quarta-feira, março 27, 2013

O bibliotecário-gestor público: Elisa Machado



Elisa Machado

Biblioteca Pública. É assim mesmo, com maiúsculas cheias de orgulho, que Elisa Machado se refere às milenares instituições. As 5.565 unidades identificadas no último Senso Nacional de Bibliotecas Públicas (2011) fazem parte do  Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, que Elisa coordenou recentemtente, junto com o Cadastro Nacional de Bibliotecas. Em entrevista gentilmente cedida ao blog da Monitoria Científica FaBCI-FESPSP, um pouco antes de deixar o cargo, Elisa conclamou os cursos de Biblioteconomia e Ciência da Informação a olharem com mais atenção para a Biblioteca Pública, trazendo o tema para debates e estimulando a pesquisa.  
"Precisamos ampliar o número de profissionais que atuam em Bibliotecas Públicas", afirma Elisa, que compõe nosso perfil de Bibliotecário-gestor público. Acompanhe a entrevista:




MC:  Na sua função, frente ao Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, como é sua rotina de gestão?

ELISA: O Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) está atualmente subordinado à Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), da Fundação Biblioteca Nacional (FBN). Tem por objetivo ampliar e fortalecer as ações e serviços desenvolvidos pelas bibliotecas públicas e comunitárias, com vistas à democratização do acesso à leitura e à informação no Brasil.

As premissas básicas que permeiam os trabalhos do gestor do SNBP são o diálogo, a transparência, a responsabilidade e o estímulo ao controle social, dentro de um modelo de gestão integrado com as Coordenadorias dos Sistemas Estaduais de Bibliotecas Públicas.

Fundamentalmente, a direção do SNBP trabalha com políticas públicas e todas as suas ações tem por foco a construção de uma cultura colaborativa, com vistas ao estabelecimento de diretrizes, marcos legais e orientações para ampliar e qualificar os espaços e serviços oferecidos por esse tipo biblioteca no país.

À direção do SNBP cabe administrar os recursos públicos destinados à modernização e instalação de novas bibliotecas públicas, assim como à capacitação de pessoal que atua nesses espaços. Isso significa planejar e gerir o orçamento público da área, cuidando para que os investimentos sejam realizados de forma igualitária, privilegiando as áreas e populações que encontram-se em situação de maior vulnerabilidade em relação ao acesso à informação e à leitura.

A rotina da direção do SNBP é pautada também pelas articulações com os Estados e os Municípios, o que significa contato direto e estabelecimento de relações de trabalho conjunto com gestores públicos locais, sejam eles secretários de cultura, prefeitos, governadores, coordenadores de sistemas e/ou redes locais de bibliotecas, assim como bibliotecários e profissionais que estão a frente das Bibliotecas Públicas e comunitárias.

Outra atividade que é realizada pela direção do SNBP é o fomento à pesquisa na área de bibliotecas públicas. Precisamos ampliar o número de profissionais que atuam em Bibliotecas Públicas e, para isso, é determinante que o SNBP incida positivamente junto às universidades e escolas de Biblioteconomia e Ciência da Informação, no sentido de colocar a Biblioteca Pública na pauta destas instituições. Precisamos de mais pesquisa e mais projetos de extensão voltados para a temática das Bibliotecas Públicas brasileiras.

As articulações com diferentes instituições, públicas e privadas, nacionais e internacionais, da área do livro, leitura e literatura, também fazem parte das rotinas da direção do SNBP.  Entendemos que é necessário somar esforços e aproximar ações e projetos de qualidade que estão sendo liderados por instituições, empresas, organizações da sociedade civil e cidadãos comuns.

Dirigir o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas requer muita energia e comprometimento, pois o volume de trabalho é grande e, como a maioria dos órgãos públicos, não possui estrutura organizacional, infraestrutura tecnológica e equipe suficiente para atender às inúmeras e diversificadas demandas que recebe.

Além disso, a burocracia no servico público brasileiro é imensa, fazendo  com que grande parte do dia do gestor seja consumido na administração de processos, contratos, convênios e em uma série de procedimentos administrativos. Nesse contexto, um dos grandes desafios é lidar com a administração do órgão de maneira eficiente e eficaz, sem perder o foco na articulação e no fomento ao trabalho em rede.

MC: Quais são as competências para se desenvolver bem essa gestão?

