sábado, maio 25, 2013

Bibliotecas em presídios: vencendo o preconceito e o medo



Em meio à discussão sobre a redução da maioridade penal, a Monitoria Científica foi buscar conhecer um pouco sobre as unidades de informação dentro de presídios. Como trabalham esses profissionais? Cátia Lindemann, estudante de biblioteconomia, desenvolve o projeto Janela Literária na Penitenciária Estadual do Rio Grande (PERG), no Rio Grande do Sul, onde oferece o acesso à leitura para a população carcerária.Cátia  é um exemplo da luta e garra dessa categoria. Acompanhe sua emocionante história:

Cátia Lindemann, 41 anos, é gaúcha da cidade de Rio Grande, RS. Morou 23 anos na cidade do Rio
Cátia posa sobre a mesa feita de livros de descarte
de Janeiro. Voltou para o sul há poucos anos para cuidar de seus pais, que necessitavam de cuidados e um olhar mais atento da única filha. Sua área de atuação sempre foi as artes, área que sempre lhe proveu o sustento para criar sozinha as duas filhas gêmeas. Cátia fazia esculturas em espuma, papel marché e papelagem.

A volta para o Rio Grande

“Logo que retornei para Rio Grande, segui no mundo das esculturas em espuma, o que por aqui era ainda inusitado e foi no pedido de um cenário em espuma para teatro que conheci uma agente penitenciária da PERG”, explica Cátia. “Foi durante a execução das peças que ela ia comentando comigo que a Penitenciária não possuía biblioteca e que os detentos não tinham acesso algum a nenhum tipo de livro.” Este foi o ponto de partida para Cátia começar a desenhar o projeto Janela Literária, uma ação para levar a leitura aos detentos daquela unidade prisional. Mas como fazer? Cátia não tinha a menor ideia. 


A combinação perfeita

Quando decidiu fazer o Enen em 2010, Cátia já tinha decidido como executar o seu plano. Tinha encontrado o que lhe parecia ser a combinação perfeita: Biblioteconomia + presos + livros. Passou na primeira chamada na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e tratou de arregaçar as mangas para realizar o que tinha arquitetado, e assim começou o seu périplo: “Tão logo comecei a cursar Biblio, fui de professor em professor do curso levar minha ideia, a qual foi rejeitada por todos...me rotulavam como louca, outros diziam que eu era uma recém chegada no curso, que deveria esperar mais...outros quando eu mencionava a palavra prisão, aí nem me davam ouvidos. Assim o tempo ia passando e eu sozinha elaborando meu projeto, já no papel e com bons argumentos, mas sem ninguém para acreditar em mim”, conta a bibliotecária.


Biblioteconomia e Sociologia

Cátia está de camiseta preta na foto à esquerda, abaixo
Foi nas aulas de sociologia que Cátia encontrou uma alma irmã para tocar o seu projeto: a professora Leni Colares havia feito seu doutorado em um presídio feminino e assim nasceu a parceria que viabilizaria todo o processo: “(A professora Leni Colares) foi a única a olhar em meus olhos e dizer: “É isso que vc quer mesmo? Então estou com você.” Ali, literalmente, o Janela Literária nasceu.” E o trabalho mal tinha começado: seguiram-se reuniões e mais reuniões para montar o projeto, um período que ficou marcado na memória da gaúcha: “Nunca escrevi tanto em minha vida...passei o período da greve das federais todo escrevendo, montando o projeto.” Depois de pronto, o projeto foi submetido à Universidade como projeto de extensão. Mas, ainda não era o esperado final feliz. Cátia ainda está cuidando aos poucos das instalações da biblioteca, acondicionada em uma cela vaga, como mostram as fotos acima. Em funcionamento, será inaugurada oficialmente agora em maio.

Aluna do 5º semestre de Biblioteconomia  da FURG, Cátia trabalha na Biblioteca Central há dois anos, no setor de Referência, e divide seu tempo entre o trabalho, o Janela Literária, as filhas e os objetos que cria com livros de descarte. Com tantas atividades, continua sonhando alto e vivendo o que considera ser a verdadeira arte: “Na minha humilde concepção, a Biblioteconomia é arte em sua essência...a arte que cria, educa e faz a mediação da informação.”

