quinta-feira, março 28, 2013

O bibliotecário-gestor em biblioteca pública: William Okubo



William Okubo

William Okubo é uma da figuras mais presentes e atuantes da Biblioteconomia no país. Da área de gerenciamento e apoio de uma das maiores bibliotecas do Brasil, a Mário de Andrade, faz vôo de condor para analisar o cenário da biblioteca pública e cultiva o saudável hábito de visitar outras bibliotecas sempre que pode, para pesquisar no acervo, retirar livros, e claro, conversar com seus funcionários sobre tudo, inclusive, sobre bibliotecas públicas. E uma conversa com William é uma parada para pensar e sorrir, pois esse filho arretado de japonês com uma pernambucana faz da prosa um mar rico de histórias da literatura contemporânea e das bibliotecas por onde passou.  Desde quando se formou em 1998 na USP, William tem se dedicado à área cultural e a promoção da biblioteca pública, propondo renovação e ação efetivas. Nesta entrevista gentilmente cedida para o blog da Monitoria Científica, William Okubo conversou com nossa monitora voluntária, Juliana França, sobre desafios e possibilidades na biblioteca pública:


MC: Por que escolheu a Biblioteconomia como sua profissão?

OKUBO: Lembro-me que até a metade do ensino médio, quando tinha uns 16 ou 17 anos, eu não era um bom aluno na escola e nem um leitor. Foi pegando por acaso um livro do Érico Veríssimo, o ótimo "Olhai os lírios do campo", pelas estantes de casa que fui fisgado pela literatura e pela leitura, e a partir deste momento comecei a participar mais ativamente das aulas, a ser escolhido para buscar informações para montar e depois apresentar os seminários. A partir deste momento, notei que tinha jeito para pesquisar informações e depois disseminá-las. Daí a escolher o curso de Biblioteconomia foi um passo natural, tanto que as matérias que mais gostei (apesar de nem sempre ter tirado boas notas - engraçado isso) foram aquelas ligadas à disseminação da informação e as de teor mais cultural/educacional.

MC: Quais os desafios que você encara como fundamentais para o aprendizado na área? 

OKUBO: É difícil generalizar quais são os desafios, porque cada campo de atuação tem suas próprias dinâmicas e problemas, mas creio que é preciso ter uma posição proativa desde o início da carreira, seja nos estágios ou nas projetos de iniciação científica. Essa posição proativa inclui buscar informações com os colegas mais experientes, mesmo que você não realize a mesma atividade que eles. A curiosidade ajuda nesse quesito. Um exemplo: devo ter catalogado uns 20 ou 30 livros durante minha carreira, mas mesmo assim, cheguei a supervisionar a área de catalogação de duas bibliotecas. Mas como é possível isso? Acontece que apesar de nunca ter catalogado/classificado obras, eu sempre espiei de perto a forma como os profissionais especializados nestas áreas trabalhavam, hora ou outra sempre conversava e converso com eles,  e claro, analiso o resultado de seu trabalho lendo etiquetas de lombada e catálogos eletrônicos, sem contar que sempre dava uma olhada artigos dessa área.


MC: O que te motiva a atuar numa Biblioteca Pública?

OKUBO: Primeiro é que mesmo sendo meio tímido, gosto do contato com as pessoas, e o ambiente da Biblioteca Pública é exatamente este.

Outra coisa que sempre me motivou e ainda me motiva é a possibilidade de ajudar as pessoas a encontrarem o que procuram. Querendo ou não, passamos a vida procurando coisas, e acredito que a biblioteca pública é um dos lugares onde as encontramos. Nelas podemos encontrar o nome e os efeitos de um remédio ou obter informações sobre uma doença que o médico mal humorado não teve paciência de explicar. Também podemos encontrar livros que nos ajudem a superar a falta dinheiro, de um emprego, de amizade, de tempo, tudo isso em obras de auto-ajuda, por exemplo. Por fim, nas Bibliotecas Públicas podemos aprender mais sobre relacionamento lendo romances, ou mesmo, viver romances que infelizmente na vida real não temos coragem de viver, sem contar a possibilidade de descobrir mais informações sobre arte, religião, filosofia e esportes.