É importante esclarecer que este é um cargo de gestor público que tem caráter comissionado e, por esse motivo, vai além de um cargo técnico administrativo.

O cargo exige competências políticas, que se traduzem em habilidades de comunicação, relacionamento e análise estratégica. Nesse contexto, o gestor precisa dialogar com os diferentes atores e líderes locais para interferir positivamente na realidade das Bibliotecas Públicas e comunitárias. Além disso, suas decisões são pautadas nas demandas locais, portanto, deve levar em consideração, por exemplo, indicadores sociais, econômicos, educacionais e culturais.

Exige também competências na área de Biblioteconomia e Ciência da Informação, leitura e literatura o que envolve habilidades específicas em áreas técnicas e normativas, tais como desenvolvimento e tratamento de acervos, assim como em áreas relacionadas aos serviços de referência e ação cultural.

Nesse sentido, considero imprescindível que o gestor tenha conhecimento profundo da realidade das Bibliotecas Públicas no Brasil e no mundo. Gosto sempre de lembrar que existem vários tipos de bibliotecas e que cada uma delas tem as suas especificidades, portanto, é importantísssimo conhecer a realidade destas instituições e dos atores que atuam nesses espaços. Esse conhecimento dará melhores condições para que o gestor público seja sensível às diferentes realidades que temos em nosso país.

As competências administrativas, voltadas para a gestão participativa, são inerentes ao cargo de direção do SNBP. Um sistema se suporta com base em uma gestão matricial que resulte em ações efetivas, sistêmicas e intersetoriais. Assim como é inerente também o domínio de diferentes ferramentas tecnológicas e de gestão.  Diagnóstico, planejamento, monitoramento e avaliação das ações desenvolvidas pela instituição, utilizando tecnologias de informação e comunicação, fazem parte do dia a dia desse gestor.


MC: Como a produção acadêmica feita hoje no mundo e no Brasil lhe auxilia na gestão? Há artigos, pesquisadores, revistas de destaque?

A produção acadêmica é fundamental para ampliarmos o conhecimento na área e melhorarmos as práticas cotidianas e, no Brasil, atualmente a Biblioteca Pública carece de pesquisa e de produção científica. Isso é extremamente prejudicial para nós, brasileiros, pois os poucos profissionais que se formam em Biblioteconomia no país não tem informação e conhecimento suficiente sobre o potencial transformador que é a Bibliotecas Públicas e, por conseguinte, não lutam para reverter a atual situação das mesmas.

Já tivemos no Brasil bons momentos de pesquisa e produção de conhecimento nessa área, no entanto, a partir dos anos 1990 tivemos uma queda brusca das pesquisas sobre o assunto. Entendo que, com a ampliação do uso e aplicação das tecnologias de informação e comunicação, os interesses acadêmicos se voltaram para as áreas especializadas e de negócios, onde também encontravam-se os melhores salários.


"Sem pesquisa a área não avança e a situação das Bibliotecas Públicas tende a se agravar, pois se nem os bibliotecários que estamos formando entendem o que é e o que pode uma biblioteca pública fazer para transformar a realidade de uma determinada comunidade, que dirá os gestores públicos locais e a sociedade desprovida de equipamentos e serviços culturais de qualidade?"


Nesse sentido, vale informar que o SNBP tem investido na ampliação do Fórum Brasileiro de Bibliotecas Públicas, evento que tem o objetivo de se firmar como um espaço para a divulgação e troca de informações sobre as pesquisas e práticas bibliotecárias que tenham como foco a Bibliotecas Públicas. O Fórum vem sendo realizado desde 2009, como um evento paralelo ao Congresso Brasileiro de Biblioteconomia e Ciência da Informação (CBBD) e, este ano, está na sua 3a. edição. Acontecerá em Florianópolis no periodo de 07 a 11 de julho.  Mais informações podem ser obtidas no site do SNBP (www.snbp.bn.br), ou no site do CBBD (http://xxvcbbd.febab.org.br).

MC: Qual a percepção da biblioteca pública brasileira sobre sua própria gestão? E no nível mundial? Como os outros países enxergam o Brasil na gestão de bibliotecas públicas?

Acredito que os bibliotecários que atuam nesses espaços têm a noção de que precisamos avançar e melhorar nossas práticas de gestão. No entanto, dentro da realidade brasileira, é preciso levar em conta que nem todas as bibliotecas públicas contam com bibliotecários no comando dessas instituições, ou com profissionais capacitados para gerir uma unidade de informação e leitura desta natureza.