  Na entrevista abaixo, gentilmente concedida por email, Cátia explica outros detalhes do Janela Literária:

MC: Conte-nos como a ideia da leitura como processo de libertação lhe motivou a dar forma a esse projeto de reintegração social.

CÁTIA: De posse da informação de que a Penitenciária Estadual do Rio Grande (PERG –RS) não possuía biblioteca e acreditando que a leitura pudesse ocupar o tempo ocioso do preso, considerei de que modo poderia concretizar este sonho de levar conhecimento a quem não tem acesso ao conhecimento. Ora, em se tratando de cárcere, poucos, para não dizer raros, se atrevem a montar qualquer coisa neste sentido.

Então, busquei a Biblioteconomia como instrumento para realização deste projeto, afinal, na minha concepção, a Biblio lida com o tesouro mais precioso da humanidade : a informação, e dentro deste contexto estão os livros.

Tão logo comecei o curso, fui em busca de embasamento para o projeto e tomei ciência de que temos a Resolução nº 14 do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, de 11 de novembro de 1994, publicada no DOU de 2.12.1994 Titulo 1, Capítulo. XII, Das instruções e assistência educacional, art. 41, que afirma: "Os estabelecimentos prisionais contarão com bibliotecas organizadas com livros de conteúdo informativo, educativo e recreativo, adequados à formação cultural, profissional e espiritual do preso".

Bem, então utilizei o respaldo de que, por Lei, todo estabelecimento penal deveria ter biblioteca. Isso foi em 2011. Exatamente em 29 de junho deste mesmo ano foi sancionada a lei 12.433, que define como direito do apenado, além da redução da pena por meio do trabalho, também a redução da pena por meio do estudo. Descobri também que a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) pressionava a PERG para que esta fizesse esta lei, mas para tal era necessário programar o Ensino de Jovens e Adultos (EJA) dentro da Penitenciária. No entanto, o EJA colocou que só poderia estar lá mediante a presença de uma Biblioteca. Ou seja, tudo veio a somar para a realização do Janela Literária.

No entanto, passei muito tempo com este projeto em baixo do braço buscando alguém que acreditasse nele. Era necessário ser um docente da Universidade. Consegui apoio da Drª Leni Colares, professora de sociologia, que havia feito seu doutorado dentro do Presidio Feminino Madre Pelletier, em Porto Alegre. Tinha, portanto, conhecimento de causa e assim o projeto tornou-se multidisciplinar, pois estava atrelado à Sociologia e à Biblioteconomia.
Em 2012, junho para ser mais precisa, fomos até a Penitenciária apresentar nosso projeto, que foi de imediato aceito pelo diretor Guilherme Suedi Farias Ulguim. Dias depois já tínhamos um espaço disponível para a implantação da biblioteca: tratava-se de uma cela desativada. Em agosto já passamos a trabalhar naquele espaço, enfatizando que tudo que obtivemos na época foi tão somente o espaço físico e nada mais. Foi preciso ir em busca de tudo, do mobiliário aos livros.

MC: Partindo da premissa "A biblioteconomia não pode mais centrar-se como técnica, ela é também social", o que você considera como critério para entender que cada indivíduo pode virar a página em busca da liberdade?

CÁTIA: Quando escolhi o nome “Janela Literária”, foi para fazer analogia à janela da  cela do detento, seu único contexto com a liberdade,  e o que é o livro senão uma janela para o mundo? Por meio do livro o detento pode fazer seu caminho para  a porta de saída, preparando assim seu retorno à liberdade de tal forma que não precise mais voltar ao contexto da janela na cela.

Aí entra a Biblioteconomia Social, onde o profissional bibliotecário, além de  fazer a mediação da informação, torna-se também um agente de educação e cultura, indo além do cenário técnico propriamente dito e fazendo seu papel na área social. É necessário catalogar saberes a quem não os tem,  e não apenas livros.

Lá na PERG, além de classificar e catalogar os livros, nós os apresentamos aos presos, não colocamos as obras simplesmente nas estantes, nós as lemos para eles, tiramos suas dúvidas, os ensinamos a fazer pesquisa e isso é social, fazer valer o papel de mediador da informação independente do lugar ou do usuário.

