domingo, dezembro 24, 2017

Série: Era Uma Vez... Por Gabriel Justino de Souza.

Falar sobre sonhos é sempre muito prazeroso, pois envolve desejos, planos e metas que muitas vezes norteiam nossas vidas. E é notável que no final do ano esses pensamentos só aumentam, afinal, um novo ano está para se iniciar e com ele novas possibilidades.

É nesse clima que o Gabriel Justino (recém formado \o/), nos traz o seu último conto e que não poderia tratar de outro assunto senão, Sonhos

Aproveitem essa linda história e se inspirem ;)


Fonte: Freepik.


Sonhos (Parte 3)

Sei que faz um tempo que ando sumida e peço perdão por isso, mas as coisas não têm sido fáceis, nossos sonhos não são fáceis de serem alcançados, mas quando o conseguimos, é a melhor sensação do mundo, como quando chegamos ao topo da montanha e contemplamos a vista e percebemos que toda aquela escalada e jornada árdua valeu a pena.

Uma semana! Era tudo o que eu tinha para selecionar uma música, escolher apenas um trecho, e participar da audição individual para conseguir ingressar no Instituto de Dança Anna Pavlova. Gente que desafio, vocês já tentaram desenvolver uma coreografia de no máximo 2 minutos? Não é fácil não, primeiro você tem que escutar com atenção e imaginar quais os movimentos que se encaixariam naquele determinado trecho, aí você cria uma, duas, três, quatro sequências e percebe que se passaram apenas dez segundos, Nossa Senhora das Bailarinas Aflitas, me ajude a criar estes passos neste momento de desespero. Ainda bem que tenho o Kaká e a Marina ao meu lado para me ajudarem durante esse período.

Quando falamos de sonhos, as vezes esquecemos de compartilhar as dificuldades e lutas que passamos para alcançá-los, sempre sonhei em ser uma bailarina e sabia que o caminho não seria fácil, por isso, assim que Kaká, Marina e eu, chegamos do Instituto, sentamos para definir qual a melhor estratégia para que eu me saísse bem na audição. E foi definido o seguinte: eu teria que acordar as 05:30 da manhã treinar até 12:00, com um descanso de uma hora e depois treinar a música escolhida até as 22:00 da noite.Só que eu ainda tinha um problema: a música. 

Que música escolheria?Tinha que ouvir algumas, quando finalmente achei a música certa, era uma música que quando começava a tocar a celesta e o clarinete baixo, eu me sentia livre, já não me prendia mais no chão, meus pensamentos voavam criando os passos, assim como um lindo cisne que voa e pousa graciosamente sobre a superfície da água, a música escolhida foi um trecho do ballet “O Quebra Nozes” do “Tchai quem”, brincadeira, do Tchaikovsky, o trecho que escolhi foi o da Fada Açucarada.

Sabe qual era a parte mais difícil? Isso mesmo, acordar as 05 da matina, aí você deve se questionar, mas Sophi você não acorda às 05:30 para treinar? Infelizmente tenho que acordar um pouco mais cedo para me despertar e fazer alguns exercícios, se não iria acordar e não conseguiria me dedicar cem por cento a dança. O primeiro dia foi um dos mais difíceis, quando levantei parecia uma bailarina zumbi, mas a Marina me ajudou preparando a minha roupa do ensaio e Kaká já havia preparado meu café da manhã.Tenho que confessar uma coisa, nunca pensei que meus primos me ajudariam tanto, acho que antes de eu acreditar em mim mesma, eles acreditaram que eu era capaz e sempre me falavam isso, eles são meus irmãos que levarei para o resto da vida. Não sei o que seria da minha jornada sem eles. Chega, estou muito sentimental, como devem perceber. 

Me habituei a rotina no segundo dia de treinamento intenso, Marina e Kaká me ajudaram a corrigir a postura:

— Sophi, fique na ponta dos pés, olhe um pouco mais para cima.
— Mantenha a postura prima, Kaká tem razão, eleve um pouco a cabeça.