Enfim, acredito que a biblioteca pública pode prover todo tipo de informação e entretenimento, e é por acreditar que isso é possível que ainda me motivo, apesar de saber que por mais que esteja em curso uma modernização das mesmas no país, o caminho para termos bibliotecas que atendam ao menos metade do que prevê o "Manifesto da UNESCO para as Bibliotecas Públicas" é muito longo. O desafio é enorme!

MC: A Biblioteca Pública é uma área em constante renovação. Na sua experiência, qual a mudança mais positiva que favoreceu a interação entre usuário e profissional?

OKUBO: Infelizmente, somente nos últimos anos a renovação retornou ao ambiente das Bibliotecas Públicas do país. Ao ler ou ouvir sobre a história delas aqui em São Paulo, por exemplo, vemos que a partir da década de 1930 até meados dos anos 1980 o ambiente era de inovação e implantação de bibliotecas e de serviços de extensão. Porém, em algum momento, essa renovação ficou meio travada. E o travamento não foi culpa dos profissionais apenas, que fique claro. O travamento ocorreu devido à transformação do Estado brasileiro em uma máquina pesada e extremamente ineficiente, cheio de regras para evitar corrupção (e como vemos essa estrutura toda não conseguiu evitar tantos e tantos casos). Tudo é lento, tudo é demorado, e como as BPs estão dentro desse sistema está sendo extremamente difícil mudar isso, mas vejo avanços desde que cheguei aqui no final de 2001.

A mudança principal que vi nesses anos é aparentemente bem simples: o retorno do bibliotecário às atividades de mediação de leitura e de busca à informação. Devido a histórica falta de pessoal, boa parte dos bibliotecários se tornaram gerentes de áreas e ficavam nas suas mesas de trabalho, e com isso, a área de atendimento ficou sem nossa presença. Com a retomada de contratação de profissionais (insuficiente!) e algumas mudanças de estrutura organizacional (insuficientes!) novamente temos bibliotecários no atendimento direto e também orientando os auxiliares e estagiários. O bibliotecário como mediador, estimulador de leitura e recuperador da informação, com o apoio atual da Tecnologia da Informação, faz milagre!

Lá na Biblioteca Mário de Andrade, na Biblioteca Monteiro Lobato e também no Ônibus-Biblioteca onde trabalhei sempre que o bibliotecário estimulado e com perfil de atendimento foi deslocado para "o matadouro" os resultados foram impressionantes. Na Monteiro Lobato, por exemplo, a colocação de três bibliotecárias leitoras de livros infanto-juvenis no setor de empréstimo fez triplicar o número de empréstimo em um ano. Claro que depois desse tempo, elas cansaram de preencher fichinhas, guardá-las em ordem e colocar livros nas estantes. Com isso, elas cansaram, duas caíram fora. Isso aconteceu porque não tínhamos à época a figura do pessoal de nível operacional ou do auxiliar de biblioteca para realizar os empréstimos e também o sistema automatizado de empréstimo hoje em funcionamento, deixando aos bibliotecários o papel de mediador.

MC:Dê um conselho aos estudantes de Biblioteconomia e Ciência da Informação sobre a Gestão em BP.

Juliana França e Andrea Andira, monitoras da MC, e William Okubo
OKUBO: A gestão de BP´s não é fácil como escrevi acima. Mas estamos em um momento onde novas formas de gestão estão em implantação.

O caso da Biblioteca de São Paulo (BSP) é um deles: com uma Organização Social gerindo-a, a contratação de pessoal, de prestadores de serviços especializados e a aquisição de acervo se tornam mais ágeis, liberando tempo dos gestores para implantar inovações nas áreas de atendimento e ação cultural. Porém, não é um sistema consensual, pois sabemos que nem sempre a seleção das OS é feita baseando-se em critérios técnicos. Não é o caso aparentemente da BSP. Destaco também o ótimo trabalho nas Bibliotecas Parque do Rio de Janeiro.


