sexta-feira, abril 26, 2013

O trabalho com redes sociais 1: sim, bibliotecários também são experts na área, com Jorge do Prado



Jorge do Prado






Para quem ainda tinha dúvidas, está definitivamente enterrada aquela visão do bibliotecário arredio às pessoas, à convivência social, descolado de seu contexto histórico-cultural e avesso à tecnologia. Jorge do Prado, expert em redes sociais e midias digitais, conversou gentilmente com a Monitoria sobre a atuação nas redes e o domínio da comunicação online. Acompanhe:











MC:  Uma apresentação breve da sua trajetória e atuação profissional hoje:

JORGE: Antes de entrar na graduação, trabalhei dois anos na biblioteca de um colégio particular em Rio Negrinho (norte de SC) e em 2009, morando em Florianópolis, comecei a atuar com os estágios ofertados pela Universidade. Até a quinta fase, fiz um estágio a cada seis meses. Tinha vontade de experimentar tudo o que a universidade poderia me oferecer, então fui bolsista em projetos de pesquisa, de apoio discente, num ótimo programa de extensão com a Biblioteca do Estado de Santa Catarina, em dois arquivos e como monitor em disciplina de Fontes de Informação. Passei num processo seletivo para assistente de biblioteca na Faculdade de Tecnologia Senac Florianópolis ainda como estudante e é onde estou até hoje. Fui um dos organizadores do Bibliocamp 2012. Sou formado pelo ótimo curso de Biblioteconomia com habilitação em Gestão da Informação da UDESC e pós-graduando em Gestão da Comunicação em Mídias Digitais no Senac Tecnologias da Informação. 

MC: Conte um pouco como você se interessou por tecnologia em geral até chegar a especialização em Gestão da Comunicação em Mídias Sociais.

JORGE: Sinceramente, nunca fui fã de tecnologia - talvez porque tive pouquíssimo acesso em Rio Negrinho. Gosto é de livros! Tenho uma boa biblioteca particular, adoro comprar livros e passar horas em livrarias, discutir literatura e o mercado editorial. Foi com o Twitter, algumas disciplinas da graduação e as primeiras leituras para o TCC que me fizeram ser apaixonado por tecnologia e o fenômeno das redes sociais. Hoje vasculho a internet buscando por alternativas inovadoras e o que as redes sociais podem fazer para (e pela) Biblioteconomia. Meu TCC versa sobre o uso das mídias sociais na técnica da narrativa transmídia para marketing em bibliotecas e foi bastante desafiador. Na nossa área ainda há escassez sobre trabalhos de mídias sociais (muitos relatos, pouca inovação e reflexão), talvez por causa dos currículos dos cursos de graduação, talvez porque tudo é muito novo ainda... não sei. Fui para esta pós-graduação, com cunho mais mercadológico, entender como se vende produtos tangíveis para que depois eu traga uma adaptação para a "venda de informação", nosso principal produto. Mas não somente isso, quero entender também, "em miúdos", como as redes sociais funcionam para que tragam alguma diferença para nosso mundo real, desde o software e hardware até a motivação das pessoas para estarem nestes espaços digitais.

MC: Quais são seus canais online (blogs, colunas em sites, grupos no Linkedin, etc)?

JORGE: Meus primeiros canais foram blogs: meu primeiro blog (2007) virou parceiro de um projeto digital da Editora Abril e passei a escrever para eles por um ano e recentemente criei o 2000caracteres. Pessoalmente, sou bastante atuante no Twitter, estou no Facebook, Instagram, LinkedIn (onde tenho um recém-nascido grupo de discussão sobre mídias em bibliotecas, que ainda é novo e precisa de membros). Profissionalmente, sou curador de conteúdo para a fanpage da Faculdade onde trabalho e gerencio a comunicação das mídias do XXV Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação (CBBD) organizado pela FEBAB, que acontecerá aqui em Florianópolis..

MC: No artigo "Facebook? Só conheço 'book': sobre bibliotecários que não estão nas redes sociais" temos o ponto de vista de que a pesquisa hoje tem um caráter mais social, mais próximo da inteligência coletiva preconizada por Pierre Lévy. Como isso está influenciando o mundo acadêmico, restrito e mais subserviente às regras e padrões?

JORGE: Esta tal de "inteligência coletiva", "sabedoria das multidões", é realmente fascinante, não?! O interessante é que as publicações estão demorando a perceber isso. Mas penso positivo e que logo isso vai mudar, tomemos como exemplo a Lei de Acesso à Informação nos portais públicos (ok, ok, talvez seja ainda uma lei muito da teoria do que da prática, mas avante, já perceberam a necessidade e criaram a lei!). Grandes empresas hoje estão errando menos porque estão aceitando a opinião de seus clientes, se atentando às suas emoções (marketing do sentimento) e tornando isso lucrativo. A iniciativa do acesso aberto traria grandes mudanças se fosse mais social e sei de alguns estudos e trabalhos (nacionais) que mostrarão isso quando forem publicados.

MC: Neste mesmo artigo, o último parágrafo faz uma provocação para nossa classe:

“(...)Nós bibliotecários, em diferencial a estes profissionais, temos noção que há este estado de mudança e que para prosperar precisamos nos adequar às mudanças. O único problema, é que não temos tamanho potencial (ainda) de influenciar grande número de pessoas e organizações, como deveríamos.

Como podemos nos apropriar desse potencial e influenciar esse grande número de pessoas e organizações?

