sexta-feira, abril 26, 2013

A Comunidade e as Bibliotecas: Carol Brey-Casiano


Carol Brey-Casiano
Inédita parceria entre o Consulado dos Estados Unidos e a FESPSP trouxe a palestra “ Bibliotecas e a comunidade”, com Carol Brey-Casiano, Diretora Regional dos Centros de Informações e Pesquisas das embaixadas dos Estados Unidos no Brasil, Colômbia, Paraguai e Venezuela, junto ao Departamento de Estado Americano.











Na apresentação, Carol Brey fez uma abordagem mais prática do tema, levantando questões sobre a análise das necessidades reais da comunidade em torno de uma biblioteca, mas que podem muito bem ser aplicadas à qualquer serviço de informação.


Os  nativos digitais

Um ponto em comum à todas é a forte presença dos perfis chamados de “nativos digitais”.  Carol, assumidamente uma “imigrante digital”, em suas palavras, discutiu sobre como lidar com os nativos digitais que frequentam a biblioteca e qual serviços podem ser oferecidos a eles: acesso remoto ao catálogo, podcasts e coleções digitais projetadas para dispositivos móveis, como iPads, smartphones e livros eletrônicos.

A biblioteca como um lugar social

Mesmo sob esta realidade, Carol não acredita que eventualmente a biblioteca física poderá desaparecer. “Ela existe há 4 mil anos. Na verdade, nós, bibliotecários, estamos à frente da tecnologia, somos os melhores “motores-de-busca”. Em 1980, quando eu me formei, eu já ouvia dizer que o microfilme acabaria com as bibliotecas. Tradicionalmente, a biblioteca era um lugar social”, afirmou. E hoje, mais do que nunca, podemos constatar esta afirmação da Carol em bibliotecas híbridas ao  redor do mundo: a biblioteca é, essencialmente, um lugar social.

 A intersecção entre a sua biblioteca e a comunidade

  Carol sustenta uma investigação ampla da comunidade em que se insere a biblioteca, com a identificação dos mais importantes grupos, mas com respeito às comunidades menores. “Quais as lacunas nos serviços para alguns grupos da sua comunidade? Como comunicar para eles o valor das bibliotecas?”, pergunta.

  Como estratégia de ação, é preciso entender como ampliar as funções da biblioteca para sua comunidade. Para isso, Carol recomenda identificar parceiros da comunidade com quem trabalhar e compartilhar suas ideias. E também para levantar fundos para fazer o que for preciso.


  O exemplo da pequena biblioteca de Shutesbury, no estado do Massachusetts, com problemas de infiltração, falta de espaço para as crianças poderem fazer a lição de casa, entre outros,comoveu o público. Com a campanha “Para onde eu vou sem a minha biblioteca?”, a comunidade se organizou e fez um video para levantar U$ 1.4 milhões, pois, assim, conseguiria que o Estado arcasse com os outros 60% dos custos para uma nova instalação. Infelizmente, eles não conseguiram todo o valor necessário, mas o estudo de caso é interessante.




Carol Brey e a Profa Valéria Valls, coordenadora do curso de Biblioteconomia da FESPSP
Este é um dos exemplos que envolve uma ação estruturada em uma estratégia de advocacy, termo criado por Pat Schulman, que se traduz, antes de qualquer outro significado, em uma defesa ardorosa das bibliotecas e sua apropriação pela comunidade na qual está inserida. Em outras palavras, trata-se de transformar a sua biblioteca em um ativo para a comunidade, imputando-lhe valores tangínveis e intangíveis, com um plano de ação que identifica a situação, faz a análise, emprega uma comunicação forte, com redes sociais, videos, impressos; documenta e posteriormente avalia os resultados. Parafraseando o comentário da professora Valéria Valls “ é como rodar um PDCA em gestão”.

Carol Brey entusiasmou o público

Os alunos presentes aproveitaram bastante o que de Carol Brey-Casiano tinha a dizer. Camila Coppola, do 3º semestre matutino, achou a palestra bem interessante: “Superou minhas expectativas. Conheci melhor o serviço de bibliotecas nos Estados Unidos, como funciona. Claro que é uma outra realidade, mas não quer dizer que a gente não vá alcançá-la. Eles tiveram os problemas deles, nós temos os nossos. Agora é batalhar, usando bons exemplos e aplicando aqui.”