Sem dúvida alguma existem excelentes profissionais fazendo a diferença em suas localidades ao administrar com maestria Bibliotecas Públicas no país. Mas, noto também, no dia a dia da administração da maioria das bibliotecas, a falta de compreensão, por parte dos bibliotecários, do que é atuar com um gestor público.

A administração de uma biblioteca requer profissionais com perfil articulador e aberto ao diálogo. Um profissional disposto a enfrentar desafios, a estimular a constituição de equipes criativas e a desenvolver ou apoiar projetos inovadores. Atualmente estamos enfrentando inúmeros desafios na gestão das bibliotecas públicas e isso as transformam em espaços incríveis de protagonismo. Tanto isso é verdade que temos visto no Brasil e no mundo afora profissionais de todas as áreas do conhecimento prontos para nos ajudar a melhorar, atualizar, qualificar esta instituição milenar. Mas, ainda percebo que muitos bibliotecários não estão preparados para atuar nesse contexto.


 "O bibliotecário tem que entender que para sobreviver terá que sair da cômoda posição de receptor e executor e assumir o papel de  protagonista nessa história."


Em relação a como o mundo vê a Bibliotecas Públicas brasileira acredito que, tendo em vista a diversidade e consequente complexidade social e cultural do nosso país fica difícil para os outros países terem uma noção exata da nossa realidade. No entanto, os países iberoamericanos têm se aproximado bastante nos últimos anos. Uma iniciativa resultante dessa aproximação é o Programa Iberoamericano de Bibliotecas Públicas,  IBERBIBLIOTECAS, que reúne fundos para apoiar os sistemas nacionais e locais, as bibliotecas públicas e profissionais que atuam nesse segmento. O Brasil foi um dos primeiros a aderir a este Programa Intergovernamental.

Também no nível internacional estamos estabelecendo uma parceria muito interessante com a Bill & Melinda Gates Foundation, uma instituição que já investe em projetos de Bibliotecas Públicas em vários países da América Latina, África e Ásia e, agora, está iniciando os investimentos na bibliotecas públicas brasileiras por meio do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas.


MC: Quais as perspectivas para os próximos 5 anos: o que é esperado dos egressos dos cursos de graduação e pós em Ciência da Informação e Biblioteconomia?

Com os investimentos que temos implementado, as parcerias que estabelecemos nos últimos tempos, e com a nossa participação em programas intergovernamentais acreditamos que temos condições de interferir positivamente nesse cenário nos próximos anos.

Acredito também que precisamos de um número maior de profissionais qualificados para atuar nessa área, seja na gestão, ou na implementação dos serviços bibliotecários nestes espaços.

"Mas, se não tivermos bibliotecários aptos e dispostos a atuar como gestores públicos, entendo que outros profissionais irão assumir nosso lugar como protagonistas de projetos inovadores para Bibliotecas Públicas. E, a Biblioteconomia e a Ciência da Informação vão perder um espaço incrível de atuação, pois a Biblioteca Púbica tem tudo para se repaginar e se firmar nesse cenário de informação e tecnologia que pauta o mundo contemporâneo."





6 comentários:

  1. Gostaria que fizessem outra matéria com ela a respeito de bibliotecas comunitárias! seria possível isso? Obrigado a Elisa Machado e a MC pela matéria

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  2. Olá, Bibliotecário Sustentável, seria sim! Vamos colocar em pauta, e você está convidado a participar. Obrigada pela sua mensagem!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Muito boa a entrevista concedida pela Elisa Machado. Penso da mesma maneira que ela em relação a postura que (enquanto bibliotecários) precisamos decidir ter. Digo decidir porque esse pensamento precisa ser elaborado e compreendido para que a nossa atuação seja efetiva.
    Parabéns Elisa pela sua visão moderna e realista da situação das BPs!

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  5. Olá, Malena. A sua colocação é definitiva do valor do trabalho de qualquer profissional de informação.
    Obrigada pela sua mensagem e continue acompanhando o blog da Monitoria Científica.

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  6. Muito boa a entrevista, no entanto, a própria administração pública não reconhece a importância do bibliotecário como gestor público. Na maioria dos casos a indicação política fica acima do bom desempenho.

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