terça-feira, maio 07, 2013

Os tipos de usuário-leitor e os processos de mediação como compromisso do profissional da informação








Para melhor atender a seus usuários, o profissional de informação também deve ser sensível às características dos estágios mentais do seu leitor-usuário. Samuel Frison explica no artigo abaixo como identificar variados tipos de leitores para prestar um atendimento mais eficiente: 











         Muito se tem discutido sobre as transformações ocorridas nos suportes de leitura, incluindo a transformação das bibliotecas e o questionamento de sua função enquanto prestadora de serviços de caráter cultural e educacional. De todas as teses defendidas até o momento sobre o futuro dos livros e das bibliotecas, fico com a professada por Robert Darnton, em A Questão dos Livros (2009, p. 16): “bibliotecas sempre foram e sempre serão centros do saber. Sua posição central no mundo do saber as torna ideais para mediar os modos impressos e digital de comunicação. Livros também podem acomodar os dois modos. Impressos em papel ou armazenados em servidores, eles corporificam o saber, e sua autoridade deriva de algo que excede a mera tecnologia.”  A partir do professado pelo historiador, fica a interrogação: como os bibliotecários devem ser preparar para atender os diferentes tipos de usuários? A resposta mais evidente para essa questão é a de que todos os tipos de usuários devem ser atendidos pelo bibliotecário. No entanto, no painel de tantas mudanças e coexistências, há de se projetar a identificação do comportamento do leitor para a excelência do seu atendimento, tendo em vista assim conhecê-lo enquanto perfil cognitivo.

            Sendo o usuário um leitor, agregam-se a esse ensaio os trabalhos desenvolvidos por vários semioticistas que buscaram através da cognição mapear os estágios mentais do leitor-usuário, identificando seus comportamentos diante de obras documentais e livros considerando seus respectivos suportes. Lúcia Santaella, em seu livro Navegar no Cyberespaço – o perfil cognitivo do leitor imersivo (2007) traça importante configuração para entender o comportamento dos leitores em sua interação com a informação-conhecimento. Ela os caracteriza em três tipos: o contemplativo, o movente e o imersivo. A seguir, o detalhamento de cada um e sua importância para a execução de um trabalho em biblioteconomia que não exclua qualquer forma de seleção, catalogação, preparo e disposição, sejam elas físicas ou virtuais por parte de seu agente, o bibliotecário.

            O leitor contemplativo é aquele que apresenta comportamento meditativo, capaz de se debruçar por horas diante de um livro de palavras fixas. É o leitor da história, da literatura, das ciências naturais, enfim o professor, o pesquisador, o intelectual, que trabalha com informações precisas, narrativas contínuas que se contiguam e interdependem. Seus olhos passeiam pelas linhas do livro em sentido atento, progressivo, cada parte faz com a sua anterior uma sequência de entendimentos e configurações, dando sentido ao ato da leitura como em entendimento, prazer, compromisso. 

            O segundo tipo identificado é o movente, leitor que surge a partir da Revolução Industrial e da migração dos campos para o surgimento das grandes cidades como grandes centros da cultura e da modernidade. Ele é movente porque pode absorver diferentes signos. Ele não lê apenas palavras, mas procura o deciframento de imagens, fotografias, filmes que podem ou não complementar as palavras. Absorve tudo que a metrópole tem a oferecer por isso imagens e palavras se configuram como desafio para sua compreensão. Nesse contexto surge a leitura de profissionais como os jornalistas, publicitários, fotógrafos, cineastas, artistas plásticos especializados, entre outros. Esses leitores-usuários compreendem diferentes signos, “saltam” sobre imagens, sons e palavras com desenvoltura em intersemioses. 

            Por fim temos o que Santaella caracteriza como leitor imersivo. Ele se caracteriza a partir do surgimento dos suportes tecnológicos mais elaborados, princi-palmente a web 2.0. Os anos noventa e a virada do século XXI foram decisivos para a formação desse leitor principalmente a partir da denominação “nativos digitais” em contraposição aos “migrantes” que também podem ser imersivos, uma vez que se adaptam. O que caracteriza esse leitor é a possibilidade pelo suporte da tela para abrir variadas abas e assim ler simultaneamente tudo ao mesmo tempo. Pela internet pode acessar e abrir sítios, obter a informação de forma rápida, não menos precisa. No entanto, sua capacidade para memória de longo prazo é frágil diante da quantidade de informações que recebe em tempo mínimo. Não há uma leitura verticalizada ou especializada, mas sim imersiva, horizontalizada, veloz pela possibilidade de acessar inúmeras fontes simultâneas que passeiam pela tela. 

            A importância dessa caracterização para os bibliotecários é a premissa de que nenhum dos tipos de usuários-leitores deve ser desprezado, bem como sua forma de acesso a informação e conhecimento. Necessita-se assim apropriar-se de qualquer ferramenta de busca, tendo em vista o objeto ou forma de recuperação pretendida pelo usuário em suas características por excelência. Por isso o passado das práticas em biblioteconomia não deve ser desprezado, nem o futuro minimizado porque o que tempos no presente é a coexistência de todos os tipos de usuários em suportes variados. Uma questão importante acrescentada por Santaella é que esses perfis não se opõem, pelo contrário, se complementam pelos chamados migrantes digitais. Num único usuário pode-se ter os três tipos de leitores simultaneamente: o contemplativo, o movente e o imersivo. Para os bibliotecários é importante conhecê-los e superar o paradigma de que nossa função termina com o processamento técnico. Há um além a oferecer na mediação entre o que se deseja e o disponível. Essa mediação é um passo decisivo para que sejamos reconhecidos como profissionais da informação pela comunidade de usuários-leitores.

            O Brasil é um país carente em termos de acesso ao letramento. Somos embotados diariamente por imagens e outros signos. No entanto a tecnologia ainda é restrita e custa caro se comparada aos padrões internacionais. Ainda não superamos nossos altos índices de analfabetismo. Diferente de outros países, o Brasil precisa de mediadores para contribuir com a disseminação, tanto da informação, quanto da diversidade cultural. A biblioteca é um lugar ainda a ser descoberto e o bibliotecário tem muito a contribuir nesse processo. Falar em uma realidade é quase impossível. Por isso melhor falar em “realidades”. Essa pluralidade exige desde a ficha catalográfica até a compreensão de um sistema operacional complexo. Chartier (1988, p. 153) elaborou com muita lucidez a epifania de nossos tempos: “A biblioteca eletrônica sem muros é uma promessa do futuro, mas a biblioteca material, na sua função de preservação das formas sucessivas da cultura escrita, tem ela também, um futuro necessário.” 

           
Referências Bibliográficas

CHARTIER, Roger. A aventura do livro do leitor ao navegador. São Paulo: Unesp, 1988.
DARNTON, Robert. A questão dos livros – Passado, presente e futuro. São Paulo: Cia das Letras, 2010.
SANTAELLA, Lúcia. Navegar no ciberespaço – O perfil cognitivo do leitor imersivo. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2007.





Samuel Frison é aluno  do 1º Semestre Matutino do Curso de Biblioteconomia e Ciências da Informação da Fesp-SP. Mestre em Letras pela UFRGS e Doutorando em Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRGS.


           

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