 Para Rafael Reche, aluno do 5º semestre matutino, a palestra foi motivadora: “Carol mostrou como o governo dos Estados Unidos trata suas bibliotecas, onde a população participa e busca o melhor para a sua comunidade. A semana de Bibliotecas no Estados Unidos creio que seja um sonho que um dia poderia ver em meu país. Torcerei para isso, tenho convicção que irei mudar algumas coisas para a melhora desta imagem."

 Outros, como Grazielli de Moraes Silva, do 5º semestre noturno, pretende, inclusive, aplicar as reflexões provocadas por Carol Brey em seu TCC. Leia o relato de Grazielli:
  

"A palestra trouxe um amplo leque de conteúdo para a biblioteconomia e para as bibliotecas e ainda contribuirá para construção do meu TCC, que tem como tema “Modelo de Gestão para Bibliotecas Comunitárias”. Claro que a palestra vai para um universo maior de tipologia de biblioteca, já que as técnicas, ideias e modelos apresentados pela Carol são para atrair e trazer a comunidade à biblioteca.
Em tópicos a seguir, será apresentado o ponto de vista dos temas e/ou assuntos tratados pela palestrante:
 - Semana Nacional das Bibliotecas EUA, em que a palestrante mostrou os projetos de ações culturais que são desenvolvidos para promoção da biblioteca. Dentre os eventos citados, ficou claro que podem ser desenvolvidas várias estratégias de aproximação da biblioteca com sua comunidade e até
Carol e Grazielli
uma possível parceria entre biblioteca e comunidade, o que facilitará ainda mais a aproximação dessa comunidade à biblioteca;
- ADVOCACY , um aspecto interessante para a consciência pública (a comunidade sabe que existe uma biblioteca na comunidade?). É trazer a comunidade que não sabe da existência dessa biblioteca para a biblioteca para apresentar os seus vários espaços, serviços e todo o universo de possibilidades existentes, “mostrar que lá tem algo para ele”.
- LOBBYING, que são os profissionais que tem “contato” com o governo para convencê-lo de que tem que fazer algo pela biblioteca. As comunidades importam, por isso deve-se conhecer a comunidade, nem que para isso precise sair da biblioteca e ir até essa comunidade seja em suas casas, seja nos locais que frequentam.  Identifique o que realmente ela precisa (estudo de comunidade).
- Identifique o que pode ser feito através do estudo dessa comunidade;
- Nativos Digitais, que envolve a questão da comunidade que lida com a tecnologia. É mais um nicho para trazer essa comunidade para frequentar a biblioteca, disponibilizando tecnologias, assim a comunidade acaba se interessando por outros serviços da biblioteca só pelo fato de ter se permitido entrar na biblioteca, mesmo que seja através de acesso à internet, à acervos digitais, tanto pelo computador físico como pelos dispositivos digitais;
- Preenchimento de lacunas na comunidade, tendo em vista que cada qual é diferente.
- A utilização da tecnologia, das mídias sociais, da imprensa, rede de apoiadores, e o próprio Consulado para promover a biblioteca;
- Grupo de Amigos,  tendo em vista que as pessoas têm uma variedade de profissões e contatos, isso pode ajudar a biblioteca em vários aspectos como divulgação, ações culturais diversificadas, contatos, apoiadores e muitas outras coisas;
- Envolver a comunidade,  para torná-la participante dessa biblioteca de qualquer maneira para aproximar-lhes da biblioteca.
  Além dos tópicos mencionados, os exercícios passados pela palestrante também foram de extrema valia para identificar mais a fundo como podemos agir para alcançar essa comunidade, já que ela é o foco principal da biblioteca.
A palestrante trabalhou de maneira dinâmica o que facilitou ainda mais o entendimento do assunto tratado, apresentando cases e modelos interessantes que podem ser aplicados à qualquer tipo de comunidade.
A frase que mais define essa palestra é uma falada pela própria palestrante “Biblioteca como um portal e um destino para as necessidades de informação... Biblioteca é uma ponte de conhecimento e oportunidades.”
Ou seja, um portal que permite à comunidade inúmeras construções e oportunidades (sociais,psicológicas, históricas etc.) e um destino para sanar as necessidades informacionais da comunidade, sejam elas de cunho pessoal, profissional, estudantil, empresarial, social, político e qualquer outro."


