sexta-feira, setembro 08, 2017

Série: Era Uma Vez... Por Gabriel Justino de Souza.



Fiquem com mais um conto escrito pelo Gabriel Justino nosso monitor voluntário do 6º Semestre/Noturno para a série: Era Uma Vez... e vejam como mesmo na dura realidade descrita, há sentimentos que podem e precisam ser aflorados, nesse mundo de concreto em que as relações estão tão cinzas e duras quanto.


Fonte: Folha de São Paulo.


 Ainda Sou humano 


Já fui um pai de família, já fui membro da sociedade, já fui um bacharel, e hoje estou aqui neste lugar esquecido por Deus e abandonado pelas autoridades. Talvez você que ande por aqui e observa este lugar degradado, pense que não sou mais humano, sou só a escória da escória não é mesmo? Sou um drogado! E por causa disso não faço mais parte da sociedade, por isso deixei a minha condição de ser um ser humano e passei a ser um animal que não pensa e não raciocina, e por isso, na sua visão mereço a morte.

Que caiam as bombas, o gás lacrimogênio, as balas de borracha, porque nós não merecemos mais que nos enxerguem, aliás, é isso que você faz tododia néh?! É mais fácil se esconder, fingir que somos invisíveis, uma sociedade invisível que vive dentro de outra sociedade, alheia de nossas necessidades. 

Não sou bandido, mas já roubei para sustentar meu vício, você não faz a mínima ideia do que é ficar sem minha dose, ou sabe? Você não imagina a dor que meu corpo sente, os espasmos que me atacam logo nas primeiras horas sem meu “remédio diário”, você não entende que isso faz parte do meu corpo, assim como a água que eu tomo todos os dias, sem ela fico em estado de pânico, parece que meu corpo entrará em colapso, não consigo, não consigo, não consigo parar, tão certo como a manhã que irá nascer é o meu desejo de poder frear isso, mas como posso parar meu vício, se já me entreguei totalmente as drogas? 

Não sou usuário de drogas porque elas que me usam, sou refém de mim mesmo, e não encontro um único refúgio em minha mente que possa me salvar, tudo já está destruído: minha família, meus amigos, acabei com a minha vida por miseras pedras de crack e por um pouco de pó. 

Eu perdi, eu perdi, eu perdi minha esposa, minha mãe, meus filhos, eles não podem me ver assim, não sou quem eles conheceram. Não sou mais. Acho que não sou mais humano! O que é ser humano? O que te torna humano? Ser um ser racional, diferente dos animais? Mas como você pode ser racional?achando que o mundo pode ser melhor com a minha morte, acho que é melhor morrer mesmo, já que para você sou um verme, que já não tem mais condições de viver em sociedade, que quando “escolheu” o mundo do vício, escolheu a sentença de morte, você deve achar que era meu sonho de criança: “nossa quando eu crescer vou ser usuário de drogas e aí as pessoas vão me ignorar, não serei mais humano e vão me matar”...

Talvez se fosse visto como um ser humano que está doente e que precisa de ajuda, não estaria, aqui nesta calçada jogado, juntando míseros trocados para sustentar meu vício. Você me enxerga? Além das roupas de mendigo, dos olhos vermelhos? Estou aqui na sarjeta e você em uma vida confortável, só que diferente de você, não consigo reconhecer que estou doente e o “hospital” é uma tortura, acho que quando sair do hospital não estarei curado, mas a doença voltará, assim como um câncer maligno que se espalha pelo corpo e vai matando aos poucos.

A quem estou querendo convencer, para você seria melhor que minha existência fosse apagada, acho que a humanidade se esqueceu que um grande homem disse para amarmos ao próximo como a nós mesmos. Mas se você deseja minha morte e é esse o amor que sente por mim, talvez seja melhor que todos nós morrêssemos, pois eu perdi minha racionalidade para as drogas e você para a insensatez, estupidez e cegueira para ser empático e se encaminhar para aqueles que gritam silenciosamente por um tipo de ajuda.
 

Um comentário:

  1. Nossa sociedade está doente, a cura está na empatia,fraternidade e no amor, sentimentos perdidos atualmente. Esconder ou maquiar um problema não o resolve. Parabéns, Gabriel, por colocar o dedo na ferida...

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