Seria ingenuidade acreditar que o preso vai olhar  para o livro e simplesmente passar a gostar de ler. Os detentos gostam de fazer uso da barganha...eles agora entendem que por meio dos estudos podem ter sua pena reduzida e assim passam a se interessar pela leitura. Mas, alguns acabam seduzidos pelo habito de ler e, se obtivermos êxito com um ou dois, tudo já terá valido a pena.

MC: Quais as dificuldades que você encontrou durante o percurso? O Estado deu algum apoio para a concretização na implantação da Biblioteca?
CÁTIA: A maior dificuldade foi e tem sido a falta de verba. Ressalto novamente que tudo que obtivemos foi o espaço para implantação da biblioteca. Quando o local nos foi entregue, houve ampla divulgação na mídia¹, pois até então ninguém tinha se interessado em montar uma biblioteca na PERG.

A Fundação Gaúcha dos Bancos Sociais nos doou 5 mil livros, porém só nos foram disponibilizados 260 obras e as demais só haveriam de vir mediante a biblioteca já pronta e em atividade. A juíza da Vara Criminal da cidade, presente na entrega simbólica da chave da biblioteca, diante da imprensa, nos desafiou alegando que projetos eram belos no papel e que ela queria ver se de fato aquela ideia iria sair do papel.

Somos cinco pessoas neste projeto (várias pessoas se dispuseram a trabalhar com a gente, mas o local as assustava e acabaram desistindo no caminho): eu e mais três colegas de Biblioteconomia e a Prof. Leni Colares, da Sociologia. Temos também a participação voluntária da Bibliotecária Dóris Vargas, sem vinculo institucional algum com o projeto, que nos ajuda por amor à causa mesmo, dando-nos todo suporte dentro do processamento técnico dos livros. Fazemos tudo manualmente, pois não temos nenhum tipo de automatização...nem computadores temos, e internet lá nem pensar. Numa empreitada totalmente voluntária, sem ganhar um centavo e trabalhando em horas intercaladas com nossos trabalhos remunerados, nós olhávamos em volta daquele espaço vazio e simplesmente não sabíamos como fazer para obter a mobília sem possuir um só centavo. Enviamos o projeto para todos os órgãos governamentais e nada...tentamos a imprensa, mas depois da solenidade de entrega do local eles nem nos deram mais conversa. Então saímos de porta em porta pedindo doação do material necessário e foi assim que obtivemos as estantes, mesas e cadeiras. Todos em estado lastimável, mas era o que tínhamos. Cheguei a chorar quando vi aquele material dentro da Biblioteca, até que um preso colocou a mão no meu ombro e me disse: “Fica assim não dona, nós vamos deixar isso aí novinho.” Eles então lixaram as estantes e pintaram, pegaram as quatro mesas cheias de cupim e transformaram em duas perfeitas, adaptando o que estava boa em uma na outra.

Vamos inaugurar oficialmente a Biblioteca, agora, no dia 28 de maio. Extraoficialmente, ela já está em funcionamento, já emprestamos livros aos detentos, fazemos leitura com eles, bem como outras atividades as quais já mencionei.

Passamos por vários sufocos em relação ao planejamento físico da biblioteca, pois existem as regras que se aprende na teoria, mas dentro da prisão é necessário “adaptar e muitas vezes reinventar as regras” da biblioteconomia, ou seja, tudo que nos é ensinado durante nossa formação passa por adequações. Lá dentro as estantes deviam ficar na vertical, assim as obras não pegariam sol, que vem das janelas gradeadas ao alto da parede, porém nos foi colocado que devemos manter sempre contato visual com o preso e tivemos de coloca-las na horizontal. As obras devem passar por um crivo minucioso, nada de livros de química, leitura que possa incitar violência ou fornecer informação que não lhes cabe, como foi o caso de um livro cujo nome era A construção de tuneis (dá pra entender o motivo né? rs).

Ontem, dia 16, o Janela Literária finalmente obteve verba, mas a mesma só há de vir em 2014. Nossa esperança é que, depois da inauguração oficial, possamos obter estantes decentes, as quais não precisaremos ficar alternando o peso dos livros com receio que as mesas caiam sobre nós; que o restante dos livros possam vir e, por fim, que fique explicitado que nosso projeto não ficou no papel.

MC: Qual foi a reação dos encarcerados à primeira vista? Houve alguma resistência? 