E assim as horas passavam, e eles iam me instruindo a seguir o ritmo da música, com a ponta dos meus pés e que eu deveria manter a minha postura, mesmo com o cansaço deveria manter o sorriso nos lábios, que deveria pular e ao aterrissar precisava parecer uma pena graciosa caindo sobre a água sem fazer ondulações. 

Nossa eram tantas dicas e correções que não sei como não me perdi, mas quando fazemos aquilo que amamos, nada mais importa, aquilo te torna melhor, uma pessoa melhor, um mundo no qual você entra e sente que o transforma por simplesmente estar ali e que pode transformar a vida das pessoas quando elas deixarem ser tocadas por essa sensibilidade, de alguma forma eu sentia que podia expressar isso, meus pés doíam, claro que sim, mas eu não ligava, quando olhava para os meus primos e via o sorriso e olhar de orgulho deles ao sentirem as emoções que passavam com aquela simples dança, eu me alegrava ainda mais e esquecia o cansaço e minhas energias eram renovadas e continuava a me dedicar sem parar.

A semana passou e o dia do teste estava chegando, eu andava muito nervosa pois não sabia como os jurados iriam me avaliar, foi um misto de sentimentos: apreensão, nervosismo, medo, euforia, alegria e principalmente saudades, mesmo sendo tão bem cuidada pelos meus tios e meus primos ainda sentia um aperto no peito quando me lembrava de minha mãe e do pai que estavam lá naquela cidadezinha do interior, consegui matar um pouco da minha saudade quando recebi a ligação de mamãe um dia antes do teste:

— Ohhh minha filha, que saudades eu tenho, de vê-la fazendo suas estripulias aqui em casa. Sei que amanhã é o grande dia e também sei o quanto você é capaz de conseguir essa bolsa e aprimorar seus talentos, saiba que gostaria muito de te acompanhar e de te abraçar quando receberes a notícia que foi aprovada, mas você sabe das nossas condições e que nem eu e nem seu pai poderíamos ir para a cidade grande agora. Sophia minha menina, estou tão orgulhosa de você, cresceu tão rápido que se transformou numa adulta tão linda, em todos os sentidos. Boa sorte minha filha e reforço mais uma vez para que você nunca se esqueça: te amo. Eu e seu pai te amamos e lembre-se que nossos corações estarão onde você estiver.

Eu não conseguia nem falar e responder minha mãe, as lágrimas escorriam pela minha face, enquanto ouvia o apoio que ela e papai me davam. Isso sem dúvidas só renovou minhas energias para o dia tão temido do teste. Gostaria que ela estivesse aqui, mas como ela não poderia, tinha que me contentar com aquela ligação. Iria mostrar para os jurados como é que se dança com o coração.

O dia finalmente chegou, e para não passar o que passei na última vez, me programei melhor, caso a luz acabasse eu tinha um carregador portátil de emergência, estou prevenida agora. O despertador tocou, o dia já começava a despontar junto com minha ansiedade, tomei um banho me arrumei e fui para cozinha tomar meu café da manhã junto aos meus primos que já me esperavam. Seguimos em direção ao ponto de ônibus para chegar ao Instituto, mas como diz o ditado: “estava bom demais para ser verdade”, o ônibus demorou muito e quando veio, estava lotado. E mais uma vez as minhas peripécias na cidade grande recomeçavam, eu quase atrasada pela demora do ônibus me vi socada nele, cheio de gente, mas olhei pelo lado bom

— Prima, sabe qual é a melhor coisa desse ônibus lotado?
— Não.  — Respondeu-me Marina.
— Não preciso fazer os exercícios de alongamento, já que estou a fazer neste momento.
Aquilo parecia um exercício de yoga, nunca tinha entrando num ônibus assim, mas fazer o quê? É a vida. Nem o vendedor dos salgadinhos Mimi, conseguiu entrar dessa vez. Pelo menos não passaria mais vergonha com os vendedores ambulantes. Foram uns 30 minutos naquele aperto, até chegarmos ao nosso ponto e caminhamos rumo aquele fantástico prédio.

