domingo, abril 27, 2014

Coluna Música e Livros por Bruno Carvalho

Bruno Carvalho, ex-aluno de Biblioteconomia da FESPSP, começa hoje com uma coluna que fala a respeito de bandas e o que elas leem, mostrando que musica e livros podem ter tudo a ver!

A Finis Africae surgiu em uma época que Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial dominavam o espaço na cena do rock brasileiro. Após o sucesso de "Armadilha" nas rádios, no ano de 1986, a banda continuou o caminho e conseguiu colocar no mercado um LP homônimo. O Finis Africae encerrou as suas atividades em 2002.

Eduardo de Moraes – Vocalista da banda Finis Africae.

1)      Eduardo quando você decidiu ser músico? Tocou em outras bandas antes do Finis Africae?  Porque foi morar em Brasília?
Minha ida para Brasília se deve ao fato de meu pai ter sido funcionário público e foi transferido do Rio de Janeiro para lá. Nos dois primeiros anos que morei lá, 78 e 79, estudei violão clássico, parei quando entrei para faculdade e fui morar em Minas Gerais (Viçosa). Em 1983 estava de volta a capital estudando Engenharia Agronômica na Universidade de Brasília. Loro Jones, que já era guitarrista do Capital Inicial, morava próximo a UnB e eu também. Nos conhecemos e frequentávamos os mesmos bares e festas e tínhamos uma turma de amigos em comum. Numa vez num final de noite comecei a cantarolar e o Loro falou que eu deveria aproveitar a voz que tinha e montamos um grupo (Virgens) onde ele tocava baixo, José Flores (Finis Africae) tocava guitarra e Alessandro Bambino (Escola de Escândalos) tocava bateria. O grupo durou uns três meses e fizemos duas apresentações, uma numa festa de uma amiga e outra no Teatro Escola Parque abrindo paro o Zero e Capital Inicial.

2)      O  Nome Finis Africae foi tirado do livro "O Nome da Rosa" e significa "nos limites da África", assisti ao filme e percebi que se trata da área de acesso proibido ( livros proibidos).
Exatamente

3)      Qual a influência literária nas  letras do Finis Africae? Que livros e autores influenciaram a banda na década de  80?
Líamos muito. A maioria do pessoal era universitário e Brasília propicia a leitura graças a falta de opções de lazer que se juntava a nossa falta de grana e nos colocava rumo a biblioteca. Trocávamos livros de todos os tipos, biografias, romances policiais, roteiros cinematográficos, peças teatrais, poesia, enfim,... Na década de 80 e especificamente eu e Neto (baixista do Finis) curtíamos muito os Beatnicks: Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Charles Bucowsky, John Fante entre outros. Entre os nacionais destaco Rubem Fonseca, Ignácio de Loylola Brandão e João Ubaldo Ribeiro. Além do Nome da Rosa de Umberto Eco posso citar como boas lembranças títulos como: O sorriso do lagarto (João Ubaldo), Pergunte ao pó (John Fante), Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (Rubem Fonseca), Obras completas (Oscar Wilde).

4)      Tem alguma música sua que fala de algum livro? Ou alguma música que tem trecho de livros?
Pergunte ao pó deu nome a uma música do Finis. Usamos o título original em inglês: Ask the dust e a letra narra um evento que acontece no livro.

5)      O que está lendo atualmente?
Estou lendo A condessa de Barral de Mary del Priori e estou gostando.

6)      Como era o seu convívio com o pessoal das outras bandas de Brasília nos anos 80? ( Capital Inicial, Plebe Rude e Legião Urbana), Renato Russo, Dinho Ouro Preto, etc...
Era muito legal. Brasília tinha um ar bem interiorano naquela época e haviam diversos pequenos grupos sociais que as vezes se viam juntos em festas e shows principalmente. Renato sempre foi muito reservado, saía pouco e gostava de reuniões sociais com pouca gente, mas era um ótimo anfitrião quando se dispunha a receber visitas. Também foi muito solidário. Antes dos Virgens, tive um grupo chamado Objetos Oblíquos e Paulo Paulista que tinha sido anteriormente do Aborto Elétrico tocava teclado. Faltava um amplificador de guitarra para ensaiarmos. Paulo ligou para o Renato que disse que eu poderia passar lá e pegar o dele na condição de deixar lá novamente depois do ensaio e assim foi feito. Esse tipo de coisa rolava muito entre os grupos. Outro hábito típico desse tempo era fazermos visitas a amigos que possuíam uma boa discoteca munidos de fitas cassete para fazermos cópias. André Muller (Plebe Rude) que o diga, mas havia a turma da Escola Americana da qual Felipe Seabra (Plebe Rude) fazia parte que sempre apresentavam grupos novos e novos discos de grupos já conhecidos. Nesse tempo eu não era muito próximo do Dinho, conversávamos e tal, mas viemos a nos aproximar mais depois que saímos da capital.

7)      Quais as melhores lembranças da época de Brasília?
Sem dúvida as festas e os shows eram legais, mas também gostava dos festivais de cinema, dos passeios de bicicleta, tardes nos clubes a beira do Lago Paranoá e o céu no pôr do sol.

8)      Li que a cena de rock  de rock de Brasília na década de 80 era diferenciada da cena de São Paulo e Rio de Janeiro, porque as bandas foram mais unidas, começaram junto, todos cantavam com todos, o Dinho fala muito isso nas entrevistas dele...
São Paulo e Rio são cidades mais cosmopolitas. Você se desloca mais facilmente usando transporte público o que era praticamente impossível lá em Brasília. Isso faz com que as pessoas transitem mais em meios sociais diferentes e se tornem mais ecléticas e independentes socialmente. Brasília era a junção de diversas panelinhas onde você só entrava quando convidado por algum membro do grupo. E nem todos que gostariam de participar desses grupos (panelas) eram convidados. Havia muita solidão. Por outro lado uma vez dentro as pessoas se visitavam mais, se telefonavam mais, enfim conviviam mais. Pesa também o fato de que a maioria das pessoas que estavam lá, não eram de lá e isso faz com que você invista em criar um círculo de amizades.

9)      O Finis Africae ainda está em atividade?
O Finis Africae encerrou as suas atividades em 2002. Depois disso me envolvi em alguns poucos projetos musicais, sendo que retomei um deles o MIX 80, que é um grupo que toca músicas dos anos 80. Junto com esses músicos fiz um show chamado: Eduardo canta Finis, que até agora só foi apresentado uma única vez num Teatro aqui do Rio no ano passado, contando com a participação de Cezar Ninne (ex-guitarrista do Finis), Marlelo Hayena (Uns & Outros) e Bruno Gouveia (Biquíni Cavadão).

10)  Eduardo, fique a vontade para indicar alguns livros aos leitores do blog.
Grandes Esperanças - Charles Dickens
Guia politicamente incorreto da história do Brasil - Leandro Narloch
 1808 - Laurentino Gomes


Colaboração na matéria: Eduardo de Moraes

Finis Africae em Brasília na W3 Norte, na sala de ensaio no Prédio Radio Center. 

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