Quem é Carol Brey-Casiano
Carol Brey-Casiano

Carol A. Brey-Casiano foi presidente da American Library Association (ALA) de 2004 a 2005. É bacharel em Música e Mestre em Biblioteconomia pela Universidade de Ilinois- EUA, e PHD pela Universidade do Texas. Atualmente é diretora  regional dos Centros de Informações e Pesquisas das Embaixadas dos Estados Unidos no Brasil, Colômbia, Paraguai e Venezuela.
 Carol tem viajado por países da América Central e América Latina para conversar sobre a situação das bibliotecas locais, como neste video em que Carol esteve na Universidad Francisco Marroquín, na Guatemala, em 2004.



Análise
A rede de bibliotecas públicas de El Paso: foco total na comunidade e um show à parte 



Como diretora da Biblioteca Pública Central de El Paso, no Texas, na fronteira dos Estados Unidos com o México, Carol vivenciou as dificuldades dos imigrantes mexicanos ilegais e lidou diariamente com esta situação em sua biblioteca. Esta condição de parte da comunidade atendida pela biblioteca tem que ser contextualizada pela própria concepção da biblioteca de El Paso: ela foi pensada como um dos 1.252 repositórios federais de documentos em 1906, como parte do Programa Federal de Depositório em Bibliotecas. Como um repositório selecionado recebe 35% de tudo que o Escritório
de Publicações do Governo  (GPO,
na sigla em inglês) publica. Em 1966 se tornou o depositório de documentos do Governo do Estado do Texas. Na prática, isso significa acesso direto a parte dos documentos do Congresso e arquivos federais e outras publicações selecionadas. Portanto, sua expertise em informações e documentação sobre questões migratórias e direitos cidadãos está totalmente focada na realidade de sua comunidade. Acrescente-se a isso a preocupação com o arquivo histórico da biblioteca que tem como objeto principal a herança fronteiriça e inclui entre suas coleções seminais a RAZA, constituída por e sobre mexicanos descendentes ou nascidos nos Estados Unidos.
Visitando-se o site da rede de bibliotecas públicas desta que é a 19ª cidade mais populosa do país, entende-se perfeitamente a mensagem de Carol: com uma excelente navegabilidade e um layout ao mesmo tempo bonito e funcional, a rede de bibliotecas oferece de tudo para envolver sua comunidade: links com as redes sociais mais populares (twitter, facebook, You tube), jornal informativo específico para cada público (crianças, adolescentes, melhor idade), com o calendário de
Bookmobile da Biblioteca pública de El Paso
atividades, as recomendações de leitura, ajuda para os adolescentes fazerem a lição de casa, o telefone do desk help do serviço de referência, bem abaixo do campo de busca principal do site, entre muitos outros. O destaque é o acesso eletrônico que cada leitor tem, apenas inserindo o número da carteirinha e um número de senha específica, o que lhe confere contato direto com todas as unidades e serviços da rede, inclusive para baixar livros e audiobooks. E a rede de bibliotecas também possui o Bookmobile, um ônibus-biblioteca que passa por bairros periféricos e por centros de compras para atender os usuários. Os itinerários com os dias e horários estão claramente publicados no site, com uma versão para dowload.

 

 Veja mais fotos do evento aqui:
Bibliotecas e comunidades com Carol Brey-Casiano
 

2 comentários:

  1. Boa noite, primeiramente parabenizo a FESPSP e a equipe deste blog pelo post sobre o evento com Carol Brey-Casiano. Já tive oportunidade de de ouvi-la, inclusive de participar de reunião com ela e aprendi muito, além da simpatia extraordinária. Sugiro para quem quiser saber um pouco mais sobre Advocacy para Biblioteca Pública acessar o blog: http://bibmais.wordpress.com/movimento-advocacy/
    abs a toda a equipe

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  2. Olá, Marcia, sua participação é sempre muito rica, ficamos muito satisfeitos que esteja gostando de nosso trabalho. E obrigada por mais essa dica de um blog só para o movimento advocacy!

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