.), sendo 15 milhões de impressos e 20 milhões de documentos especializados. Com um orçamento de 230 milhões de euros, que sofreu uma baixa nos últimos anos, gasta-se de 10 a 12 milhões deste montante com aquisições anuais, 130 milhões com pessoal e 20 a 30 milhões com investimentos. Tudo para atender a um público de 1 milhão de leitores em geral, dos quais 18 mil respondem por acessos ao site. Destes, 300 mil acessam mais de 1 milhão de documentos.

Depósito legal em xeque

Mesmo com recursos nada desprezíveis, apenas 4% da coleção é tratada, pois precisam de mais investimentos para darem conta de números tão astronômicos. Digitalizam prioritariamente os documentos em francês e os livros mais interessantes, política que coloca em questão o depósito legal. “Precisamos de tudo isso?”, perguntou Anne.

Bibliotecários mais perto dos leitores

A diretora também relatou os problemas de acesso físico e a preocupação em se colocar o escritório da administração juntos aos leitores para aproximar os bibliotecários de seus usuários. Anne foi clara e direta em pontuar que esta medida tem como objetivo fazer com que os leitores e usuários percebam que podem se dirigir aos bibliotecários a qualquer momento, sem receio de que possam estar atrapalhando seu trabalho.

Muitas parcerias para digitalização em massa

Indiscutivelmente, os jornais e periódicos são os itens mais acessados e há uma clara intenção em digitalizar esta parte do acervo, mas a temporalidade é um sério impedimento. Para evitar a digitalização repetida de obras, fizeram parcerias com as outras bibliotecas e adotaram o critério de disponibilizar fisicamente o material digitalizado.

Em conformidade com o contexto econômico do país

Com o Grande Plano Econômico Francês de 2008-2009, em que os esforços concentraram-se na recuperação do nível de emprego da população, entre outras medidas,  decidiu-se que a digitalização deveria permitir uma exploração econômica, a ser pautada pela relevância para um determinado público. Este fato revela uma preocupação em se atender a uma política macro de difusão cultural e econômica.

Evolução de hardware

A sensível evolução dos scanners trouxeram resultados qualitativos e quantitativos superiores, com tecnologias que permitem a varredura de objetos de abertura reduzida. Devido a este fato, itens em condições absolutamente precárias puderam ser digitalizados.

O depósito legal na internet

Para a coleta dos documentos que já nasceram digitais, os chamados digitais nativos, a dependência de arquivos digitais dos editores e os depósitos legais na internet são questões inerentes à discussão sobre como proceder para esta coleta e armazenamento. O depósito legal desta tipologia de documentos substitui o depósito em papel e a instituição administra a custódia e o acesso a pen drives e outros suportes enviados pelos editores.

Projeção para o futuro: Gallica Intramuros

A Gallica Intramuros é a projeção da instituição para os próximos anos: uma base de dados para o futuro, que coleta os documentos do depósito legal da internet que envolvem toda a produção francesa corrente na rede. É acessível apenas no âmbito da Biblioteca Nacional da França e não permite o download nem o xerox.

E projetos que não acabam mais!

Além de tudo isso, Anne ainda apresentou o Projeto Believe Digital e o Memon, para música, o Projeto Imprensa e o polêmico RELire, projeto dedicado a livros esgotados. Neste último, obras de estado são digitalizadas para uso privado, o que tem gerado muitas discussões e intenções de processos legais..


Jörg Meyer e a divibib

Jörg Meyer
Jörg Meyer, sócio executivo do grupo alemão ekz, falou em seguida em nome de uma das maiores empresas de produtos e serviços para bibliotecas da Alemanha. A ekz é um grupo de cinco empresas que preparam há anos conteúdo para bibliotecas públicas. Contextualizou então sua apresentação especificamente para bibliotecas públicas e para mídias atuais, não científicas. Objetivo, Jörg apresentou um quadro geral com gráficos claros mostrando que entre todos os produtos pesquisados na internet os livros estão em primeiro lugar e, entre os mais comprados, lá estão eles de novo: livros. “As pessoas gostam de comprar livros pela internet”, concluiu o alemão. “Portanto, o livro impresso não vai morrer”, afirmou Jörg.


Editores têm medos das bibliotecas

Além desta constatação que soa muito agradável aos ouvidos dos bibliotecários, Jörg foi mais arrojado, apresentando gráficos e números que o levaram a concluir que “os editores afirmam que têm medo das bibliotecas, pois elas podem destruir todo o negócio de e-books”, revelou. Desta forma, o executivo mostrou um sem número de possibilidades de negócios com tipos de licença de uso.

Argumentação

Para convencer os editores a negociarem com as bibliotecas públicas, Jörg tem uma forte argumentação: com mais dados e gráficos, consegue demonstrar a eles que os usuários que mais emprestam livros das bibliotecas públicas alemãs são especificamente os que mais compram livros. Ou seja, não há uma substituição, e não há filtros sociais: todas as classes entram nestas estatísticas, segundo seus dados.

Estado interventor nas políticas do livro

Segundo Jörg , a Amazon tem assumido o papel do editor, já que muitos autores estão lançando diretamente suas obras diretamente no gigante americano. A empresa também possui um sistema Premium que oferece um e-book mensalmente para seus clientes mais fiéis.
“Se os editores forem muito contra a circulação de conteúdos e acesso, a política de estado deve intervir”, afirmou Jörg.