CÁTIA: Quando chegamos à PERG, os detentos nem nos olhavam. Existe uma regra na prisão em que, ao passar por nós, o encarcerado deve olhar para parede ou baixar a cabeça. Aos poucos, íamos nos familiarizando, alguns deles foram recrutados para nos auxiliar no que precisássemos, como descarregar caixas de livros, manutenção do espaço onde várias janelas estavam quebradas, não havia luz. Certo dia, eu perguntei para um detento que nos ajudava qual era o nome dele...ele respondeu timidamente que era “João” , e então argumentei que ele podia olhar pra mim, ele o fez sorrindo. Na hora de ir embora eu estendi minha mãe para despedir-me dele e de modo imediato ele soltou: “Nem lembro a última vez que alguém apertou minha mão dona...estou aqui há 13 anos e minha família já desistiu de mim.”  No dia seguinte ele voltou e pegou um livro de cabeça pra baixo...eu fingi que não vi, mas ele mesmo observou que a gravura da capa estava invertida...ele me fixou nos olhos e disse:

“Já estou matriculado no EJA, ainda vou entrar aqui e pegar um livro direitinho, pois depois que passei a trabalhar aqui na biblioteca com vocês, me deu muita vontade de sair lendo tudo que tem aqui nestas estantes. Aqui dentro a hora não passa, quem sabe lendo a gente não sinta tanto isso.”

MC: Algum conselho aos leitores do blog da Monitoria Científica?

CÁTIA: Jamais desistam de seus ideais. Sonhos começam a ser realizados no exato instante em que você acredita neles. Se todos caminharem na direção norte e você for junto porque é mais fácil, então você será apenas mais um...mas, se rumar para o sul, onde o caminho é complicado e desafiador, mesmo sendo  minoria, você certamente será e fará a diferença. Digo isso porque quando resolvi ir em busca de alguém no meio acadêmico que acreditasse no projeto, ouvi inúmeros conselhos do tipo: “Vá levar leitura para as crianças nas Bibliotecas Escolares de bairros carentes”... “Há tantos outros lugares necessitando de projetos, cadeia é coisa de louco.”
Continuo certa de que valeu e vale cada percalço que encontramos no caminho, isso apenas dá veracidade ao nosso sonho, hoje realidade. 
O termo Biblioteconomia social é pouco usado, mas dentro da atualidade não há mais como aceitar o papel do bibliotecário apenas como documentalista tão somente técnico.
Quem sabe poderíamos acrescentar mais uma lei dentro das “Cinco Leis” de Ranganatham: “A cada usuário a sua Biblioteca”...


A Sociologia, de mãos dadas com a Biblioteconomia, podem se constituir em ferramentas importantes dentro do sistema carcerário, na medida em que auxiliem os gestores a programar espaços educativos nos quais os presos possam canalizar suas energias e encontrar alternativas para ampliar sua educação formal, colocando-se, por esta via, em melhores condições para o retorno à sociedade extramuros, além de alterar a rotina intramuros.

Dados Referenciais do Projeto:
Projeto de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande - FURG
“JANELA LITERÁRIA: A Biblioteca no Contexto Carcerário.”
Coordenadora Resposável: Prof. Drª Leni Colares
Autora: Catia Lindemann
Bibliotecária Voluntária: Dóris Vargas
Integrantes: Catia Lindemann, Madalena Monte, Andreia Gimenes e Elisabete Pacheco.
Local: Rio Grande – RS
Endereço da Biblioteca: Penitenciária Estadual de Rio Grande. BR 392 - KM 15 - Vila da Quinta
Administrador: Guilherme Suedi Farias Ulguim.
 




 

4 comentários:

  1. Parabéns,Catia. É disso que precisamos: bibliotecas para leitores em potencial, em qualquer hora, tempo, espaço. A função social da profissão precisa ser reiterada, sempre. Seu trabalho dignifica a profissão.

    ResponderExcluir
  2. É isso mesmo, Samuel, temos o dever de oferecer uma contribuição social. Obrigada pela sua mensagem, continue acompanhando o blog da Monitoria!

    ResponderExcluir
  3. Estou extasiada diante de tanto amor ão próxim.

    ResponderExcluir
  4. Sou aluna de Biblioteconomia e assim como a Cátia, pretendo trabalhar com detentos, e encontrei no projeto dela força para levar minha ideia adiante. Parabéns

    ResponderExcluir