Em frente ao prédio se encontra uma fonte com água jorrando, lindo de se ver, a fachada do prédio tem imensas colunas em estilo coríntio, ao adentrarmos encontramos o hall principal com um pé direito muito alto e uma escada de mármore que nos levam até as salas de aula, e foi em uma dessas salas que ocorreu meu teste, poderia ficar horas descrevendo a beleza e imensidão desse lugar, mas creio que nem eu mesma vi tudo ainda. A sala era linda, o chão revestido de madeira com tratamento especial para que não tropeçássemos, as paredes cobertas por espelhos e em frente a eles, barras para que nos apoiássemos. Quase cheguei atrasada, mas tinha que manter minha postura desde agora frente aquelas figuras que já estavam sentadas na mesa de avaliação.

— Você deve ser a Sophia. O que preparou para nós?
— Bom dia, eu preparei um trecho do ballet “O Quebra-Nozes” de Tchaikovsky, que é o trecho da Fada Açucarada.
— Muito bem Sophia, você tem até dois minutos para se apresentar e para que nós a avaliemos.

Respirei fundo. Olhei para a porta que estava fechada e imaginei Kaká e Marina torcendo por mim. Foi quando a celesta começou a tocar e me coloquei na ponta dos pés que me dei conta de que meu corpo já estava embalado e sendo levado pela música. Só conseguia me lembrar de cada passo ensaiado durante horas a fio, cada ponta de pé, cada giro que dava, cada vez que movimentava minhas mãos. Já não era eu quem dançava ali, mas meu coração comandava a sincronia das batidas com cada movimento preciso que eu dava, neste momento até esqueci que estava sendo avaliada, simplesmente dancei e tentei expressar meus sentimentos ali. Quando terminei os jurados me pareciam sérios, mas ao mesmo tempo satisfeitos, foi então que aplaudiram minha performance.

— Parabéns Sophia, nós três avaliamos você, e vemos que você tem talento. Um diamante bruto a ser lapidado. É com enorme prazer que informamos que você está aprovada no teste de dança e vai ser uma honra tê-la como uma de nossas alunas. Seja bem-vinda ao Instituto de Dança Anna Pavlova. 

Saí sem chão de lá, e encontrei Kaká e Marina sentados quando dei um pulo de alegria e informei que tinha passado. Pulamos juntos, ligamos para os meus tios, para os meus pais e informamos que eu tinha ido muito bem no teste e que faria minha matrícula daqui alguns dias. E foi o que fiz passado alguns dias, e estou nessa loucura de ensino integral me dedicando aquilo que eu mais gosto que é dançar.

Sabe uma vez eu ouvi dizer que um sonho pode ser alcançado quando nos dedicamos para que isso aconteça, se não ele permaneceria apenas um sonho, destinado a ser remoído na minha cabeça e nas minhas lembranças. A dança me faz acreditar que o sonho de me tornar uma bailarina e brilhar nos palcos dos grandes teatros do mundo, mesmo que distante, era possível.

Nunca desista de seus sonhos, afinal, são eles que nos movem, eles que nos fazem ser quem somos. Se você se dedicar aquilo que você ama com certeza, seus sonhos serão alcançados. Ainda tenho muito o que treinar para me tornar uma bailarina profissional e chegar em uma companhia de dança, mas essa é uma outra história, porque terei um longo caminho para percorrer e chegar lá. Nos vemos por aí, pelos palcos, pelos teatros, pelas ruas da cidade e quem sabe você não me vê ingressando na companhia de dança. Até lá, terei outras história e peripécias para te contar. Mas por enquanto fica meu abraço para todos vocês que me acompanharam. Beijinhos e abraços de sua querida Sophia.


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