JORGE: Primeiro precisamos parar de reclamar tanto. Em algumas listas de discussão a reclamação é tanta que parece que estamos num descaso total, sem solução. Para que possamos ser bons e influentes articuladores nas redes sociais, precisamos começar com passos pequenos, mas sempre visando o maior. Penso que faremos influência digitalmente se tivermos uma boa presença real, com um trabalho bem feito em nossa unidade de informação, mostrando a quem pouco conhece tudo o que o bibliotecário pode fazer. O contrário também é válido, pois não adianta seguir todo mundo, vender uma imagem nas redes sociais que não se encaixa com a sua aqui fora, provocar discussões em grupos e deixa-las morrer. E tem que ser audaz! Se quer trabalhar nesta área, tem que mostrar como o bibliotecário pode fazer um bom serviço por meio de suas capacidades e competências. O que corre nestes espaços é informação, o nosso produto, matéria-prima do ofício; deveria ser fácil não?! Para influenciar um grande número de pessoas e organizações, vamos deixar nossa unidade de informação contextualizada, preparada para as mudanças e tornar isso perceptível às pessoas, depois, como indivíduo bibliotecário, torna-se mais fácil. Parece utópico, simples, mas dá certo sim, precisa ser paciente e mostrar bons resultados quanti e qualitativos e ótimas razões para dar os primeiros passos. Tem dado certo aqui comigo! :) 

MC: Da extensa lista de livros que você já leu e estão no seu blog 2000 caracteres, quais ainda permanecem balizadores do seu pensamento hoje?

JORGE: David Weinberger lançou em 2007 um livro com dedicatória para os bibliotecários intitulado "A nova desordem digital". Li pela primeira vez em 2011, já o reli e de vez em quando retomo alguns capítulos para me inspirar. Ele traz um contexto fascinante do que está acontecendo na educação, nos negócios, na ciência; enfim, em tudo onde a tecnologia está trazendo algum diferencial. Também dele, tem o "Too big to know", ainda sem tradução por aqui, mas que é incrivelmente ótimo e cheio de exemplos e mais inspirações. Exemplos longínquos e fora da realidade do Brasil? Gil Giardelli escreveu "Você é o que você compartilha" e não há uma página do livro sem um QRcode que o direcione para bons exemplos nacionais. Para quem quer seguir nesta área que leva a Biblioteconomia para a sociabilidade digital, acho estes dois títulos de leitura necessária. Aliás, fico enfurecido como bibliotecário lê pouco e ainda se acha capaz de falar com propriedade sobre promoção da leitura, isso realmente é vexante para a nossa profissão.


MC: E quais personalidades da área de Ciência da Informação hoje devem ser acompanhadas?

JORGE: Vai depender das áreas que você gosta mais. O bacana, e desafiador, da Biblioteconomia é esta inter e multidisciplinaridade que te permite adaptar e trazer melhorias para a nossa área, por isso que gosto bastante de seguir o pessoal que estuda cultura digital, internet, neurociência, literatura e cinema. Especificamente da Ciência da Informação para acompanhar nas mídias sociais, sugiro o Aldo Barreto, Moreno Barros, Elisa Corrêa, William Okubo, Thiago Murakami, Alexandre Berbe... eles costumam sempre estar postando links e discussões interessantíssimas. No Facebook você encontra mais professores e profissionais, que participam de vários grupos abertos que discutem leis, iniciativas culturais, progresso da área... tem de tudo um pouco. Conheço outros grandes nomes que estão nas mídias, mas que infelizmente são mais off do que online. E já deixo a sugestão: por que as páginas dos cursos, onde se apresentam os docentes, também não colocam os links das redes sociais ao invés de somente o Lattes? Tem muita timeline mais interessante (e atualizada) do que alguns artigos aí.

MC: Recomendações para nós, estudantes de Biblioteconomia e Ciência da Informação?

JORGE: Aos que estão em início de curso: imprescindível ler (ou conhecer) os clássicos da Biblioteconomia para criar senso crítico. Jamais achar que você ficará exclusivamente trancafiado numa biblioteca ou que você não terá emprego porque "os livros estão morrendo". Parece besteira dizer isso, mas muitas pessoas ainda creem nestas duas questões.
Aos que estão no fim do curso: é só o começo. Continue sempre a estudar. Se Biblioteconomia foi sua segunda opção, volte para a primeira e intercale as duas e se torne assim um ótimo profissional em informação especializada de determinada área. Se você sempre quis ser bibliotecário, amplie as áreas que você mais gosta e inove sempre! Nossa área precisa inovar!

Recado final: não entre em todas as redes sociais, mas somente naquelas onde seus usuários estão. Também não deixem de lado uma boa catalogação, indexação, serviço de referência e atividades culturais bem realizadas de fora. Ser ativo em alguma rede social e não pensar que estamos na "modinha" das redes sociais é extremamente importante, pois elas vieram para ficar e transformar. Portanto, equilibre-se, transforme-se num ser cíbrido! Um abraço.


 Quem é Jorge do Prado



Jorge do Prado




Jorge Moisés Kroll do Prado é graduado em Biblioteconomia, habilitação em Gestão da Informação, pela Universidade do Estado de Santa Catarina. Pós-graduando em Gestão da Comunicação em Mídias Digitais pela Faculdade de Tecnologia Senac Florianópolis. Tem como principais temáticas de estudo voltadas ao uso das mídias sociais de forma a inovar a gestão de unidades de informação.






 

Um comentário:

  1. Quero muito entrar em contato com Jorge. Irei stalkeá-lo no google. Abraço a quem puder ajudar.

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