Ao mesmo tempo, apesar de ser uma biblioteca ligada à administração direta da Prefeitura de São Paulo, lá na Biblioteca Mário de Andrade, conseguimos enfrentar os entraves burocráticos e algumas barreiras foram rompidas:

- agilizamos as compras de livros prospectando em órgãos públicos que compram de forma diferente da tradicional e apresentando essas inovações ao pessoal da área administrativa e jurídica que nos apoiou nessa mudança. Conseguimos criar um edital para compra via pregão, nessa modalidade de compra, depois que a distribuidora de livros  apresenta o melhor desconto, basta encaminharmos uma lista de livros e pronto, os recebemos. Falta um pregão para comprar livros estrangeiros.
Ainda compramos diretamente das editoras, onde para cada compra ainda é aberto um processo administrativo, que conseguimos simplificar, mas o desafio é comprar várias vezes ao ano pelo mesmo processo.

- na área de tratamento da informação, além da criação do setor na Biblioteca (antes toda compra e catalogação/classificação era centralizada na Coordenadoria do Sistema Municipal de Bibliotecas) e da ampliação da equipe, aumentamos a velocidade de processamento diminuindo o tempo entre a chegada do livro e sua disponibilização ao público, certamente descem para as áreas de atendimento mais de 100 livros por semana! Era algo impensável isso antes, tanto que lá havia muita coisa sem catalogar parada há anos (ainda há, mas diminuiu muito).

- também foi possível em uma reestruturação criar cargos de confiança técnicos, onde só bibliotecários podem ser contratados, e nesse caso, quando não encontramos algum profissional entre os efetivos (concursados) com o perfil do serviço ou projeto que queremos desenvolver, podemos selecioná-lo no mercado e contratá-lo. Deu muito certo, apesar de algumas (está bem, várias!) críticas a esse modelo, e exatamente por ter essas críticas é preciso estudar melhor essa estrutura, e o momento de mudança de gestão agora é ideal para isto.

Enfim, é preciso que o bibliotecário obtenha conhecimentos de administração pública e seja criativo para buscar coletivamente caminhos para desobstruir obstáculos que ainda impedem as BP´s de se posicionarem melhor na área cultural, e claro, começar a pensar em caminhos novos que terão que ser trilhados com eventos novos com o livro digital.

Veja um pouco mais sobre o trabalho de William Okubo:

Na #Bibliocamp 2011, evento que propôs discussões sobre Biblioteconomia inspirada no BarCamp, William Okubo foi um dos palestrantes com o tema Inovações na gestão de bibliotecas públicas.




Saiba um pouco mais sobre a Biblioteca Mário de Andrade:

Viagens do conhecimento em 327 mil livros, a propósito da reabertura da Biblioteca Mário de Andrade em 2012


Biblioteca Mário de Andrade

5 comentários:

  1. O William é mesmo um profissional ímpar! Obrigada pela sua mensagem, Margareth, e continue acompanhando o blog da Monitoria Científica!

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  2. O William é show, dedica muito do seu tempo a Biblioteconomia...mas dizem que quem faz o que gosta não está trabalhando...William une o útil ao agradável. Adoro esse Bibliotecário que já deu inclusive uma entrevista no Caçadores de Bibliotecas. Vejam que legal: http://cazadoresdebiblioteca.blogspot.com.br/2012/05/william-okubo-profissao-bibliotecario.html

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  3. Olá, Soraia, obrigada pela sua mensagem. Sua palavras sobre o William reforçam o valor do trabalho do bibliotecário dedicado, e a sua entrevista teve reflexos nesta para o blog da Monitoria, tenha certeza!
    Continue acompanhando o nosso trabalho!

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