Mercado em crescimento

Se os números são animadores na Alemanha, aqui no Brasil o mercado para livros triplicou. E para os e-books, a aceitação aumentou: 18% da população adulta brasileira consumidora de livros já compraram um e-book.

Divibib

Lançado em 2007, o projeto divibib pretende integrar até 2015 de 2000 a 2500 bibliotecas públicas
alemãs, o que será a quase totalidade do país. Batizado de onleihe, que já quer dizer “empréstimo”, a plataforma permite o empréstimo pelo smartphone inclusive, em um sistema muito similar ao site de compras Amazon. O detalhe neste serviço é que o carrinho não é um carrinho de compras e que o livros, depois de baixados automaticamente para a máquina do usuário, são “devolvidos”automaticamente na data, o que significa dizer que o arquivo fica indisponível após a data combinada de devolução, impossibilitando atrasos. Os prazos variam de 2 semanas para e-books e um dia para jornais.

Sem Justin Bieber

Pensando no papel e nas funções tradicionais das bibliotecas, o serviço não oferece músicas populares pois são facilmente encontradas pelo  público em geral. “Não temos Justin Bieber, temos música clássica e jazz”, afirma Jörg Meyer.

Fornecedor

Professor Francisco Lopes
O professor da FESPSP Francisco Lopes, presente ao evento, apontou algumas observações sobre a fala de Jörg Meyer: “Este modelo de negócios apresentado por esse fornecedor está dentro de uma lógica privada, contrapõe à visão tradicional da biblioteca compreendida como uma instituição de custódia das coleções do saber humano ao valorizar a abordagem privada em detrimento da dimensão pública da informação
No entanto, nós, bibliotecários temos que compreender os impactos ocasionados pela inserção desses novos modelos de negócios (aquisição), pois eles redimensionarão a práxis bibliotecária e as atividades da biblioteca (políticas de aquisição, desenvolvimento de coleções, acesso e uso). É necessário que os bibliotecários conheçam as especificidades desses modelos de negócios (assinaturas de e-books) para saber dizer “não” e “sim” aos editores, sempre se esforçando na tentativa de flexibilizar esses modelos de modo que contemple uma abordagem mais democrática e pública da informação. Em minha opinião a inserção do e-book na biblioteca pode ressignificar o próprio conceito de biblioteca ao redimensionar o modo como a biblioteca organiza a suas atividades e serviços para o seu público. Um exemplo desse redimensionamento perpassa pelo significado do que é “Custódia e Coleção”. A biblioteca, ao adotar os modelos de negócios de assinaturas e empréstimos de e-books, acaba diluindo os conceitos tradicionais de custódia e coleção. Bibliotecas sem coleções? Indaga o professor.

Élida Belo, aluna do oitavo semestre matutino, também tem críticas: “É muito complicado você
Élida Belo
colocar nas mãos de uma empresa privada a acessibilidade aos documentos, o conhecimento humano.”

Editores resistirão aos livros?

Na parte da tarde, o colóquio teve poucos destaques. Um deles, certamente, foi a fala do diretor da Biblioteca Pública Municipal de Munique, Arne Ackermann, com uma inteligente intervenção do professor Fernando Modesto. Em sua abertura, o professor Modesto provocou: “Se os livros continuarão a existir, as bibliotecas também, a pergunta é: será que os editores continuarão a existir?”


A importância da biblioteca pública alemã

Em sua apresentação, Ackermann apresentou os espaços físicos das bibliotecas de Munique, o acervo com arquivos do escritor Thomas Mann e os serviços da Biblioteca de Munique, como a oferta de livros em hospitais. Com um orçamento que vem de verbas públicas e fontes próprias, como a taxa recolhida por atraso na devolução dos materiais, a missão das bibliotecas públicas alemãs cerca o desenvolvimento educacional e cultural com afinco, com enfoque total na formação e ensino dos jovens. O que chamou muito a atenção foi a fala de Ackermann sobre a crucial importância da biblioteca pública alemã na vida escolar das crianças, especialmente aquelas em idade escolar. O diretor afirmou que as bibliotecas públicas alemãs são muito importantes para as escolas e as creches, e recebem um público maior que os frequentadores de jogos de futebol nos grandes estádios. “A biblioteca pública é a sala de estar das pessoas”. 

Debates sobre neo-nazismo

Entre as ações promovidas pela Biblioteca Pública de Munique, estão séries de músicas e discussões sobre o avanço do neo-nazismo, tudo com curadoria das próprias instituições. Ficou latente a liberdade e autonomia que esta rede conquistou frente à sociedade. “Na Alemanha, é contra a constituição as editoras mandarem do jeito que mandam no Brasil. Você não deve ter que pagar para ter as informações, todos devem ter direito ao acesso à elas”, disparou Ackermann.


Depois de Ackermann, uma apresentação fortemente institucional da professora Sueli Mara Soares Pinto Ferreira, diretora técnica do Sistema Integrado de Bibliotecas SIBi/USP. 
Para encerrar o colóquio, o lançamento da plataforma de cultura francofônica Culturethèque, com Guillaume Favier, do Institut Français, ou a “biblioteca digital inovadora da diplomacia cultural francesa” e suas funcionalidades e recursos online para estudantes de língua francesa ou interessados na cultura de Victor Hugo e Montesquieu.



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