sexta-feira, maio 10, 2013

A discussão sobre a redução da maioridade penal: o que os bibliotecários têm a ver com isso?



Professor Ivan Russeff



Já faz algunas semanas, o debate sobre a redução da maioridade penal segue quente na grande mídia. O que está por trás desta questão que interessa aos bibliotecários?
Para fomentar a reflexão, o professor Ivan Russeff falou sobre o assunto para a Agência FESPSP, acompanhe:







Da Agência FESPSP

Juventude expurgada: eles são feios, sujos e malvados


03/05/2013 


O clamor egocêntrico pela diminuição da maioridade penal é uma clara demonstração de quanto uma parte da nossa sociedade não tem a compreensão do problema da criminalidade praticada pelos jovens, explica o professor Ivan Russeff, pós-doutor em Educação.
 
Para o docente, a diminuição da maioridade penal como parte da sociedade defende não vai resolver o problema da criminalidade e da violência praticada pelos menores de idade.
Professor Ivan participa da ação Literatura Espalhada, em 2010

Segundo o professor, imputar ao jovem, que não tem a sua formação completamente desenvolvida, toda responsabilidade por seus atos é eximir o Estado por sua falha com políticas públicas ineficientes e absolver o “mercado” que subverte valores morais e éticos da juventude.
Ele alerta que este posicionamento reacionário que parte da sociedade está defendendo pode comprometer o futuro dela e lembra que a culpabilização dos jovens sempre foi uma prática das sociedades conservadoras.
Apesar da educação ter um papel importante, o docente diz que não é a única solução, principalmente se considerarmos a qualidade e o tipo de conteúdo oferecido nas escolas que se preocupam, quando conseguem, em prepará-los para o vestibular ou para o mercado, e não para cidadania.
O educador acredita que é preciso acolher os jovens, formá-los para vida, dando responsabilidade e impondo limites, e mostrando o que acontece quando esses limites são ultrapassados, mas o problema está nesta linha divisória, e a sociedade tem sua responsabilidade quando ela mesma não a respeita, o jovem só reflete os valores que esta sociedade pratica.

Leia mais sobre este assunto e ouça a entrevista com o professor Ivan Russeff na íntegra aqui.

Opinião

E os bibliotecários com isso?

A função social da Biblioteconomia aparece bastante nesta questão. Os tentáculos do acesso à livros, gibis, ou outros materiais de conteúdo  que possam interessar a um jovem “feio, sujo e malvado” partem do bibliotecário que tem um olhar atento à necessidade daquele jovem. Se há o equipamento na região, o convite fica mais explícito: “venha para a biblioteca”. Mas, tem que vir acompanhado de um corpo-a-corpo, uma luta de video-game para se mostar mais interessante que o mundo extasiante do tráfico e do crime. Porque a escola, esta já ficou para trás há muito tempo. A família nunca existiu. Quem quer entrar nesta batalha?  Parece uma batalha perdida, mas muitos direitos, como o de ir e vir,  as escolhas, o encontro, o olho no olho, ainda estão preservados.

Mas, e quando o jovem já está em uma casa prisional?

Em seu site, a Fundação CASA afirma que oferece cursos de educação profissional  variados, com
Jovens da Fundação CASA recebem o treinador Tite
uma formação abrangente, aos meninos internos que têm de 12 a 21 anos. Entre os cursos, está o de arquivador, dentro da área administrativa. Não há nenhuma menção à biblioteca ou atividades correlatas. Sabemos que elas existem nas penitenciárias de todos os tipos, dentro de variados programas de re-inserção social do presidiário. As chamadas “universidades do crime” têm bibliotecas, mas por que a instituição que deve aplicar “medidas socioeducativas de acordo com as diretrizes e nomas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ” não mostra suas bibliotecas e seus serviços de re-inserção por meio do incentivo à leitura e à convivência? 

O  artigo 71 do ECA é claro: “a criança e o adolescente têm direito a informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.” 

Defender o direito à infomação de todos, inclusive dos jovens “feios, sujos e malvados” é competência do bibliotecário, sim. Ter atitude para se comprometer a ajudar a mudar uma realidade desacreditada por todos é opcional.

2 comentários:

  1. Parabéns ao professor Ivan pelo artigo. Sensata reflexão sobre como a sociedade faz para se eximir de seus problemas. Exemplos como o ilustrado demonstram que há muitas coisas a fazer, mas gente que está contribuindo para reverter esse quadro. Destaco o papel do bibliotecário como fundamental na promoção de ações culturais que tragam os jovens para dentro das bibliotecas.

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  2. Isso mesmo, Samuel, como bibliotecários temos que trabalhar para envolver os jovens em ações promotoras de reflexão e acesso ao conhecimento. Obrigada pela sua mensagem, continue participando do Blog da Monitoria.

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